sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Resenha de "O homem duplicado", de José Saramago: a perda, a busca e a construção do eu


Muitos já escreveram sobre a possibilidade de haver pessoas iguais num mesmo tempo e lugar. Mark Twain, grande escritor norte-americano, criou uma excelente obra, conhecidíssima, chamada O príncipe e o mendigo (1882), na qual dois meninos iguais são criados em diferentes contextos e depois cada um vive a vida do outro. Um livro repleto de críticas e reflexões do autor sobre a sociedade de sua época.

Meio século depois, Aldous Huxley revolucionou a literatura com sua obra-prima, o Admirável mundo novo, de 1932. Nesta distopia não há apenas duas pessoas iguais, mas dezenas! Nas palavras do próprio livro:

Gêmeos idênticos — mas não em insignificantes grupos de dois ou três, como nos velhos tempos da reprodução vivípara, quando um ovo se dividia às vezes, acidentalmente, e sim em dúzias, em dezenas, de uma só vez.
(...) Homens e mulheres padronizados, em grupos uniformes. Todo o pessoal de uma pequena usina constituído pelos produtores de um único ovo bokanovskizado.
— Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo funcionar noventa e seis máquinas idênticas! (...) Sabe-se seguramente para onde se vai. Pela primeira vez na história. (...) “Comunidade, identidade, estabilidade” (HUXLEY, 2014, p. 25 – 26)

Percebe-se o viés de ficção científica tomado e a crítica que Audous faz.

Mais moderno, José Saramago escreveu uma ficção sobre o mesmo tema, mas sob outros olhares e situações: O homem duplicado (2002). Nela, um homem normal, mas de nome único, Tertuliano Máximo Afonso, é um professor de História que, um dia, ao assistir a um filme, percebe que um dos atores secundários é igualzinho a ele. Depois do susto, o protagonista tenta descobrir quem é esse intérprete.

Como é característica do autor, “a ficção de José Saramago ergue-se sobre um tripé, composto pela História, os temas imprevistos, originais, e a ideologia” (MOISÉS, 2008, p. 527). Em O homem duplicado, o tempo histórico é o presente, o tema inusitado é a “clonagem” e a ideologia é perda da identidade do homem moderno num mundo globalizado. Outra marca do escritor é o tempo que, como sempre, é cronológico, nunca psicológico. (MOISÉS, 2008).

O romance já começa com o protagonista apresentando o seu cartão de identidade numa locadora, lugar onde ele adquirirá o filme no qual encontrará um homem igual a ele. Não é à toa que uma narrativa sobre identidade comece apresentando um objeto relacionado ao que será discutido, que um professor de História tenha um nome histórico (Tertuliano) e que seja idêntico a um ator secundário (não a um dos principais): alguém que quase ninguém dá atenção. E mais: um ator, isto é, um profissional que a cada filmagem interpreta outro papel, não tem uma constância, não tem uma identidade fixa.

Uma das diferenças entre as pessoas, além da aparência, é o nome (e, logo, os documentos), porém, o protagonista de O homem duplicado tem vergonha do seu diferencial, “Tertuliano Máximo Afonso”, como aponta o início da história, quando, ao fazer a sua assinatura, escreve apenas os dois últimos nomes, alegando ser mais rápido dessa forma.

Tertuliano é uma pessoa comum, um professor de História que a tudo se “cansa e aborrece, esta maldita rotina, esta repetição, este marcar passo” (SARAMAGO, 2016, p. 10), que se contenta “com o que vai passando na televisão” (idem, ibidem, p. 10). Por causa de sua profissão, tudo o que vê são documentários sobre diversas áreas da ciência, nunca algo relacionado à ficção. Talvez esse seja um dos motivos da sua depressão. Além disso, desta forma, cria-se a antítese para o que virá a seguir: encontrar alguém igual a si é tema para diversas obras de ficção.

É interessante pensar, também, que assim como a História se repete, os atos do professor de História também: ele lê sempre a mesma coisa, assiste aos mesmos gêneros de filme, come sempre a mesma comida (enlatada, pois só recebe o que lhe “dão”, nunca faz o que gostaria de comer), às vezes até fala em “destino”:

Tirou de um armário três latas de diferentes comidas, e como não soube por qual decidir-se, lançou mão, para tirar à sorte, de uma incompreensível cantilena de infância (...) Saiu guisado de carne, que não era o que mais lhe apetecia, mas achou que não devia contrariar o destino. (...) repetiu a cantilena com três migalhas de pão, a da esquerda, que era o livro, a do meio, que era os exercícios, a da direita, que era o filme. Ganhou Quem Porfia Mata Caça, está visto que o que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, nunca jogues as pêras com o destino, que ele come as maduras e dá-te as verdes. (idem, ibidem, p. 13 - 14)

É nesse primeiro filme, “Quem Porfia Mata a Caça”, que Tertuliano encontrará o seu sósia. “Porfiar” significa “lutar, competir, rivalizar, insistir”. Título bem escolhido pelo escritor, já que o protagonista competirá com o ator pela própria identidade. Na verdade (e triste), ambos disputarão pela aparência, já que as personalidades e as vidas já eram diferentes...

Essa descoberta de Tertuliano causou-lhe um enorme assombro, ao ponto de pensar se ele mesmo seria um erro da natureza. O personagem, que já era melancólico, passou a ter crises existenciais e interessantes diálogos consigo mesmo, com o que ele chama de “Senso comum”. Num deles, discutem sobre se encontrar ou não com o ator idêntico, ao que o Senso comum diz que não, que é melhor esquecer esse assunto antes que algo acabe mal, enquanto o professor, como sempre, diz que o que tiver de ser será. Mas, primeiro, é necessário saber o nome do indivíduo. Assim, Tertuliano aluga e compra vários filmes da mesma produtora, com o objetivo de ver em quais o tal ator aparece e verificar os nomes que estão nos créditos, descobrindo, desta maneira, como se chama o seu duplicado.

Os títulos dos filmes, não à toa, possuem uma relação com as situações vividas pelo protagonista. Alguns deles: Quem Porfia Mata Caça, que já foi mencionado; O Código Maldito (ora, Tertuliano está tentando descobrir qual é o nome do ator igual a ele, como se fosse um código); Passageiro Sem Bilhete (o bilhete é um objeto de identificação e de permissão para algo); Diz-me Quem És (nem precisa de explicação); Um Homem como Qualquer Outro (igualmente); O Paralelo do Terror (idem); A Deusa do Palco (palco é um local de atuação, um lugar de aparências). Há outros nomes que não convém relatar, para não revelar momentos emocionantes antes da leitura.

A crise do protagonista chega a tal ponto em que ele

foi buscar um marcador preto e agora, outra vez diante do espelho, desenha sobre a sua própria imagem, por cima do lábio superior e rente a ele, um bigode igualzinho ao do empregado da recepção, fino delgado, de galã. Neste momento, Tertuliano Máximo Afonso passou a ser aquele actor de quem ignoramos o nome e a vida, o professor de História do ensino secundário já não está aqui, esta casa não é a sua, tem definitivamente outro proprietário a cara do espelho. (idem, ibidem, p. 30)

O próprio narrador chama-o de “desnorteado homem” (idem, ibidem, p. 33), o professor sofre constantemente com leves perdas de memória, nada do que ele faz é com gosto, nada lhe é duradouro, sua vida é moldada pela indiferença com o mundo. Esse foi um dos motivos do seu divórcio com a primeira mulher e é uma das causas da dificuldade com o seu segundo relacionamento, agora com a Maria da Paz. Nas palavras de Tertuliano, numa conversa com um colega:

Eu sei, eu sei, (...) a culpa é só minha, deste marasmo, desta depressão que me põe os nervos fora do lugar, fico susceptível, desconfiado, a imaginar coisas (...) por exemplo, que não sou considerado como julgo merecedor, às vezes tenho até a impressão de não saber exatamente o que sou, sei quem sou, mas não o que sou, não sei se me faço explicar. (idem, ibidem, p. 58)

É muito interessante um diálogo que o professor de História tem com um amigo, professor de Matemática, no qual este diz que quando Tertuliano sair da depressão, as coisas mudarão de figura. Os diálogos entre esses dois professores são sempre muito reflexivos (e, pelo lado do professor de matemática, lógicos). Em primeiro lugar, o protagonista, até então, é um ser constante, previsível, mas conhece um cidadão que tem a aparência igual à sua, a partir daí, sim, o personagem passa a mudar; segundo, existe uma dialética: o homem é modificado pelo seu meio, mas o primeiro também transforma o segundo; e, terceiro, às vezes, as coisas se alteram somente na consciência do homem, porque o que mudou foi apenas o seu modo de olhar o mundo.

É necessário dizer que, embora o personagem principal tenha alugado todos os filmes da mesma produtora, para ver em quais o sósia apareceria, ele não os assistiu completamente, apenas viu até o ator aparecer e já pulou para os créditos, para anotar quais nomes se repetiam. Mais uma amostra da sua indiferença e de que não faz nada com gosto, nunca termina uma ação, faz somente o necessário, por isso seu conhecimento e sua personalidade é fragmentada.

Descoberto o nome do sósia, Daniel Santa Clara, o protagonista decide enviar uma carta para a produtora, pedindo uma foto do ator e o seu endereço, alegando fazer uma pesquisa sobre o papel dos atores secundários. Tudo invenção, tudo aparência. O que ele quer saber é o endereço para se encontrar com o seu duplicado.

Como se não bastasse esse fingimento, para não se expor, Tertuliano pede para que sua namorada permita que ele insira o endereço dela na carta, além da assinatura dela também — mas não lhe explica a situação. Novamente, o personagem principal não assume a sua identidade. Apenas um recado da amante: “Tem cuidado, vigia-te, quando uma pessoa começa a falsear nunca se sabe até onde chegará.” (idem, ibidem, p. 111), ou ainda, duas frases do Senso comum do protagonista: “Pelos vistos, para seres quem és, a única possibilidade que te resta é a de que pareças ser outro” (idem, ibidem, p. 139), “Quanto mais te disfarçares, mais te parecerás a ti próprio” (idem, ibidem, p. 139).

E é isso o que ocorre. Tertuliano, que, em seus atos, não é o mesmo do começo do romance, passa a se disfarçar para ir próximo à moradia de Daniel Santa Clara, que na verdade se chama António Claro, porque o primeiro nome é um pseudônimo. Ou seja, um homem disfarçado (Tertuliano), que não assume a identidade, persegue outro homem (António Claro) que não assume o próprio nome e que tem como profissão fingir ser outras pessoas.

O mais inusitado é mostrado depois: além das aparências iguais, os duplicados têm a mesma voz e nasceram no mesmo dia, mês e ano. O ator, ao saber da existência de alguém igual a ele, também entra numa crise de identidade. Pior ainda: esse fato traz problemas para sua mulher, que passa a tomar calmantes e outros remédios para esquecer esses acontecimentos. De certa forma, também é uma fuga da realidade, uma fuga de si...

Para não falar demais somente sobre o desenrolar da incrível trama, deve-se mencionar o trabalho com a metalinguagem que o autor quase sempre usa em seus livros, onde os narradores (sim, plural, porque várias vezes o narrador revela-se ser um personagem diferente) conversam com o leitor, ou comentam sobre trechos passados ou futuros da história, por exemplo: “AO CONTRÁRIO DA ERRÓNEA AFIRMAÇÃO deixada cinco linhas atrás, que contudo nos dispensaremos de corrigir in loco uma vez que este relato se situa pelo menos um grau acima do mero exercício escolar, o homem não havia mudado, o homem era o mesmo.” (idem, ibidem, p. 38), e: “podemos antecipá-lo, é que o professor Tertuliano Máximo Afonso não voltará a entrar numa sala de aula em toda a sua vida, seja na escola a que algumas vezes tivemos de acompanhá-lo, seja em qualquer outra. A seu tempo se saberá por quê” (idem, ibidem, p. 170).

Essa estratégia chama a atenção do leitor e o deixa ansioso, além disso, demonstra a consciência e o domínio do escritor, que sabe qual rumo a narrativa seguirá. Porém, é necessário ressaltar que há um ponto no livro no qual o autor aparentemente se viu sem saída para resolver um problema e utilizou um artifício um tanto forçado, uma espécie de deus ex machina.

O ator António Claro descobre que Tertuliano enviou uma carta à produtora de filmes, mas quando ele chega lá, a responsável avisa que é uma regra da empresa de que correspondências enviadas por fãs devem ser jogadas fora. Apenas escolhem uma foto do ator, imprimem uma cópia da assinatura do profissional e pronto, adeus à carta. Porém, coincidentemente, essa responsável resolveu “cometer uma pequena infracção aos regulamentos internos do pessoal” (idem, ibidem, p. 213) e guardou uma cópia da correspondência — ou, em suas palavras: “um duplicado” —, para seu uso. Qual uso? Não se sabe. O motivo de tal feito é apenas que ela achou interessante, nunca ouviu falar num estudo sobre os personagens secundários.

Depois disso, tal como os deuses das antigas peças gregas, que só apareciam para resolver um problema e saíam de cena, essa personagem desaparece. Só surgiu para tirar uma cópia da carta e entregá-la ao ator, que nunca teria acesso ao conteúdo da mensagem. Assim, ele conseguiu o endereço e o nome da namorada de Tertuliano (pois ela havia permitido que o namorado usasse os seus dados), e a história ganhou cerca de oitenta páginas a mais. Não é um defeito grave, pois a forma como António Claro trata a mulher responsável pelas correspondências revela parte da sua personalidade, que será exposta depois, mas foi um acontecimento quase (senão) inverossímil.

Após tal evento, a trama passa a ter várias reviravoltas, muitos momentos emocionantes, mais pessoas envolvidas e cada vez mais atuações dos personagens. Não eram mentiras as palavras de Shakespeare, na peça Como gostais (1599): “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores. Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa muitos papéis” (SHAKESPEARE, 2013, p. 62).

Em suma, uma pequena resenha de seis páginas é muito pouco para discutir, mesmo que minimamente, sobre todos os aspectos de O homem duplicado. O romance demonstra a perda e a busca do eu numa sociedade que preza pela aparência e pelo individualismo, já que quase todos são anônimos, principalmente nos centros urbanos.

Além disso, o livro traz diversos diálogos críticos, reflexivos, filosóficos e poéticos sobre temas como a História, a educação escolar, o senso comum e a indiferença nas relações humanas, junto de personagens bem elaborados (principalmente, como é costume do autor, as mulheres). Outra característica de Saramago, como aponta Massaud Moisés, é a “ideia de que é preciso transformar a realidade como se apresenta, ou mudar a compreensão que temos dela.” (2008, p. 528), e é exatamente o que acontece no fim do romance. Nada menos esperado de um bom professor de História... Em tempos líquidos, O homem duplicado é uma leitura recomendadíssima!

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André, SP.

REFERÊNCIAS

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Lino Vallandro e Vida Serrano. 22 ed. São Paulo: Globo, 2016.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 37 ed. São Paulo: Cultrix, 2008.

SARAMAGO, José. O homem duplicado. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

SHAKESPEARE, William. Como gostais. In: Como gostais/Conto de inverno. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM,2013. (Coleção L&PM Pocket; v. 727)



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Resenha do livro "Ameaça de 7 cabeças", de Pedro Bandeira

BANDEIRA, Pedro. Ameaça de 7 cabeças. 8 ed. São Paulo: Moderna, 1985. Coleção Veredas.

Ameaça de 7 cabeças (1985) é um livro do renomado escritor Pedro Bandeira, autor de clássicas obras da literatura infantil e infanto-juvenil nacional. Escrito em 1985, último ano da ditadura militar brasileira, a obra é uma sátira desse período negro e conturbado do país.

A história acontece numa cidade chamada Findomundo, um local pacífico, onde as pessoas escolhiam quem exercia muitas funções de sua sociedade, aparentemente, satiricamente, aristocrática: “o povo votava para rei, para príncipe, para princesa, para rainha, para ministro, para deputado, para marquês e até para técnico da seleção findomundense de futebol” (BANDEIRA, 1985, p. 5). Claramente, o oposto do que acontecia de fato no Brasil, na época; ao mesmo tempo, uma vontade do que deveria acontecer, uma espécie de democracia — que no livro é absurdamente exagerada, para efeito cômico.

O nome do rei eleito era Kakéticus I, um ex-sapateiro caquético (talvez para ironizar que o sistema vigente, tanto na obra quanto no Brasil, já estava ultrapassado, desgastado). O rei era uma pessoa justa, só reinava “respeitando as leis que os deputados aprovavam. Os deputados também eram eleitos pelo povo, e ninguém se queixava das leis, porque elas eram do jeitinho que todo mundo queria” (idem, ibidem, p. 6). O trecho nem precisa de explicação.

Todavia, é preciso ressaltar que não se podia votar para todas as funções e empregos do Findomundo, apenas

(...) para cargos que não exigiam especialização, como rei, primeiro-ministro e porteiro de teatro. Os trabalhos importantes, como de sapateiro, bailarina, professor e palhaço, eram feitos por quem tinha jeito para a coisa. Todo mundo sabe que qualquer palhaço pode ser ministro da Fazenda, mas não é qualquer ministro que consegue ser um bom palhaço. (idem, ibidem, p. 6).

Trecho bem atual, pois até hoje a política brasileira recebe palhaços, ex-jogadores de futebol e outras pessoas que não entendem muito de política, mas que foram escolhidos pelo povo para representá-lo.

Quem narra a história é um cidadão comum, um vendedor de bolhas de sabão, parceiro de um poeta, Simão, que também tenta comercializar os seus textos. Ambos não vendem nada. É interessante esta observação do narrador: “Todos gostavam de ouvir Simão declamar seus versos, mas ninguém comprava nenhum” (idem, ibidem, p. 8). O trecho demonstra a desvalorização pelos artistas, pela arte, logo, pela própria cultura. Uma realidade existente até hoje.

Tudo ia bem, até que, um dia, de repente, ouviu-se um estrondo enorme, seguido por um fogaréu no alto do Corcovado. Embora quase todos tenham entrado em pânico, há quem os ignorou e pensou em lucrar com a situação: “— Que bacana! Um vulcão no Findomundo! Isso pode ser bom para o turismo!” (idem, ibidem, p. 12). Não deixa de ser uma amostra de que o capitalismo se aproveita de qualquer circunstância para obter ganhos, mesmo que isso represente o perigo de algumas pessoas e do seu próprio ambiente.

Estavam discutindo o ocorrido, quando chegou um cavaleiro autoritário, xingando todos os presentes, inclusive o rei, alegando que ele, o cavaleiro, foi quem defendeu a cidade da ameaça no Corcovado, um dragão de sete cabeças (que ninguém viu). É interessante notar a descrição desse personagem, porque ele lembra um pouco a figura de Dom Quixote de la Mancha, e também tem um nome chamativo, Don Pendragon de Cantalupo: “Estava meio estropiado, com a cara suja, o nariz arranhado, lança partida, espada gotejando sangue e quebrada a pluma que lhe pendia do elmo” (idem, ibidem, p. 13).

Deve-se perceber, também, que o cavaleiro, além de agressivo e autoritário, utiliza-se de uma linguagem rebuscada, para enganar os pacíficos cidadãos de Findomundo, tal como alguns políticos fazem até hoje, quando usam mesóclises, por exemplo. Veja a primeira fala do personagem: “— Idiotas! (...) Pascácios! Nem merecíeis que eu tivesse arriscado a vida para salvar vossa cidade miserável!” (idem, ibidem, p. 13).

Dessa forma, Don Pendragon simplesmente toma o poder da cidade, alegando que tem direito por ser o único que enfrenta o dragão quase imortal, pois nasce uma nova cabeça sempre que uma das sete é cortada. Assim, o cavaleiro ganha o respeito e a admiração do povo alienado e medroso, que tem medo de subir ao Corcovado, ao mesmo tempo em que a nação vive sob a ameaça de uma possível invasão do dragão, notícia espalhada por Pendragon.

O fato pode ser relacionado à ditadura militar que se instaurou no Brasil, quando os militares tomaram o poder, justificando que estavam a defender o país de uma invasão ou ditadura “comunista”. Ao final, anos depois, viu-se que não havia ameaça nenhuma, mas, pelo contrário, havia acordos e objetivos entre as elites de alguns países da América.

O povo de Findomundo começou a viver em desespero, enquanto o cavaleiro, que inventava as histórias sobre o monstro, dormia tranquilo, na mordomia do reino. De vez em quando, Pendragon pegava o seu cavalo e subia ao Corcovado, voltava sempre sujo e arranhado, dizendo que venceu mais uma batalha contra o monstro, que infelizmente não morreu. Ainda assim, havia quem quisesse lucrar com a situação de “guerra”. Eram os sensacionalistas e capitalistas daquele mundo:

Daria gosto ver um espetáculo como aquele. Foi até pensando nisso que o Ministro do Turismo tentou vender ingressos, com direito a transporte até o Corcovado, para a tremenda luta entre o dragão e o bravo Don Pendragon de Cantalupo. Como a coragem dos possíveis espectadores fosse menor que sua curiosidade, o Ministro tentou vender ingressos para quem não quisesse assistir à grande luta. (idem, ibidem, p. 27)

Quando o cavaleiro soube que aquele local possuía um rei e que este era eleito pelo povo, caiu na gargalhada:

— Ah, isso sim que é uma cidade boa para ser destruída pelo dragão. Cretinos! Então não sabeis que o povo existe para obedecer e que somente alguns nascem para comandar?
(...) Uma ameaça muito maior que a vossa ignorância está às vossas portas, e só eu posso enfrentá-la. Precisamos organizar a defesa. Quem é o vosso Ministro da Guerra?
(...) Não tendes Ministro da Guerra? Não é possível!
(...) Serei eu vosso Ministro da Guerra!
(...) O quê?! (...) Quem sois vós, perituros camponeses, para opinar se Don Pendragon de Cantalupo deve ou não assumir o papel que o dedo do destino lhe apontou? Então pensais que o nobre sangue que me insufla as veias precisa da vossa aprovação para qualquer coisa? (idem, ibidem, p. 29-30).

A partir desse momento, a pequena cidade de Findomundo começou a viver uma ditadura, sob ameaças, censuras e prisões. Os ladrões, que antes eram escolhidos a dedo, sob votações do povo, presos de mentirinha (o que alude às falsas investigações e aos falsos julgamentos reais), só para haver emprego para delegados, juízes, policiais etc.  — de certa forma, uma “indústria do crime” —, agora seriam presos de verdade. E para construir os presídios/calabouços, deve-se “(...) aumentar os impostos! — berrou o herói. — O povo precisa pagar, para sentir o quanto custa enfrentar o inimigo!” (idem, ibidem, p. 33).

Todavia, mesmo com um exército e desfiles diários das tropas, cada dia mais, as pessoas estavam com medo. Agora, nem coragem para levantarem a cabeça e olharem para o Corcovado tinham. Nada mais real, pois as ditaduras só sobrevivem através do medo.

Por causa da censura, obviamente, a arte seria barrada. Foi o caso de Simão, o poeta, amigo do narrador, que foi preso, simplesmente por fazer versos sobre o tal monstro do Corcovado e rimou “cavaleiro” com “embusteiro”. Em sua defesa, disse: “Meu poema só ajudou a lutar contra o dragão. Pois a arte, quando é livre, desmascara a desgraça, fortalece o ameaçado a enfrentar a ameaça. Ela afasta o medo cego, dá a força e a consciência, abre os olhos à verdade e convoca à resistência!” (idem, ibidem, p. 39). Note que, embora escrito em prosa, as falas do personagem sempre rimam.

Mas não adianta nada dialogar com o ditador, que não aceita as suas desculpas, o que rende um bom diálogo:

(...) Poeta, de agora em diante, trarás para mim todos os versos que compuseres. Em três cópias, muito bem escritas. Só depois que eu me certificar que neles não há nenhuma traição é que poderás declamá-los!
(...) — Ordenas o impossível, cavaleiro Pendragon. (...) Na poesia, a liberdade é a razão de quase tudo. Se meu verso não for livre, será como ficar mudo!
— Pois fica mudo, então! (...) O Findomundo pode muito bem passar sem tua poesia. O que esta cidade precisa agora é de segurança contra o dragão. Não de versos. Muito menos versos como os teus, que solapam o espírito do povo, deixando-o à mercê da grande ameaça! (idem, ibidem, p. 40).

Após algumas discussões, acontecem alguns desentendimentos e prisões de personagens importantes, o que ocasiona no inesperado e diferente (por conta do narrador) desenlace da trama, que fica para quem ler a história completa.

Em suma, Ameaça de 7 cabeças é um excelente livro, que, ao mesmo tempo em que diverte, critica problemas da sociedade da época, que infelizmente existem até hoje (afinal, quando se corta uma cabeça, outra nasce...). Escrito numa forma simples, dividido em pequenos capítulos, repleto de bons e inteligentes diálogos, a obra pode ser lida rapidamente, numa única tarde. Embora faça parte da Literatura Infantil/Infanto-Juvenil, a história pode ser apreciada por leitores de qualquer idade. A propósito, quem vivenciou o período da ditadura militar brasileira, que terminou no ano em que o livro foi escrito, pode fazer muito mais analogias.

Pedro Bandeira é um renomado escritor brasileiro, autor de clássicos como A Droga da Obediência, A Droga do Amor, A Droga de Americana e O Fantástico Mistério de Feiurinha.

Carlos Siqueira é formado em Letras – Português, Inglês e respectivas Literaturas, na Faculdade de Santo André, SP.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Relato pessoal: Pumpkins United

Breves relatos sobre minha relação com a banda Helloween

Lembro-me como se fosse ontem, primeiro ano do Ensino Médio, 2009, quando um recente amigo, o Rafael Sponton, me perguntou se eu gostava de Metal e eu respondi que não. Então ele me emprestou um CD com as músicas que gostava (a maioria era de bandas de Power Metal, nacionais e internacionais, as quais eu desconhecia todas). Ouvi com atenção e aos poucos fui gostando, principalmente de três bandas: Angra, Stratovarius e Helloween. É desta última que falarei.

O álbum que mais me chamou a atenção foi o The dark ride, por ser obscuro, pesado e melódico. Adorei a Mr Toture logo de início, assim como o riff de Escalation 666, a balada If I could Fly e a longa Dark ride. Porém, pessoalmente, em qualquer banda, o que mais gosto de ouvir são os vocais. Aprendi que o nome daquele vocalista — que se tornaria o meu preferido da banda — que canta do rasgado ao agudo é “Andi” Deris.

Passou-se um tempo e me indicaram um site que, ao menos naquela época, era razoavelmente bom, o Whiplash. Passei a ler tudo sobre a banda e, assim, comecei a ouvir os outros álbuns do Helloween. A segunda paixão foi o The Keeper of the seven Keys – part II, um álbum perfeito, clássico do começo ao fim. Impossível não se impressionar com os vocais do segundo vocalista, Michael Kiske. A potência e a extensão vocal dele são incríveis até hoje, o que o faz ser um dos melhores vocalistas de Heavy Metal e ser adorado por inúmeros fãs no mundo todo.

Aprofundando-me cada vez mais, voltando no tempo, cheguei ao primeiro álbum deles: Walls of Jericho. Que porrada! Se eu achava o The dark ride pesado, Walls of Jericho era pesadíssimo, coisa de deixar até alguns discos de bandas de Thrash Metal para trás! O vocalista também era diferente, cantava agudo, cantava baixo, cantava de forma agressiva, às vezes desafinava (o que aprendi, no Orkut, que só ele tinha esse direito), pois bem, era o Kai Hansen, primeiro vocalista, guitarrista, fundador da banda e até do gênero Power Metal.

Desta forma, eu, que não conhecia nada de Metal, virei um grande fã do estilo e do Helloween. Nunca deixei de ouvi-los. Pelo contrário, sempre os indiquei a quem não os conhecia. Assim que entrei na faculdade, em 2014, tive a oportunidade de trabalhar uma música num trabalho em grupo e eu sugeri que usássemos o eterno clássico I want out, que somente uma amiga — também fã de Heavy/Rock — conhecia.

Minha ideia foi aceita e após termos apresentado o trabalho, criei este blog e publiquei o texto-referência que usamos para fazê-lo. Em seguida, enviei-o para o site Whiplash, onde obtive um número muito maior de leitores. Conheci algumas pessoas por conta de minhas análises também, que passei a fazer de vez em quando.

Pois bem, depois de muitos anos ouvindo a banda, “agora”, no fim de 2016, foi anunciado uma turnê histórica, a Pumpkins United, que reuniria a banda atual mais os ex-integrantes Kai Hansen e Michael Kiske, guitarrista e vocalista da fase clássica do grupo. Este era o sonho de muita gente. Mais do que sonho, era a utopia de alguns, poder ver os guitarristas Kai e Weikath tocarem juntos e o Kiske cantar os antigos clássicos da banda, além de dividir os vocais com o atual (desde 1993) vocalista, Andi Deris.

A ansiedade começou no fim do ano passado, em novembro, quando começaram as vendas dos ingressos para o show, que aconteceria somente no dia 28/10/2017. Comprei o meu e o de um amigo no segundo dia, ainda bem, pois no terceiro já estavam esgotados. A casa de show, Espaço das Américas, não é muito grande, cabe apenas umas sete mil pessoas, então anunciaram uma nova data, um dia depois do primeiro concerto. Os ingressos também foram esgotados imediatamente. Por quase um ano, esperamos por esse dia. Na verdade, muita gente esperou a vida inteira, pois o show aconteceria dentro de onze meses, mas aquela reunião histórica demorou décadas para se concretizar...

Maior ansiedade chegou poucos dias antes do evento, pois anunciaram a gravação de um DVD! Os dois concertos em São Paulo seriam gravados!
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Mal amanheceu o dia 28/10/17 e dois amigos, os quais eu só conversava pela internet, mandaram-me mensagem (separadamente, porque nem se conhecem) para tentarmos nos encontrar no show. Eu já iria acompanhado também, com um amigo de longa data, da mesma idade (23), que mora no mesmo bairro, que estudou comigo da quinta série (2005) até o terceiro ano do ensino médio (2011), a saber, o Marcos Vinícios.

Os portões abririam às 19h, o show começaria às 21h, saímos de casa às 15h30, chegamos ao local às 17h30, a fila já estava enorme, quase todo mundo de preto. As estampas das camisas variavam, de Helloween a Iron Maiden, de Primal Fear a Angra, de Motorhead a AC/DC (bandas muito diferentes do estilo da que veríamos em poucas horas).

Tudo ocorreu muito bem. Um dos colegas que havia mandado mensagem, o Vagner Fagá, me avisou onde estava, fui me encontrar com ele. Deixei o amigo na fila e fui. Mal o encontrei, ele, que estava com um amigo também, estava numa discussão acerca de qual o melhor álbum do Blind Guardian, banda que também gosto muito. Depois, passamos a falar dos trabalhos do Helloween e que aquele show seria histórico para a banda e para todos que estavam ali, pois cada um tinha um motivo especial para vê-los (essa última frase foi do amigo do meu amigo).

A conversa estava boa, nem vimos a hora passar, mas assim que os portões foram abertos, meu amigo ligou para me avisar. Infelizmente, tive de ir para o fim da fila novamente. Me despedi do Vagner e do amigo dele, que foram para a fila da Pista Premium (que eu sempre me recusei a pagar e penso que todo mundo deveria boicotá-la), enquanto eu fui para a Pista Comum. Foi um prazer conhecê-los pessoalmente.

Meu amigo Marcos já estava lá dentro, a cinco metros da câmera central que gravaria o show. Outro pequeno infortúnio: mandaram eu jogar fora um pacote de bolacha que estava dentro da mochila. Era isso ou comê-la na hora, ou pagar cinco reais para guardá-la até o fim do concerto. Com muito pesar, joguei-a fora. Meu coração dói só de lembrar...

Assim que entrei, não foi difícil achar o meu amigo, o problema, mesmo, foi alcançá-lo... Havia muita gente na frente. Até pessoas que eu conhecia de vista, da cidade onde moro, Ribeirão Pires, que eu nem sabia que gostavam da banda... Depois de uns minutos de espera, quando deram uma brechinha, consegui passar.

Juntos, esperamos por uma hora e meia, observando o pessoal espalhar bexigas laranja, como foi combinado na internet, dias antes. Nisto, recebi mensagem do outro amigo, o Marcus Vinicius (sim, só muda uma letra do nome daquele que estava comigo), que veio de Manaus (!), que dizia para encontrá-lo depois do show. Felizmente o consegui. 

Pouco antes do concerto começar, o Júnior Carelli, tecladista da banda brasileira Noturnall, subiu ao palco para avisar que o evento seria gravado, que éramos para jogar as bexigas na primeira e na última música. Em poucos minutos, a cortina caiu e começou a tocar a longa Halloween! Kiske e Deris dividiram os vocais, era um sonho que estava se tornando realidade! Todo mundo começou a pular e a cantar juntos!

Sem nem dar tempo para respirarmos, a banda já iniciou a clássica Dr Stein, também cantada pelos dois vocalistas. Após terminada, ambos conversaram com o público, Andi disse que já gravaram um DVD em São Paulo, mas o que acharíamos se gravassem outro? Como todo show da turnê, as músicas eram apresentadas por dois personagens, o Seth e o Doc, numa animação no telão, que, infelizmente, parou de pegar depois da quarta canção... Fez falta, pois os vídeos deixavam tudo mais animado e colorido...

A terceira música foi I’m alive, clássico da banda, interpretada somente pelo Michael Kiske, ótimo, como sempre. Depois foi a vez de Andi Deris cantar sozinho, uma música que, quando anunciada, me enganou, pois o vocalista disse que era uma canção do álbum The dark ride (o meu preferido), que começava com o teclado... Pensei, na hora, que seria Mr Torture, a minha favorita de toda a carreira deles... mas foi a balada If I could fly, que eu também adoro, mas não tanto quanto a Mr Torture.

Da balada à paulada, Deris anunciou Are You Metal?, uma das músicas mais pesadas do Helloween. É claro que São Paulo é Metal! Foi a única do álbum 7 Sinners a ser tocada. Em seguida, sai o Deris e entra o Kiske, para cantar Rise and fall, do clássico absoluto The keepers of the seven keys  - part II.

Nova troca, Deris volta ao palco para cantar a moderna Waiting for the thunder, do aclamado álbum Straight out of hell. Também me enganei, pois, novamente, o vocalista disse que tocariam mais uma que se inicia com teclado e eu queria tanto a Mr Torture... Interessante a mudança de tons que o Deris usa ao vivo, alternando os versos entre agudos e graves. Depois, a clássica Perfect Gentleman, que contou com uma rápida participação do Kiske no fim da música, ambos fazendo brincadeiras sobre quem seria o perfect gentleman (“I’am the perfect gentlemanHe’s the perfect gentlemanThey are perfectYou are perfect”), apontando para alguns integrantes da banda e para o público.

Após esta música, ambos os vocalistas saíram para o palco e deixaram-no para o mestre Kai Hansen, o guitarrista fundador e primeiro vocalista do Helloween tocar e cantar um meddley de quatro músicas, as pesadíssimas StarlightRide the SkyJudas e Heavy Metal (is the law). Nesta última, o baixista Markus Grosskopf tomou a frente do palco e teve destaque.

Um dos momentos mais emocionantes foi a volta de Deris e Kiske para cantarem Forever and one juntos, balada da fase Deris, sequenciada por A tale that wasn’t right, balada da fase Kiske. Lindo demais.

Para deixar de choro, Deris cantou sozinho a agitada I can, do álbum Better than raw. Após terminá-la, o baterista Dani Löble fez um solo que, sabemos, nos shows anteriores, era um “duelo” entre ele e o falecido baterista, uns dos fundadores do Helloween, Ingo Schwichtenberg, através do telão, que parou de pegar logo no começo do show.

Michael Kiske retorna ao palco, então, para cantar um meddley de Livin’ ain’t no crime e Little time. Não sei se alguém não percebeu, mas houve um momento em que o guitarrista Kai Hansen ficou balançando o cinto durante esta última, como se fosse um pêndulo de um relógio. Pena que o microfone teve um problema no começo da primeira canção, mas que rapidamente foi consertado.

Após terminadas, Andi Deris reaparece e, junto de Kiske, conversaram com o público. Um dos momentos mais engraçados e bonitos do show. Kiske disse que agora cantariam uma das músicas que ele mais gosta da fase Deris, mas que só a conheceu há pouco tempo, pois na época que saiu do Helloween não queria mais saber da banda. Neste momento, expressou a cara de nervoso, fazendo bico, de braços cruzados. Foi engraçado. A canção era a Why?, que ficou muito bonita na versão dos dois juntos.

Em seguida, apenas Deris permanece no palco e canta dois clássicos de sua fase: Sole Survivor e Power. Se essas duas já são agitadas, o que dizer da próxima, a pesadíssima How many tears, do primeiro álbum da banda? Cantada, desta vez, pelos três vocalistas, Kai, Kiske e Deris! Também foi um momento muito bonito, porque Deris revelou que foi a primeira música que ouviu do Helloween e que a adorou logo de cara.

Também achei bonito que nesta e em outras músicas, Kai, Weikath e Gerstner, os três guitarristas, tocaram um ao lado do outro. Lembrou-me o Iron Maiden, banda que também conta com três guitarristas (já há muito tempo, mais de década). Aliás, sempre pensei que o Helloween é o filho mais bonito do Iron Maiden.  

Tivemos um tempo de descanso, para o primeiro encore, iniciado já pelo clássico absoluto do Power Metal, a fantástica Eagle Fly Free, cantada somente pelo Kiske, seu vocalista original. Depois, a faixa-título, a grandiosa The keeper of the seven keys, com os vocais divididos entre Kiske e Deris. Foi bacana a participação do guitarrista Sascha Gerstner nesta, pois, sozinho, alongou a canção por minutos, puxando um coro da plateia, que cantava de forma uníssona, enquanto cada integrante saía do palco.

Por fim, as duas últimas, a primeira cantada apenas pelo Kiske, a segunda por ele e pelo Deris: Future World e I want out. Nesta, houve chuva de papéis picados e balões enormes foram espalhados, finalizando de forma muito bonita o show.

Em suma, foi mais do que um excelente show, foi um espetáculo. Poder ver gênios, que criaram um novo gênero musical, que mudaram o Heavy Metal, que estiveram separados por décadas, que fizeram músicas que nos tocam há tantos anos, juntos novamente, com amigos ao redor, todos gritando “Happy happy Helloween, Helloween, Helloween, Happy happy Helloween, ooooohhhh”, ou os nomes dos vocalistas (numa das vezes, Kiske se ajoelhou e fez reverência ao público), foi e será inesquecível.

O fim do concerto não significou o final de um sonho, mas a concretização deste, além de a construção de uma eterna memória. Agora, esperemos pelo DVD, que também terá gravações do segundo dia de show e que marcará como foi esta festa.
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Depois do evento, ainda me encontrei com o colega de Manaus, Marcus Vinicius, que também estava acompanhado, mas conversamos pouco, pois eu e meu amigo (Marcos Vinícios) ainda precisávamos pegar um metrô, um trem e um ônibus, que, infelizmente, o perdemos — o pior infortúnio do dia, que nos fez andar por descaminhos (de uns 8 kms) que só Hécate conhece, dignos de noites de Halloween, das 1h25 às 2h45, mas isso é assunto para outro post, porque este aqui já está enorme. Marcus, foi um prazer conversar contigo pessoalmente também.

Obrigado a todos que me ensinaram sobre a banda, desde 2009 até agora, e que ofereceram e oferecem as suas presenças até hoje, mesmo que na internet, sob acordos e discordâncias. Pessoas que me indicaram músicas e que hoje indicam os meus textos a outros amigos, obrigado e até outra hora!

Setlist do dia 28/10/2017

01. Halloween (Kiske e Deris)
02. Dr. Stein (Kiske e Deris)
03. I'm Alive (Kiske)
04. If I Could Fly (Deris)
05. Are You Metal? (Deris)
06. Rise And Fall (Kiske)
07. Waiting For The Thunder (Deris)
08. Perfect Gentleman (Kiske e Deris)
09. Medley: Starlight / Ride The Sky / Judas / Heavy Metal Is The Law (Hansen)
10. Forever And One (Kiske e Deris)
11. A Tale That Wasn't Right (Kiske e Deris)
12. I Can (Deris)
13. Solo de bateria - Dani Löble
14. Meddley: Livin' Ain't No Crime / A Little Time (Kiske)
15. Why? (Kiske e Deris)
16. Sole Survivor (Deris)
17. Power (Deris)
18. How Many Tears (Kiske/Deris/Hansen)
19. Eagle Fly Free (Kiske)
20. Keeper of the Seven Keys (Kiske e Deris)
21. Future World (Kiske)
22. I Want Out (Kiske e Deris)

P.S.: Os únicos problemas do show: falha no microfone do Kiske por um rápido instante (em Livin’ Ain’t no crime), ausência de Kids of the Century, que foi tocada em todos os shows anteriores da turnê, problemas no telão, e não terem executado a Pumpkins United, single que leva o nome da tour e que tem participação dos três vocalistas. 


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Coisas de criança

Nunca me considerei adulto. Até possuo o corpo de um, mas a mente sempre foi de criança. Por isso, sinto-me feliz e triste; feliz, porque tenho acesso a locais e a prazeres que só um adulto pode ter, além de ser elogiado por alguns olhares sobre determinadas situações e por ter algumas qualidades que poucos adultos possuem; triste, porque, às vezes, me cobram atitudes ou ações que nunca tomei e que devo tomar, mas eu tenho muitos medos e incertezas, o que é motivo de crítica por quem também me elogia.
Acredito que nascemos vazios e enchemos a vida com experiências, sentimentos e coisas, porém, conforme crescemos, perdemos ou descartamos parte dos dois primeiros, ficamos apenas com os terceiros. Uma pena. Prefiro ser criança, pois assim continuo a ganhar vida acrescentá-la à Vida.  

Psicologia animal

Os moralistas assemelham-se muito aos cães presos, dentro das casas de seus donos, nos corredores. Todos os dias, caminho pelas ruas do bairro com o “meu” cachorro e, infelizmente, tenho de ouvir os latidos dos cães vizinhos, mas somente daqueles que estão atrás de um portão, pois os que estão soltos continuam quietos, na deles. É engraçado, porque, às vezes, quando estão livres, nas calçadas ou nas ruas, não latem e não avançam para cima do “meu” cachorro.
Os moralistas são assim também: presos a algum local ou a alguma coisa, gritam e ofendem quem está livre, mas na verdade o que possuem é a vontade de estarem libertos, ou de que todos estejam presos como eles. Quando soltos, lá fora, ou quando fazem o que querem (às escondidas), vivem suas vidas quietamente. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Des-esperar

O menino guardou por muito tempo um texto para ler à sua amada, que disse que precisavam conversar, mas que foi embora sem explicações e até hoje não voltou. Ele a perdeu.
Depois de muito tempo e de novas decepções, ela retornou à cidade e, sem querer, encontrou o menino, que hoje é um rapaz. Quis conversar e cobrou o texto que ele havia dito que leria, mas, para a sua surpresa, o jovem não se lembrava nem do texto e nem dela. Ele o havia perdido e havia se perdido.
E ela o perdeu. 

sábado, 26 de agosto de 2017

Figuras de linguagem

Num cômodo fechado, metido a estudante, conversava um chato casal de namorados ou de amigos:
— Nossa, como você está maravilhosa!
— Ah, pare! Eu não gosto de hipérboles...
— Mas não é hipérbole, na verdade, estou em dúvida se é um tipo de eufemismo, porque “maravilhosa” é pouco, ou se é uma espécie de catacrese, por não haver palavras para te descrever!
— Bobo, crie uma palavra, então... Um neologismo...
E assim prosseguiram, num jogo de luzes e sombras, trocando e tocando em assuntos que deveriam ficar fora do cômodo.
Todos somos figuras de linguagem, mas aqueles dois são da mais chata possível. 

Mímesis

Fiz uma piada e todos riram. Fiquei feliz ao vê-los felizes, sorri também e falei:
— Acho muito bonito quando vocês se divertem com as minhas graças.
Na mesma hora, todos mudaram, ficaram sérios, desconcertados, e eu virei reflexo.