quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Análise do clipe e letra da música "My Eternal Dream", do Stratovarius

Em 2015, a banda Stratovarius lançou seu novo álbum, Eternal. A música que o abre é a “My Eternal Dream”, que também recebeu um videoclipe muito bem trabalhado; para alguns, o melhor videoclipe da carreira.

Com este texto não pretendo esvaziar as imagens do videoclipe e de toda a música e letra, mas procurar conciliar os sentidos entre elas. Primeiramente, vamos à tradução:

Meu sonho eterno

Ainda me lembro de quando eu era uma criança
Tão curioso, aventureiro e selvagem
Olhava para o mundo com os olhos abertos!
Eu não sabia diferenciar as verdades das mentiras.

Ensinaram-me como viver, como comportar-me
Me disseram como andar, como falar, como conhecer meu lugar
Todos aqueles anos eu procurei o meu caminho
O mundo era meu palco...

Então eu transformarei cada sonho
Em realidade.
E através das trevas, eles serão
A luz a guiar-me!
Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada
Continuarei, serei forte, tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno.

Agora eu posso ver tudo tão claro
Não há limites nem fronteiras
Eu não mudaria a estrada em que estou
Meus sonhos viverão muito após eu partir!

Aprendi que eu tenho que fazer o que for preciso
Eu cometo erros, eu devo cair para levantar-me novamente!
Quebrar as regras, todas as correntes que me seguram
Eu posso me afundar, mas não irei me afogar!

Então eu transformarei cada sonho
Em realidade.
E através das trevas, eles serão
A luz a guiar-me!
Mostrarei que não posso ser domado/domesticado
Quando eu me for, lembrem do meu nome!
Vou gentilmente à noite...
Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada
Continuarei, serei forte, tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno.

Transformar cada sonho
Em realidade
E através das trevas eles serão
A luz a guiar-me.
Mostrarei que não posso ser domado/domesticado
Quando eu me for, lembrem do meu nome
E não desistirei da luta
Vou gentilmente à noite
Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada...

Continuarei, serei forte sozinho...
Tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno!
//

A letra é bem direta, sem muita subjetividade, por isso mesmo, os comentários feitos aqui serão mais voltados ao videoclipe. Como se vê, a música é uma “confissão” de um eu-lírico, a qual ele conta sobre seu passado, presente e o que pretende para o futuro. Sobre o clipe, ele está repleto de antíteses, que serão comentadas conforme forem surgindo.

O vídeo começa com uma sombra vindo em um reflexo num pedaço de vidro, o que já mostra que a música será ou terá uma projeção (um desejo) de alguém, que não sabemos ainda quem, por isso mesmo a sombra.

O clipe inteiro é em preto e branco, exceto quando aparece a banda tocando. Isso se explica com o primeiro verso: “Ainda me lembro de quando eu era uma criança”, ou seja, o eu-lírico está falando sobre seu passado, por isso essa parte do vídeo possui somente duas cores; já a banda, por estar fora deste tempo, aparece em coloração normal.

É preciso diferenciar a banda, que é a autora, do eu-lírico. O eu-lírico é aquele que sente, que conta, que narra; a banda é quem o criou — “criou, pois não é uma representação dos membros. Por exemplo, não é porque alguém criou uma história em que o personagem principal é triste, que o autor é ou está necessariamente triste. Às vezes acontece, realmente, de ser uma projeção, mas é raro e não é digno de muita atenção, pois o que importa é a obra, não o que o autor está(va) sentindo ou querendo dizer, mas sim o que foi ou o que está sendo dito.

Pois bem, sabendo que estamos no passado do eu-lírico, vê-se uma criança em um local vazio e destruído, o que pode significar não somente o lugar, mas o interior dela. É uma antítese de imagens: uma criança, que é um ser social e em construção, em um local solitário e em decomposição.

Quanto à sonoridade, a música é bem rápida, típica do gênero que a banda faz parte, o Power Metal. É uma tradição neste estilo iniciar os álbuns com uma música agitada, assim como terminar o álbum com uma balada (o que não é o caso de Eternal).

Percebemos que a criança não aparenta estar feliz nem que anda livremente, mas escondendo-se. Não sabemos, mas aparência dela é de alguém do Oriente Médio e o local apresentado é parecido com o de guerra. Como o cenário já dava indícios, surge um velho ferido/doente e a criança o ajuda. Só então a banda começa a cantar.

Notemos o tanto de antíteses que já surgiu em menos de um minuto: o clipe em preto e branco; um ser social em um lugar antissocial; e o encontro da criança, alguém cheio de vida, com um velho, alguém que lhe resta pouca.

Como havia sido dito, é mostrada a infância do eu-lírico; diz-se que quando criança era aventureiro, selvagem —“era”, hoje em dia ou tempos depois, não mais — e que olhava o mundo com os olhos abertos (característica da curiosidade) e que não sabia diferenciar o certo do errado (verdades das mentiras).

Este trecho é muito interessante, porque aparece uma criança menor do que a primeira, brincando com soldadinhos de brinquedo, enquanto passa imagens de soldados de guerra. Ou seja, a criança achava que brincadeira e realidade é a mesma coisa, por ser ainda pura (característica da criança — pelo menos da criança idealizada). Pode-se pensar também que ela acreditava no que diziam (ou no que ela imaginava), em ideologias, que todo soldado é bondoso e justo, e isso faz com que ela deseje ser como eles. Principalmente por viver em um local de guerras, onde se precisa ser forte. Depois retornarei a comentar sobre isso.

Em seguida o eu-lírico diz que o ensinaram como agir, como se comportar, andar, falar e se reconhecer, que por anos ele procurou qual era o seu caminho e que o mundo era o seu palco. Mais do que ensinamentos, são as ordens, a “domesticação” do ser. Quantas vezes gostaríamos de fazer algo, mas nos foi ensinado que aquilo é errado ou de que não deve ser feito? O mundo era o palco (notemos o “era” novamente), pois sendo palco, tudo o que ele fazia, era cumprindo o seu papel, era o que tinha sido programado/ordenado para ele fazer, era fingimento, mas agora ou depois de certo tempo, começou a agir como queria.

Essa visão é vista na letra, mas no clipe o que é visto são boas ações das crianças. Se elas ajudam quem precisa, é porque alguém as ensinou. É o oposto do que se pensa quando não assistimos o videoclipe. Vê-se que o vídeo não fala somente de uma pessoa, mas de uma família que se forma: duas crianças, o velho e um soldado. Como havia sido dito, o cenário é de guerra, além dos soldados que já foram mostrados, a criança menor corre por entre os campos (enquanto a o eu-lírico diz que por anos correu procurando pelo próprio caminho), enquanto bombas explodem ao seu redor, até que ele chega em um local seguro, que é onde a outra criança, esta maior e mais velha, está.

Tudo isso é mostrado no início do refrão: “Então eu transformarei cada sonho/ Em realidade./ E através das trevas, eles serão/ A luz a guiar-me!/ Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada/ Continuarei, serei forte, tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno”. Vemos que a criança mais velha acolhe a mais nova, assim como acolheu o velhinho. Mas é interessante perceber que antes disso, o menino maior, antes de ver o mais novo, já estava com uma faca na mão, mas a guarda quando percebe ser alguém inocente. Por vivermos sob situações ruins, perdemos a inocência conforme a experiência, e tornamo-nos “desconfiados”, às vezes, até mesmo pessimistas.

Sobre a letra, agora não se fala mais do passado, mas sobre o futuro. Diz-se que transformará os sonhos em realidade, realidade esta que é ruim, pois a chama de “trevas”, enquanto os sonhos serão a luz (outra antítese: trevas-luz). Antes, o eu-lírico havia dito que o mundo era o palco (local de performances), mas agora diz que está agindo sozinho por conta própria, ou seja, livrou-se daquele roteiro que havia sido preparado para ele. Termina-se o refrão com a imagem da criança mais nova sendo alimentada pela mais velha.

Após esta cena, a criança mais velha encontra-se com um soldado ferido (o mesmo do início), enquanto é cantado que agora o eu-lírico percebe tudo claramente, que não existe limite nem fronteiras; assim, a criança ajuda-o também. É interessante essa parte, pois mostra a besteira que é as pessoas lutarem entre si, cada uma defendendo um pedaço de terra porque alguém mandou e elas acreditaram, como se realmente existissem donos. As fronteiras são linhas imaginárias. Não há necessidade de ódio por quem está do outro lado, por quem defende, embasada e culturalmente, outras ideias. Pelo o quê e por que lutamos?

São questionamentos e respostas que não pertencem somente ao eu-lírico, mas a todos. Esse ideal de questionar, de ser livre, de ser quem quiser ser, não é um sonho somente dele, por isso mesmo é dito em seguida que os sonhos viverão além. Morremos, mas alguns ideais não.

Enquanto canta-se dizendo que o eu-lírico aprendeu que tinha que fazer o que fosse necessário pelo o que deseja, é mostrada a criança mais velha fazendo o possível para manter vivo aquele soldado ferido. É uma estrofe de consciência e de antíteses, pois para fazer o que desejamos e usufruirmos da nossa liberdade, é preciso quebrar regras e livrar-se de tudo o que nos prende, tal como foi descrito. Interessante é que quando é falado “(...) Eu posso me afundar, mas não irei me afogar”, a criança dá um pouco de água para o soldado que está deitado, e ele quase cospe; é visto o sofrimento dele para não morrer, quase como um afogamento.

Retorna novamente o refrão de esperança, mas acrescentado de alguns versos. O eu-lírico diz que não pode ser domesticado/domado, em contraste ao início da música: “(...)Ensinaram-me como viver, como comportar-me/ Me disseram como andar, como falar, como conhecer meu lugar”, que assim como o sonho que ficará para os próximos, o seu nome também, isto é, a lembrança do idealizador.

No videoclipe surge uma moça que aparenta ser uma freira, que mostra conhecer o menino mais novo, trazendo comida e bebida para os refugiados (além da criança mais nova, há o soldado e o velho). Neste momento do vídeo, a criança, diante do soldado deitado, segura uma faca, enquanto o soldado a tira das mãos e dá-lhe um lápis.

 Lembremo-nos de que essa mesma criança já brincava com os soldadinhos de brinquedo e que havia sido comentado que isso poderia aparentar o desejo dela de seguir aquele caminho, o da violência, o da guerra, e aqui o verdadeiro soldado mostra-lhe um lápis, significando que a guerra não é o melhor caminho, que a luta não é só feita entre armas, mas entre ideias e palavras; que crianças deveriam estudar, ao invés de (pensar em) lutar; que a educação pode mudar a situação.  É um rompimento com o paradigma, com o determinismo local. E então se dá início ao solo.

Enquanto acontece o solo da banda, a mulher tira e põe novamente o véu na cabeça, significando a mudança de estado/andamento dos acontecimentos, assim, a criança que pensava nos soldados e na faca, começa a desenhar um pássaro na parede. Após o desenho estar feito, a moça chega ao lado e segura um raminho na frente do bico do pássaro desenhado, juntando, assim, metaforicamente, desejo/sonho e realidade.

Quando o teclado da música para e deixa somente o som da guitarra, muda-se totalmente o sentido do clipe; o que estava sendo visto como uma “melhora”, de repente piora. O ferimento do soldado agrava-se novamente e ele acaba morrendo. Em um momento de tristeza ainda surge um inimigo procurando por alguém. Interessante é que a aparência deste outro soldado é diferente; a roupa não é do exército, é um terno, e a aparência do rosto lembra os europeus. Pode ser visto como uma crítica consciente da banda de que os opressores nem sempre são os que aparentam ser (há quem acredite que somente os países do Oriente Médio é que são os errados nas guerras; europeus e americanos são sempre os “bons moços”).

No entanto, ele não acha ninguém. Retorna o refrão. É preciso ressaltar que quando se diz “Vou gentilmente à noite”, pode-se pensar no “fim”, pois quanto mais lutamos por algo, mais avançamos ao fim da vida. No entanto, irmos sabendo disso e por vontade própria, não é problema, por isso o “gentilmente”. Ruim é quando vamos sem querer e sem saber.

Os quatro personagens do clipe caminham, mas o velhinho possui dificuldades em continuar e senta-se. Nisto, o menino mais novo corre e entra num cômodo destruído (como todo o resto do cenário), e traz um pássaro nas mãos. Com isso, o velhinho levanta-se e todos se reúnem ao redor do menino e da ave.

Lembremos que o menino havia desenhado na parede um passarinho e agora ele encontra-o. O pássaro pode significar a liberdade e o sonho, pois não é preso a nada, voa por onde quiser, assim como o eu-lírico da letra deseja o tempo todo. O que antes era somente um desenho, após o último soldado ir embora (e ele representando o perigo), agora está nas mãos de todos. É a concretização do sonho de liberdade. Todos ao redor de algo, todos ao redor de um sonho. E para terminar, a câmera mostra a banda com uma visão de cima, assim como a visão dos pássaros.

O clipe é dramático, mas a letra é bem positiva. Atualmente, ser otimista, defender ideias que defendam o outro ou um “futuro melhor”, é motivo para ironias e deboche (sabendo disso, que é um caminho difícil e para poucos, o eu-lírico diz que continuará e será forte sozinho, pois para continuar é preciso apenas de um sonho eterno), ou considera-se utopia, mas lembremos que somente o sonho, o desejo, a meta, a utopia, é que nos faz seguir em frente. Antes de fazermos o que existe, imaginamos algo que não existe.

PS: Por fim, gostaria de dizer que alguns até podem dizer que estou vendo sentidos e significados demais onde não há, mas creio ser melhor assistir a um videoclipe, achar sentidos além do explícito e conseguir explicá-los, do que assistir e não ver nada além do óbvio. Imaginação faz parte da arte, mas faz falta à maioria das pessoas (imaginação e arte).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Consciência de dependência

Já é sabido que todos os dias alguém de casa caminha com “meu” cachorro, já é sabido que todos os dias ele “cobra” para que andemos com ele, e já é sabido que isso faz parte de um condicionamento. Esta é a parte triste.

Sempre que vejo esta cena repetir-se, lembro de um trecho de uma música da banda Engenheiros do Hawaii, que diz: “Somos quase livres, isto é pior do que a prisão”. Frase subjetiva, mas que sempre me faz lembrar dos animais de estimação, e quando os vejo, lembrar da canção.

O motivo é muito simples: o cachorro até diverte-se quando sai de casa, quando escapa da rotina, do ambiente de sempre, e ele tem consciência disso, pois o pede. É aqui que entra a parte triste: a consciência da possibilidade de sair, mas a dependência de outrem para conseguir.

É assim conosco também, temos nossa liberdade, no entanto, ela não é plena; dependemos do quanto de espaço os outros ou o mundo nos permite ter. Queremos fazer tais ações, mas as instituições, o sistema ou nós mesmos, impõe uma realidade. Os desejos são vontades que ainda não se concretizaram em ações — ou nunca se concretizaram.

No caso do cachorro, ele depende de alguém da família; em parte da vida, o funcionário depende do trabalho e do patrão, e o patrão depende do funcionário e do trabalho do funcionário, mas nenhum dos dois possui consciência de que um depende do outro, somente visões unilaterais: o patrão só vê a dependência do funcionário para com ele, e o funcionário só vê a sua dependência para com o trabalho. Ambos alienados e condicionados.

Voltando à relação com o animal, deve(ria) ser triste para ele saber que depende de alguém para que possa caminhar na rua, mas é mais triste ainda para quem caminha e possui a consciência da dependência dele, pois sabendo que a alegria dele e dos outros depende de nossas ações, e nossas ações são limitadas por inúmeros fatores, sofremos pela consciência dele e pela nossa.

É nisto que consiste a tristeza de saber da quase-liberdade, pois se temos consciência de que nada mais pode ser feito, aceitamos; mas se sabemos que há algo além que poderia ser alcançado, que chegamos perto e não atingimos, sofremos.

Pode-se pensar que “a ignorância é uma bênção” e que não saber o que acontece conosco ou ao nosso redor é melhor do que saber e não poder fazer nada. Todavia, é somente através da consciência que se pode pensar em/e superar o problema. Sabemos da alienação dos outros, eles não podem fazer nada, mas poderiam fazer caso soubessem, e nós podemos fazer por eles. Pior do que sofrer, é sofrer sem saber o motivo.

PS: Não há enredo nestes textos. O "banal" serve de motivo para as reflexões.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Possibilidades

Enquanto não agimos,
tudo é possibilidade.
No entanto,
nada se concretiza
em verdade.

Cada ato, cada escolha,
cada ação de cada pessoa
interfere em nossa vida.

Este é um dos motivos
para desconfiar do livre-arbítrio:
tudo o que fazemos,
só fazemos
porque foi-nos permitido.

Não por Destino ou por Deus,
mas por todos os atos de todos;
primeiramente, pelos de vocês,
posteriormente os meus.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Análise da música "Zombies Dictator", da banda Almah

“Zombies Dictator” é uma música da banda Almah, lançada no álbum Motion, de 2011. Composta por Edu Falaschi, mas interpretada por ele e Victor Cutrale, este é um dos fatores que chamam a atenção na música: dois vocais, um melódico e um gutural; além disso, há um “peso” e intensidade muito fortes na canção. 

A letra, assim como os vocais, divide-se em duas partes, uma agressiva e questionadora, e a outra, melódica e esperançosa. Farei uma tradução um pouco diferente das que existem por aí, deixando outras possibilidades:

Ditadores zumbis

Como podemos viver com isto/este
Poder e miséria?
Eles lutam
Ou mandam outros lutarem por eles?

Alguém morre em vão
Porque alguém semeia o medo.
O que você vê?
Um futuro em uma rua sem-saída.

Há um motivo para restringir
Limites e liberdade: você fica forte!
Disfarce sua fé por trás de armas
Ditadores zumbis.

O povo come pão apodrecido
Enquanto suas almas destrutivas
Fazem um brinde
À indústria da morte.

Há um motivo para restringir
Limites e liberdade: você fica forte!
Disfarce sua fé por trás de armas
Ditador de zumbis
Há um motivo para resistir
A imposição do Terror!
Todos nascem livres
Ditadores zumbis

Morra

Você conduz o inferno através das colinas sem esperança
Você prevê toda a desgraça do Oeste

Morra

Empunhe armas e mire na cabeça
E adorne/decore o deserto com o sangue.
Salve-nos agora

E queime no inferno com sua máfia/gente.


//

Logo ao ler, percebe-se a diferença de pensamentos do eu-lírico, que, de tão diferentes, ainda mais com as diferenças de estilo e vozes utilizadas, pensa-se ser dois, mas são apenas dois sentimentos diferentes.

A música inicia-se muito agressiva, é uma das mais pesadas da banda, com um eu-lírico que questiona sua própria posição: como podemos viver nesta situação, com este tipo de poder, com esta miséria? 

É um chamado de consciência para nós mesmos, neste cenário onde a política, o poder, não age conosco, mas brinca. E termina a estrofe com a pergunta “Eles lutam ou mandam outros lutarem por eles?”; tratando-se de governantes e falsos líderes, o verbo “lutar” pode ser trocado por outros, “trabalhar” é um deles. No campo dos ditadores (que não foge muito do campo dos governantes), lembremo-nos das guerras, onde os soldados apenas seguem ordens de lutar, de representar o país, enquanto os ditos “representantes do povo”, não fazem nada — na verdade fazem a “briga”; pois a luta não é de interesse da população.

Na segunda estrofe percebe-se o pessimismo de uma parte do eu-lírico. “Alguém morre em vão porque alguém semeia o medo”, na verdade, não é somente uma pessoa, mas várias que morrem em vão, lutando por falsas verdades (ideologias), lutando contra a mentira espalhada, lutando por um fato dito consumado, inexorável. E termina com uma projeção do lado ruim do eu-lírico; muitas vezes, o ser não possui escapatória: ou luta e morre pelo o que foi ordenado, ou luta e morre por ter se rebelado. É uma rua sem-saída.

Neste momento a sonoridade da música fica mais devagar e é o Edu quem canta, com uma visão diferente das duas primeiras estrofes, ele diz que há uma razão para tudo isso, que é ficarmos mais fortes. É como se fosse um pensamento para enganar a si mesmo, típico de algumas pessoas que não agem para mudar o seu meio (lembremo-nos do primeiro e segundo verso) ou não entendem como funciona o sistema/realidade, e arranjam desculpas ou convencem-se, de verdade, que há um motivo para tais atos acontecerem. Mas percebamos que enquanto uma parte do eu-lírico vê uma rua sem-saída, só vê os lados negativos, diferentemente, este vê um lado positivo.

No entanto, esse eu-lírico, mesmo que pensando diferente quanto ao futuro, é consciente da realidade do presente, pois mostra que sabe que esses “ditadores zumbis” apenas aparentam serem bons, disfarçando-se atrás de armas. É interessante percebermos esse termo “zumbi”, pois mostra que os ditadores já estão mortos (como seres humanos, que, por ser assim, são entendidos por essa parte do eu-lírico como bons, assim como ele. É uma projeção), mas ainda pensam em matar.

Em seguida retorna a parte agressiva do eu-lírico e da música, comparando e diferenciando as realidades do povo e dos ditadores/políticos/ricos; enquanto uns comem pão apodrecido e vivem na miséria (a miséria é citada no segundo verso), outros tomam drinques, comemorando o poder (citado também no segundo verso) e lucros conseguidos pela indústria da morte. Devemos perceber que o povo, por estar vivo, come, alimenta o corpo; os “zumbis”, por estarem mortos, só são alimentados a alma.

Novamente volta a parte melódica da música, o refrão, mas acrescentado de algumas ideias. Se antes o eu-lírico acreditava que havia um motivo para tudo isso, aceitando a realidade, agora já diz que há um motivo para resistir a essa imposição de terror, pois todos nascemos livres. Nascemos livres, mas ao longo da vida prendemo-nos a lugares, pessoas e ideias de outras pessoas, deixando de sermos o que somos ou éramos.

Logo após isso, retorna a agressividade e o “pedido” (mas por estar gritando, o pedido torna-se ordem) para que esses ditadores morram. Este trecho é muito interessante, pois mostra o quanto após vivermos sob a violência, se nos deixarmos levar por ela, tornamo-nos violentos também. 

Esse trecho é a concretização de uma frase, que gostaria de citar aqui, do filósofo Nietzsche, em que ele diz: “Aquele que luta contra os monstros deve vigiar para não se tornar um deles. Ora, quando teu olhar se fixa por muito tempo no fundo de um abismo, o próprio abismo penetra em ti.” (NIETZSCHE, 2013, p. 107). Se não tomarmos cuidado, agimos da mesma maneira dos que estão ao nosso redor, tornamo-nos a essência de nosso oposto. É o caso de policiais que agem como bandidos e cidadãos que agem como políticos, por exemplo.

O ritmo da canção muda, ficando novamente lento, melódico, mas mais carregado, e a parte “boa” do eu-lírico diz que os ditadores conduzem, lideram, controlam o inferno, que seria nossa situação de vida, através das colinas sem esperança, que são as nossas vidas, sem esperança de um dia melhor. E termina por dizer que eles preveem toda a desgraça do oeste. O oeste, sendo o lado em que o sol se põe, dando início à noite e escuridão, pode-se pensar que signifique o fim de tudo, o fim da vida, que eles preveem, pois eles mesmos causam-no. Ouve-se novamente o pedido, a ordem, o desespero para que morram.

Deve-se prestar atenção à sonoridade da música também, pois neste momento todos os instrumentos alinham-se para que, juntos, façam um som similar ao de uma metralhadora, o que tem tudo a ver com a letra da música, com a agressividade de uma parte do eu-lírico e com as ações dos ditadores. 

Após o solo, dá-se início à última parte “inédita” da música. Percebamos que antes do “Morra”, o eu-lírico apenas se questionava, mas agora ele dá “respostas” típicas de ditadores contra os próprios ditadores: “Empunhe armas e mire na cabeça/ E adorne/decore o deserto com o sangue./ Salve-nos agora/ E queime no inferno com sua máfia/gente.” — essa estrofe não necessita de explicação. É a realização da frase do Nietzsche, aquele que lutava contra monstros, tornou-se um também; tornou-se zumbi, que só pensa em matar o outro. Depois disso só repete-se o refrão e os gritos de “morra”, é uma luta.

Antes de finalizar eu gostaria de dizer que quando fui fazer esta análise/interpretação, pensei muito em quem seriam os zumbis: o povo ou os ditadores? Pois o zumbi é uma criatura facilmente enganada, tal como o povo; ao mesmo tempo, os zumbis perdem sua consciência humana e apenas pensam em matar, que é o caso dos ditadores. A tradução seria “Ditadores de zumbis" ou "Ditadores zumbis"?, acabei optando pela segunda opção. Sendo a arte subjetiva, fica a critério de cada um, desde que embasado nas explicações.

Liderada pelo vocalista Edu Falaschi, Almah é uma das maiores bandas brasileiras de Heavy Metal do país. Após participar do Rock In Rio e excursionar pela Europa e Estados Unidos, o grupo lançará seu novo álbum em 2016, sendo o mais recente de 2013, Unfold.

Referências

NIETZSCHE, Friedrich W. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Editora Escala, 2013.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Fichamento comentado do livro "Análise da Conversação", de Luiz A. Marcuschi

MARCUSCHI, Luiz A. Análise da Conversação. 2. ed. São Paulo: Editora Ática, 1991.

Análise da Conversação, de Marcuschi, é um livro técnico que, como diz o próprio título, tenta compreender como se dá o processo da conversação. Por muito tempo acreditou-se que a escrita era a forma ordenada, coesa e coerente da língua, enquanto a fala seria um sistema caótico e sem regras — o que não é verdade. A conversação “(...) não é um fenômeno anárquico e aleatório, mas altamente organizado e por isso mesmo passível de ser estudado (...)” (p. 6). 

Embora a conversação seja a prática mais comum do ser humano, ela só começou a ser estudada e analisada nos anos 60, “(...) sobretudo, com a descrição das estruturas da conversação e seus mecanismos organizadores. (...)” (p. 6). Dentre as questões que a Análise da Conversação propõe-se a resolver estão: “(...) como é que as pessoas se entendem ao conversar? Como sabem que estão se entendendo? (...) Como usam seus conhecimentos lingüísticos e outros para criar condições adequadas à compreensão mútua? (...)” (p. 7), etc. 

É por essa razão que o objeto de estudo é a própria conversa viva em situações reais, e não textos ou conversações retiradas de livros, artes ou outras áreas, pois por mais que sejam parecidas ou inspiradas na realidade, foram planejadas antecipadamente.

O livro também aborda questões e processos de transcrições. Marcuschi diz que ao transcrevermos conversações, devemos atentar-nos a “(...) detalhes não apenas verbais, mas entonacionais, paralingüísticos e outros, algumas informações adicionais, quando as houver, devem aparecer na transcrição (...)” (p. 9) também. Embora deva-se usar, para transcrever, o sistema ortográfico da língua-padrão, há alguns sinais próprios para algumas situações, como falas simultâneas, sobreposição de vozes, pausas, dúvidas, truncamentos bruscos na conversa, ênfase, comentários do analista e outras situações.

Importante saber que nenhuma conversação se dá com apenas uma pessoa, a isto chama-se “monólogo”. Para ser considerada uma conversação é necessário que haja pelo menos duas pessoas, um tema central (mas que pode-se abrir para outros assuntos paralelos), ao “(...) menos uma troca de falantes; (...) presença de uma seqüência de ações coordenadas(...)” (p. 15), um mínimo de conhecimento em comum por parte dos participantes e uma mesma situação/contexto. 

Uma informação básica e essencial sobre a conversação é que ela se dá por turnos. O turno é a produção de um falante enquanto está na sua “vez”, e isso inclui, às vezes, também, o silêncio — deve-se ficar claro que o turno não é apenas uma “fala”; muitas vezes o emissor pode ter tido mais de uma fala em apenas um turno. 

É analisado que em cada turno, cada pessoa fala de uma vez; as ordens e duração dos turnos variam; em cada conversação o número de participantes pode variar também; há falhas, continuidades, descontinuidades, técnicas e estruturas inseridas em cada turno, mas a regra básica é “(...) fala um de cada vez (...)” (p. 19).

Segundo Marcuschi, “(...) Tudo indica que a tomada de turno não se dá caoticamente, mas obedece a um mecanismo, que se explicita em algumas técnicas e regras.” (p. 20). Embora possa parecer uma tarefa simples e façamo-la todos os dias, mesmo sem perceber, a conversação é um ato muito complexo; usamos mecanismos metalinguísticos e para-linguísticos (olhar, gesticulação, riso, tom de voz etc.) que criam, corrigem e dão margem à outras situações, situações estas que na escrita não aconteceriam.

Sabemos que as conversações possuem uma organização e sequências, mas elas não se dão sozinhas, nós a criamos (e até as esperamos). Por exemplo, ao fazer uma pergunta, esperamos uma resposta; ao dar uma ordem, fazer um convite, cumprimentar, pedir, acusar, etc., sempre causamos uma sequência, sempre passamos o turno para o outro, e não precisa ser em uma situação face a face, mas, entre outras formas, a conversação telefônica.

No capítulo “Organizadores globais: o caso da conversação telefônica” lemos que “O mais normal numa conversação é que ela tenha pelo menos três seções distintas estruturalmente, ou seja, uma abertura, um desenvolvimento e um fechamento.” (p. 53), mas que “Um dos problemas nos telefonemas é o do fechamento da conversação. (...) são freqüentes seções longas de despedidas, com várias reduplicações. (...)” (p. 59). Marcuschi ainda cita Schegloff e Sacks para estender essa problemática às conversações face a face.

No sétimo capítulo são abordados os marcadores conversacionais, sistemas verbais e não-verbais, sinais do falante e do ouvinte, mostrando como uma conversação é muito mais que meras palavras, mas uma relação e interação humana; como o falante percebe e induz a reação do ouvinte, e este, ao ouvir, como reage ao concordar ou discordar com o discurso proferido.

Ao falarmos em “organização” é necessário falar em coerência e coesão, e “(...) sabemos que algumas coisas são ‘conversáveis’ e outras não. Entre as coisas conversáveis, algumas podem ser ditas a qualquer um e outras a poucos, algumas devem ser ditas logo e outras podem ser adiadas, e assim por diante.” (p. 77). A conversação fluente, coesa e coerente é aquela que passa de um assunto (tópico) ao outro normalmente, mesmo que haja uma mudança, ela deve ter algo relacionada ao tópico anterior, pois se não, ou será corrigida ou questionada pelo motivo da “quebra”. 

 Conclusão

Este livro mostra que, embora as conversações sejam complexas, elas não são caóticas; possuem suas regras e seguem padrões (alguns universais), o que as tornam possíveis de estudar, observar, explicar e explicitar. 

O livro, de linguagem técnica, não se propõe a esgotar o assunto, muito pelo contrário, surge e apresenta-se somente como introdução. Uma descrição e análise daquilo que fazemos (que sempre fizeram e sempre faremos) naturalmente todos os dias: conversar. Como esta ação é processada? Qual a importância de alguns fatores (verbais e não verbais)? O que eles acarretam?

Em suma, um livro mais do que linguístico, porque estudar a linguagem e conversação é estudar parte das relações humanas.

Conclusão de Fichamento: Paulo Freire - Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa



FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 50° Ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra

Conclui-se e fica-nos a mensagem deste livro que, antes de tudo, tratar de educação é tratar de seres humanos. Humanos estes que merecem ser valorizados, não só eles como toda a sua bagagem cultural. Freire insiste que devemos nos assumir como educadores e como seres em construção, e por isso mesmo, devemos buscar melhorar cada vez mais, em todos os âmbitos. Buscarmos sermos coerentes entre nossos discursos e nossas ações, e assim, estimular os alunos a também serem cidadãos de verdade, pesquisadores, seres éticos, respeitáveis e respeitados, enfim, tornarem-se autônomos.

Freire adverte-nos para que lutemos sempre, pois mudar a realidade é difícil, mas não é impossível; que devemos conhecer, explicar e combater as ideologias que tentam nos diminuir e paralisar; tudo isso é necessário em nossa prática educativa. O ensino deve libertar, e não oprimir ou omitir.

Conclui-se que a autonomia do educando e do educador devem ser percebidas, construídas e praticadas desde sempre e para sempre, para que sejamos livres, libertários, e não condicionados e “amarrados” às ideias dos outros.