terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Uma pequena reflexão #7: Sopros

Pintando uma parede, a tinta ainda fresca, pousou um mosquito. Eu, sem querer matá-lo, assoprei-o para que saísse de lá. Porém, ao tocar na parede, suas finíssimas perninhas ficaram presas e o seu corpo se esmagou com o sopro... Fiquei triste por isso, pois não era a minha intenção...

Em seguida, pensei: também nós, com uma simples brisa da natureza, morremos. O bichinho não deve nem ter tido ideia do que aconteceu nem do motivo, assim como eu não imaginei que seria essa a consequência.

Nós, humanos, às vezes, até conseguimos prever o nosso fim, podemos estudar a causa da morte do outro, etc. E embora tenhamos consciência de tantos possíveis (e também impossíveis) fatores, na maioria das vezes ignoramo-la (e ignoramo-los). Destruímos o nosso habitat, moramos em áreas perigosas e quando somos esmagados, imaginamos e acreditamos ter sido um sopro divino.

No entanto, essas são questões da Natureza, algo em que fomos inseridos (antes de existirmos, o mundo já estava aí). Mas é que eu também pensei na nossa natureza, na linguagem, algo que inserimos ao mundo — ao mesmo tempo em que, utilizando-nos dela, inserimo-nos mais profundamente ao Cosmos.

Ao ver o inseto esmagado por algo invisível, refleti: quantas vezes, por uma única palavra, algo invisível, que sai da boca de alguém e através do ar atinge-nos, somos destruídos? Ainda bem que a linguagem é dialética e, assim como pode derrubar, também pode levantar e despertar-nos. Ainda bem que nela nem tudo é literal, mas metafórico. 

Espero que esse curto texto sirva como ponte ou escada, que pinte em vós uma nova cor (não precisa ser bonita — até porque isso é subjetivo —, apenas diferente da de sempre). 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um brevíssimo comentário sobre o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

Admirável Mundo Novo (2016), de Aldous Huxley, é um romance distópico futurista, escrito em 1932, que apresenta uma crítica muito forte aos sistemas ditatoriais, à ciência e à sociedade. Um livro que lançou premissas que já se concretizaram e outras que estão para se concretizar, além de influenciar diversas áreas da arte, como o cinema e a música, por exemplo.

O tempo do romance é dividido entre antes e depois de Ford, o empresário que virou um revolucionário para a sociedade, com a criação do sistema de produção em massa. Desde então, tudo o que é autenticamente humano dissipou-se, tornando-se algo maquinal. As pessoas, por exemplo, já nascem dentro de laboratórios; a família é algo do passado, não existe mais (é até uma ofensa mencioná-la).

Não só isso. Assim que alguém é criado (através de uma reprodução artificial), sua casta é definida: será líder, presidente, empregado, escravo, etc. Desde que se tenha consciência, a pessoa, ao dormir, já recebe informações que moldarão o seu caráter e o seu comportamento, são os chamados condicionamentos, criados, sabemos, pelos behavoristas, no início do século XX.

Esses condicionamentos acompanham as pessoas durante toda a vida, sendo em cada época do seu desenvolvimento um tipo diferente, fazendo o ser amar ou odiar algo, alguém ou classe social. Não à toa, o nome de um dos departamentos faz menção a Pavlov, um dos inventores do Behaviorismo. Mais à frente, no romance, surge um personagem chamado Watson, que também foi importante nessa área da Psicologia.

Nessa sociedade de Admirável Mundo Novo, o questionamento não existe e é proibido, assim como a leitura e a tristeza. Para que ninguém pense nessas questões, são condicionados a trabalharem ou a fugirem da realidade, através dos esportes e de uma droga distribuída pelo governo, chamada Soma. Essa droga faz, na hora, a pessoa esquecer o problema e a situação em que está inserida, para delirar num mundo alegre e imaginário. Todos os dias, após saírem das fábricas, os trabalhadores recebem uma dose desse medicamento...

Uma outra forma de passar o tempo, além dos esportes, que são criados para serem praticados com muitos equipamentos, para que se precise comprá-los (tudo gira ao redor do capitalismo), é o cinema-sensível. Um cinema moderno que de conteúdo é muito pobre, mas sua qualidade está nas sensações que ele consegue transmitir, tais como o cheiro, o gosto e o tato que os personagens estão vivenciando.

Nesse mundo distópico camuflado como utópico, as relações humanas de sentimento e amor são proibidas, pois criar laços é perigoso: as pessoas podem se revoltar por quem ou pelo o que elas gostam. Não existe monogamia, todos são de todos, as relações sexuais são feitas por puro prazer, já que é o que a sociedade deseja, além da gravidez quase não existir mais.

Inserido nesse contexto está Bernard Marx, um homem que não se identifica com esse sistema e que valoriza o que ninguém preza (como observar a natureza, por exemplo — aliás, todos são incitados a não quererem se aproximar dela, pois é grátis e não traz lucro: é preferível que vivam dentro da cidade, gastando), além de recusar o Soma. Não é à toa que o autor deu esse sobrenome a esse personagem, nos lembrando o sociólogo e filósofo alemão Karl Marx, que propôs um sistema econômico diferente (comunismo) daquele no qual vivia, o capitalismo.

No entanto, Marx já estava sendo observado por seus superiores e colegas; e, por isso mesmo, era excluído de todos. Numa viagem para uma reserva de selvagens — havia ainda pessoas que viviam “à moda antiga”, com religiões (que não existem na “civilização”), ritos, gestações e sentimentos —, junto da mulher que ele gosta, Lenina, conhece John (que também se apaixona por Lenina) e sua mãe, Linda. 

Descobrindo que eram, na verdade, “mulher” e filho abandonado pelo superior que estava querendo enviá-lo a uma ilha, ele (Marx) leva-os para a Utopia e humilha o diretor, que pede demissão ao saber (e ser exposto a todos) que tem um filho e que sua "antiga mulher" está viva, feia e gorda, evitando, assim, o seu exílio.

A partir daí, o personagem principal se torna o Selvagem (John), que estranha e nega veemente esse mundo de falsidades, onde a humanidade é dispensada. É com ele que as maiores críticas são feitas. É preciso ressaltar que o Selvagem conhece toda a obra de Shakespeare e, por isso, compreende bem os sentimentos humanos, diferente dos cidadãos do Admirável Mundo Novo (aliás, “Admirável Mundo Novo” é uma expressão proferida na obra A tempestade, de Shakespeare, que é citada por John ao saber que será levado à Utopia).

Por conhecer e compreender a genialidade do Bardo Inglês, o Selvagem percebe que os conteúdos dos filmes são muito pobres e que o que prende as pessoas à cadeira são as sensações (que ele detesta sentir). Podemos dizer que é o que acontece hoje, com essas histórias de pouca criatividade, mas repletas de efeitos 3D...

Não só isso, John acaba por influenciar um outro personagem, Watson, um Alfa (classe alta), que, com ele e Marx, se revoltam — embora nesse momento Marx mostra-se ser covarde, com medo do sistema e do exílio —, dizendo às pessoas para jogarem fora o Soma, que aquilo é veneno e faz mal para eles. No entanto, a massa agride-os, querendo a droga... É o retrato da Caverna de Platão.

Assim, os três possuem uma conversa com o presidente dessa fundação, que revela saber de todos esses problemas, que ele também sofre com isso, mas é necessário para manter a ordem e a segurança de todos. Que na verdade, os assuntos e autores do “passado” são atuais (por isso proibidos), mas o povo não compreende nem a sua realidade, quanto mais um pensamento que o faça ir além. Não vale a pena. É preciso que alguém sustente a elite sem reclamar, trabalhando, por isso há o condicionamento, por isso há o Soma e todos os confortos que desejam.

Com isso, os três (John, Marx e Watson) são exilados: os dois últimos (obrigatoriamente) numa ilha onde só há pessoas sãs, conscientes da sociedade em que vivem; e John, por escolha própria (não à toa, pois ele já veio de fora, onde, de certa forma, há o livre-arbítrio) se refugia na floresta, pois prefere viver solitariamente uma vida “selvagem” do que confortavelmente numa mentira que lhe faz mal.

No fim, o que se percebe é que Aldous Huxley era e é um homem muito a frente de seu tempo, que percebeu que os melhores sistemas ditatoriais não são/não serão aqueles que agem/agirão através da violência (como pensou Orwell), mas através do prazer e do lazer. Assim, as pessoas defenderão o sistema que as prende. Um homem que adiantou o perigo que a ciência pode trazer caso ela seja tomada como fim e não como meio, pois em Admirável Mundo Novo é o homem que serve ao sistema e à ciência, não ela ao homem.

O Soma pode ser substituído por qualquer um desses prazeres de curto prazo que vendem em qualquer lugar (droga, cigarro, bebida, doces, redes sociais, etc.); o ensinamento através do sono pode ser comparado às imposições implícitas dadas pela mídia e propagandas; os relacionamentos rápidos são a marca da sociedade líquida atual; a ausência da leitura dos clássicos já é sentida há tempos, a qual é trocada por leituras de rápidas e desnecessárias mensagens  na internet. Só falta-nos sermos criados em larga escala de gêmeos (a diferença é um problema na sociedade de Huxley, por isso é evitada) de laboratórios, porém a esterilização e a inseminação artificial já estão presentes há alguns anos — e a padronização de estilos, ações e características já é comum.

Além de revolucionar com suas “previsões”, o livro de Aldous influenciou na criação de outras artes também. Há filmes que trazem algumas semelhanças com trechos da obra, por exemplo, A Viagem (Cloud Atlas), filme de 2012, traz um futuro onde há várias personagens gêmeas que só vivem para o trabalho. Além disso, há algumas músicas que tomam o romance como referência, a saber: Admirável Gado Novo (1979), de Zé Ramalho; Admirável Chip Novo (2003), da cantora Pitty; Brave New World (2000), da banda Iron Maiden; e Soma (2001), da banda The Strokes.

Em suma, Admirável Mundo Novo é um livro riquíssimo de críticas e metáforas que nos ajudam a conhecermo-nos melhor, assim como visões sobre quem podemos ser e/ou nos tornar. Um texto de apenas quatro laudas é pouquíssimo (muito pouco, mesmo!) para descrever uma obra tão genial. Leitura obrigatória.


Referências

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Lino Vallandro e Vida Serrano. 22. ed. São Paulo: Globo, 2014.

Resenha do livro Os ratos, de Dyonelio Machado, com enfoque no tempo e espaço da obra

Os ratos, de Dyonelio Machado, é um romance de 1935, que conta a história de Naziazeno, um homem que logo no início do livro descobrimos que só possui vinte e quatro horas para conseguir o dinheiro para pagar o leiteiro, caso contrário, não receberia mais o leite, o que significa um problema para o seu filho. Isso é apenas uma síntese dessa grandiosa obra. Antes de verificarmos um pouco da sua complexidade é preciso rever alguns conceitos.

Segundo Bosi (2013), há, no mínimo, a partir de 1930, quatro tipos de romance: os de tensão mínima, os de tensão crítica, os de tensão interiorizada e os de tensão transfigurada. Os ratos encaixa-se nos de tensão crítica, isto é, o herói lutando contra o seu meio.

Naziazeno é um homem pobre e devedor (ele deve a mais pessoas além do leiteiro). Embora viva na cidade, cresceu no campo, o qual ele lembra sempre idealizando, sendo, assim, o retrato do homem que saiu da zona rural para trabalhar na área urbana e que, talvez, ainda não esteja familiarizado com essas diferenças.

Embora a partir dos anos 30 tenha havido um crescimento na criação de romances em que as histórias se passavam no nordeste ou em outras regiões que não fossem os centros das cidades, Dyonelio Machado vai no sentido oposto de seus contemporâneos, escrevendo uma ficção que se passa na área urbana (em Porto Alegre, para ser mais exato).

Na verdade, ele apenas seguiu uma tradição, já que “(...) o romance surgiu identificado com a burguesia. Por isso, é urbana sua geografia” (MOISÉS, 2001, p. 178). Outra característica dos romances é que eles geralmente se passam em vários espaços diferentes, sendo abertos ou fechados. No caso d’ Os Ratos, o personagem principal perambula pelas ruas e pelos interiores de casas e comércios.

Uma última informação antes de adentrar a história é sobre o tempo. Como se sabe, há três tipos de tempo nos romances: o histórico/cronológico, o psicológico e o metafísico/mítico (idem, ibidem). Dyonelio consegue juntar os dois primeiros em sua obra de forma bem intrincada, além de, como sabemos, o tempo interferir no espaço e vice-versa.

É início do dia, cedinho, e o leiteiro já está brigando com Naziazeno, pois este não pagou o que lhe deve. Os vizinhos estão todos observando a discussão. Naziazeno só tem “mais um dia” (MACHADO, 2004, p. 8). Assim começa Os ratos. A partir daí, começa a incansável (não tão incansável assim) busca do anti-herói pelo dinheiro, cinquenta e três mil réis. O problema do personagem principal é que o tempo da cidade, do espaço, é diferente do tempo que ele tem.

A narração da obra é em terceira pessoa na maior parte do tempo (embora em alguns momentos passa-se em primeira), o narrador observa de longe o protagonista, como é característica do Realismo e Naturalismo, para dar um caráter de objetividade. Temos uma noção de tempo cronológico, da rotina de Naziazeno, logo no início: “O bonde leva uma ‘outra gente’. Não a que ele está acostumado a ver, às nove ou dez horas, a ‘sua hora’. — ‘Melhor, melhor’. Essa falta de ‘conhecidos’ apazigua-o” (Idem, p. 13). Neste momento que a personagem pega o bonde, são sete e meia.  

Isso é um indício das noções de tempo que virão com o passar da obra. Além disso, percebemos que o personagem principal vê-se acuado, observado — assim como na primeira página do livro, quando ele percebe que está sendo observado pelos vizinhos —, como se estivesse preso na cidade.

É interessante como algumas palavras interferem no mal-estar do herói e como a sua mente abalada distorce o seu cenário. Ao saber que um homem no bonde carregava leite, Naziazeno se sente mal; e todo leiteiro que passa na rua, para ele, está mal encarado.

Neste começo da história, todo o tempo é incerto, psicológico: “É que é cedo” (Idem, p. 23). Cedo “quanto/quando”? Nem o narrador sabe: “Mas, espera: que horas serão? Não há mais tempo agora: é preciso ir direto à repartição. Foi o seu primeiro plano, e é força segui-lo.” (Idem, p. 24), porque o próprio personagem perdeu a noção do tempo.

O anti-herói trabalha na repartição, isto é, um local fechado, que é o espaço. Ele pensa em pedir dinheiro ao diretor, pois este já o ajudou antes (tempo cronológico, embora não se diga exatamente “quando”), uma vez que teve problemas com a saúde do filho.

“O relógio da prefeitura marca pouco mais de oito horas” (Idem, p. 25). A partir desse ponto aparecerão muitas passagens de tempo cronológico no romance, para lembrar a Naziazeno que o seu tempo está acabando e para criar a catarse em nós, leitores. Por outro lado, começa a aparecer o tempo psicológico também, pois passam-se cinco parágrafos e “’— Este relógio ainda está marcando oito e dez.’ Os relógios não andam certos. Mas já há de ser umas oito e vinte ou oito e meia. Às nove ele se encaminhará pra a repartição” (Idem, p. 26).

Naziazeno ficou imaginando o que lhe poderia acontecer durante cinco parágrafos. Notemos a palavra “ainda” na citação anterior, pois o tempo psicológico “(...) aborrece ou ignora a marcação do relógio. Tempo interior, imerso no labirinto mental de cada um, cronometrado pelas sensações, idéias, pensamentos, pelas vivências, em suma, que, como sabemos, não têm idade (...)” (MOISÉS, 2001, p. 183).

Essa mudança do estado mental de Naziazeno afeta até mesmo o narrador (ou, pela confusão, os dois, narrador e interlocutor, se confundem): “Quanto custa um jornal?... É estranho, está em dúvida... Duzentos ou trezentos? A sua cabeça anda cansada, é isto. Mas não lembra bem mesmo. Parece que é trezentos: sofreu dois aumentos” (MACHADO, p. 26). Passa-se uma página inteira e ainda “São oito e meia quase no relógio do café” (Idem, p. 28). Tempo psicológico. Fim do capítulo três, vinte e oito páginas decorridas, apenas uma hora desde que ele saiu de casa.

A primeira frase do quarto capítulo já anuncia: “9 horas! Já está arrependido daquela longa ‘folga’. Parece-lhe tarde agora. Daí que chegue à repartição, perde mai uns dez ou quinze minutos” (Idem, p. 29). De um capítulo para o outro passaram-se trinta minutos, passamos o olhar de uma página à outra em menos de alguns segundos, mas para o personagem passou-se muito tempo. É que

trata-se do tempo psicológico experimentado pela personagem, não como dimensão da narrativa: esta, pode passar-se num vasto lapso de tempo, correspondente à vida inteira da personagem, ou numas poucas horas. Entretanto, “a área do tempo dos romances psicológicos é comumente restrita a um curto período, ou a um número de curtos períodos de variado intervalo” (...) (MENDILOW, A. A, op. cit. p. 218 apud MOISÉS, Massaud, p. 204)

Além disso, percebemos que Naziazeno já está calculando o tempo que sabe que está perdendo. Falando sobre o seu trabalho, é visto que ele (Naziazeno) trabalha com contas, mas que, como não necessita de pressa (crítica à burocracia do governo), como não precisa estar em dia, ele atrasa uns “bons dez meses” (MACHADO, p. 33). Não é à toa que ele atrasou com o leiteiro: é apenas uma reprodução de suas ações em outro espaço.

Depois de muito tempo esperando o diretor chegar, para lhe pedir o dinheiro emprestado (e o próprio empréstimo já pressupõe um tempo futuro), apenas passou-se meia hora...

É importante atentarmo-nos que até na imaginação do personagem sua mente altera o espaço (não somente o tempo), através de uma projeção (caso sinta-se bem, o cenário é belo):
Quando, depois de “pagar” o leiteiro no portão, ao pé da “escadinha”, “entra” de novo em casa, as janelas estão cheias de luz, a toalha enxovalhada da mesa resplandece, o café com leite tem um cheiro doméstico, que lhe lembra a sua infância... (Idem, p. 36)

Temos outro exemplo, que é quando o anti-herói olha novamente para o relógio e ele lhe parece “uma cara redonda e impassível...” (Idem, p. 37), como se o relógio estivesse cobrando e lembrando-o de que lhe restam poucas horas.

Acelerando um pouco a narrativa (pois este será um texto breve), Naziazeno se encontra com Alcides, um amigo, afim de que este lhe empreste o dinheiro — que no momento lhe é negado. Porém é importante notar que quando Alcides é olhado pelo protagonista, ele lhe parece diferente, o que não é verdade, diferente está Naziazeno e o seu olhar (lição que nos é ensinada desde Heráclito de Éfeso). É o tempo psicológico que traz essa subjetividade.

Ao voltar para o seu serviço (Naziazeno transita pelas ruas da cidade), para ver se o diretor já chegou e para pedir o dinheiro emprestado, é feita a primeira referência aos ratos: “Naziazeno ‘vê-se’ no meio da sala, atônito, sozinho, olhando pra os lados, pra todos aqueles fugitivos, que se esgueiram, que se somem com pés de ratos...” (Idem, p. 47).

Irônica passagem essa, pois quem está sozinho, com medo, se esgueirando pelos restaurantes, cafés e ruas da cidade, sentindo-se cercado, é o próprio anti-herói. Ele é como os ratos, a cidade é como uma gaiola, não aberta, mas que o prende. Como se não bastasse essas descrições do narrador, para compará-lo implicitamente aos animais que levam o nome do romance, o personagem começa a ter lembranças de quando bebia leite, quando era criança. Ironia. Ainda são onze e trinta da manhã.

Chegada essa hora, o diretor nega o empréstimo. “Treme o ar, toda a rua treme com o calor, tremem as casas, como um pedaço de paisagem submarina, ondulando através da água movediça” (Idem, p. 55). Depois do “não”, o espaço é modificado pelo medo do protagonista.

A partir daí, tudo piora para o anti-herói, tudo fica mais difícil. O sol fica mais quente, a rua fica mais larga, ele sente-se fraco. É por isso que quando ele vai cobrar o dinheiro de um devedor do Alcides, é enganado facilmente.

Ainda são treze horas e Naziazeno não tem o que respirar, está sem comer, está sem dinheiro, sem amigos, se sente sozinho em meio ao mundo: “A cidade não tem árvores. A rua é um bloco inteiriço de granito escaldante” (Idem, p. 66).

É importante notarmos as “dicas” que o narrador deixa do que acontecerá. Depois de enganado, nosso personagem principal percebe que caiu “num jogo” (Idem, p. 70) do devedor do Alcides, o Andrade. Pois bem, é no jogo que Naziazeno tentará ganhar o dinheiro!

Interessante a metáfora utilizada: um anti-herói azarado joga na roleta, que gira, assim como o ponteiro do relógio, assim como o seu tempo, assim como a sua vida. E ele ganha, mas assim como a roleta gira, a Fortuna (deusa romana do Acaso/Destino) também, e ele perde em seguida. É triste ver que um homem pobre, dentro de uma cidade inteira, dependa da sorte para conseguir algo (talvez, uma crítica à meritocracia).

Outra metáfora usada em seguida é a sua passagem pela rua Sete, na qual ele sente um calor imenso e passa mal novamente. Logo na rua Sete, número que possui como significado o ciclo. Observemos este outro caso da descrição do espaço: “Um caminhão cinzento passa por ele com uma certa velocidade. É o das ‘obras’. Vem do serviço. Traz um longo cano, fino, de encanamento, que sacode com a  marcha e cuja ponta fica vibrando como a açoiteira duma chibata” (Idem, p. 81).

O caminhão é cinza, como a cidade, cor nem fraca nem forte, assim como a vida de Naziazeno e dos outros personagens. O movimento do cano, comparado a uma chibata, pode ser comparado à tortura que o protagonista está passando. Novamente, o espaço está ligado ao que o personagem está sentindo.

Entardece, as casas e os comércios começam a fechar, o problema de Naziazeno agrava-se, ele não tinha contado com isso: o seu tempo é diferente do tempo da cidade, ele tem vinte e quatro horas, mas a cidade funciona por menos tempo. Mais uma comparação (metáfora) é feita pelo personagem principal: o sol descendo o horizonte é como uma moeda, representando o dinheiro que ele necessita indo embora. As casas fechadas são apenas reflexos das pessoas para com os seus problemas.

Naziazeno se encontra novamente com Alcides, são dezoito e vinte, este segundo paga um café para o primeiro, que pede leite, leite que lhe faz mal: a bebida não lhe faz bem, assim como a bebida para o filho está lhe causando toda essa tortura.

O protagonista, junto de Alcides, se encontra com Mondina e, finalmente, com o Duque (personagem que estava sendo procurado desde o início do romance, pois este sempre dá um jeito de conseguir dinheiro). Depois de irem a vários lugares, conseguem empenhar o anel de Alcides, que lhe “deu” o dinheiro. Aqui há outra metáfora (em forma de antítese): o anel, que aperta o dedo, desapertou a situação de Naziazeno. Nisso já se passou das vinte e uma horas.

Embora se tenha mostrado o fim do problema, não foi mostrado exatamente como o problema se resolveu. Técnicas e características dos romances modernos. Depois de o anti-herói chegar em casa, com o dinheiro (e com queijo — derivado do leite — para a mulher), depois de comer e deitar-se, é que se explica como ele conseguiu tal feito, isto é, o tempo cronológico é ignorado, volta-se no tempo.

Como se não bastasse, os últimos capítulos são de paranóia de Naziazeno, deitado na cama, refletindo sobre o seu dia, tentando dormir. Apenas “tentando”, porque não consegue, pois começa a ouvir ruídos e sons de tudo ao redor. Pensando que já amanhecerá, na verdade se passaram apenas alguns instantes. Em suas palavras: “Uma hora!... Já lhe parece um século aquela noite e é apenas uma hora!... Precisa dormir, precisa descansar. Tem de aproveitar esse resto de noite. É estranho: um cansaço tão grande, e não consegue conciliar o sono...” (Idem, p. 163).

Não é à toa que todo esse sofrimento se passa dentro de um quarto, espaço fechado, para aumentar a tensão do personagem e a nossa catarse. Por fim, Naziazeno delira, imaginando que ratos roem toda a sua cozinha, inclusive o dinheiro.

Massaud Moisés (2001) diz que

É voz corrente entre os críticos que um romance, para ser bom, deve satisfazer a três requisitos fundamentais: 1) um enredo suficientemente rico, forte e convincente para manter no leitor a mesma pergunta aflita: “e agora? Que vai acontecer? E depois?”; 2) personagens verossímeis à imagem e semelhança dos seres humanos, “gente” como nós (...) 3) reconstituição da natureza ou do espaço onde a história transcorre. (...) (p. 181-182).

Considerando essa citação do Massaud Moisés, Dyonelio Machado conseguiu fazer um excelente romance, pois satisfaz aos três requisitos, cativando-nos do início ao fim. Naziazeno é a representação do trabalhador oprimido e alienado, sua vida depende de terceiros e da sorte. A cidade é um espaço fechado, que aprisiona, ao invés de libertar. A própria separação de breves capítulos já demonstra a fragmentação do homem. A falta de dinheiro torna o homem quase um animal, desesperado pela sobrevivência.

Escrito numa linguagem simples e acessível, Os ratos é um livro riquíssimo, principalmente para quem estuda a mentalidade do ser humano. Repleto de metáforas e críticas, o autor entretém, ensina e provoca. Para quem se interessa por Literatura Brasileira, é leitura indispensável.

Dyonelio Machado nasceu em 1895 e morreu em 1985. Formado em medicina, especializou-se em psiquiatria. Escreveu romances e contos, além de ter sido jornalista e deputado.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA (Instituto de Ensino Superior “Santo André”), Santo André, SP.


REFERÊNCIAS

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

MACHADO, Dyonelio. Os ratos. São Paulo: Planeta, 2004.

MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa I. 18. ed. São Paulo: Cultrix, 2001. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Metamorfose milenar

Diz-se que há muito tempo atrás, através das boas ações dos seres humanos, surgiu uma pomba branca (uma só, que também falava de um único Ser). Esse pássaro voava na contramão de sua época, tanto nas suas palavras quanto na sua forma física, posto a diversidade de animais, divindades e crenças existentes no local em que habitavam.

Essa pomba cresceu e teve vontade de conhecer novos lugares e ares. Conheceu gente pobre, ficou amiga de gente rica e onde quer que fosse, deixava sua mensagem e imagem. Durante seus voos, caíram três de suas penas em lugares e tempos diferentes.

Dessas penas surgiram outras três aves menores, que discordam entre si (é que uma impõe muito a sua visão e seus modos sobre algumas partes do discurso da mãe; a outra protesta, querendo remover alguns trechos; e a outra mudou e acrescentou alguns acontecimentos e personagens na história), mas que são da mesma família.

Embora saibamos que são corpos diferentes, ainda consideramos todos como parte da mesma pomba. Pois bem, esse pássaro continuou comendo muito bem, sendo alimentado por quase todos que tinham contato consigo (algo contrário ao início, quando era ela quem alimentava os povos), e, assim, muito cresceu — diferente dos bichos e seres do passado, que não foram alimentados e morreram ou definharam.

Como não poderia deixar de ser, com o tempo a sua coloração mudou. Além de o ar ser poluído, os lugares que a pombinha branca visitava também eram sujos. Foi assim que ela se manchou, ficou imunda.

No entanto, a sua sujeira não é uma mera cor encardida, porque se o fosse, seria superficial. Não, não; é uma sujeira profunda. As penas sujas caíram, dando nascimento a vários outros animais e vermes, e o seu couro foi revelado; couro queimado pelo sol ou por maldições jogadas pelas fogueiras criadas por ela mesma. Houve uma época em que os homens ascendiam o fogo e a pomba batia asas, esquentando a brasa.

Hoje, quem olha para ela, nem a reconhece mais. Cresceram novas plumas, mas negras. A pomba virou uma espécie de bicho mitológico: metade urubu, metade corvo. Urubu, porque vive na podridão e come lixo; corvo, porque anuncia morte. Só não se sabe se é a morte da antiga pomba, se é a de si mesmo, se é a de seus fiéis ou a de seus espíritos.

Alguns dizem que a verdadeira ave está presa em cativeiro há muitos anos e que é uma farsa a que vemos hoje, pois até a palavra, o tom de voz e a forma ensinada de se chegar ao céu mudaram. Cada pena dá origem a outros pássaros e micróbios, e cada um modifica um pouco a história da mãe.

O engraçado é que ao invés do corvo-urubu ir atrás de sua comida, é ela quem vai atrás de seu predador, chamando-o de salvador. E pensar que tudo isso nasceu de uma pena de Platão...

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Resenha do livro "Bom dia camaradas", de Ondjaki

ONDJAKI. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

O gênero literário “romance” pertence à categoria Prosa, mas há alguns autores que conseguem elevá-lo a um outro nível, criando, assim, uma prosa poética. Ondjaki faz parte desses escritores, Bom dia camaradas faz parte desses textos.

O livro é dividido em duas partes, que, por sua vez, se dividem entre curtos subcapítulos; cada um é iniciado por uma epígrafe, que é a fala de algum personagem do próprio romance no respectivo capítulo; enquanto as duas partes do livro são antecedidas por versos do poeta africano Oscar Bento Ribas — o que já indica o tom poético que a obra terá.

Bom dia camaradas é narrado em primeira pessoa quase que o livro todo, exceto num único trecho, o qual muda para a narração em terceira pessoa, para contar a ação e visão do personagem principal, que se chama Ndalu. Ndalu também é o nome do escritor Ondjaki, Ndalu de Almeida, o que pode indicar, talvez, que se trata de um romance “autobiográfico” (até porque os versos de Oscar Bento Ribas referem-se à saudade).

A história se passa na Angola (também o local de nascimento de Ondjaki), no período pós-colonial, e conta alguns relatos diários do personagem principal, Ndalu, uma criança de classe média, que embora seja jovem, possui um olhar crítico e politizado sobre o seu meio.

O livro já se inicia com uma pergunta do personagem principal ao cozinheiro da casa: “’MAS, CAMARADA ANTÓNIO, tu não preferes que o país seja assim livre?’” (p. 17), o que denota o caráter questionador da criança, além do período de pós-colonialismo português. Porém, António discorda, alegando que “(...) no tempo do branco isto não era assim...” (p. 17).

A resposta de António justifica-se, porque após a libertação do povo angolano, iniciou-se uma guerra civil, guerra que permeia todo o livro. A criança parece não entender a existência da guerra, pois agradece por ao menos o país ser governado por africanos de verdade, não por portugueses. Enquanto, por outro lado, António diz que pelo menos quando eram dominados, havia ordem...

É o retrato de pessoas que não percebem a situação na qual estavam inseridas, pessoas sem esperança, que preferem depender de outrem a criar a própria história. Pode-se dizer que António representa a classe popular (enquanto Ndalu, a classe média — que quer se reerguer e ser livre).

O menino estuda numa escola que possui professores cubanos, que foram para a África para ajudarem Angola, agora que é um país livre, mas em guerra e em construção da própria identidade. O livro, que faz parte da Literatura Africana de expressões portuguesas, possui diversas palavras angolanas, além de trechos escritos em espanhol para representar a fala dos cubanos, o que faz a linguagem da obra ser híbrida.

Esses professores representam a voz crítica do texto, por todo o seu contexto ideológico e revolucionário que vivenciaram em Cuba, como no primeiro relato do menino na escola, quando a professora está triste “(...) porque os alunos tinham sido indisciplinados, e que num país em reconstrução era preciso muita disciplina (...) que nós tínhamos que nos portar bem para que as coisas funcionassem bem no nosso país” (p. 21).

Também é importante ressaltar o espanto dos professores cubanos ao verem que seus alunos possuíam relógios de pulso e calculadoras. Mais à frente, o espanto aumenta-se ao presenciarem a quantidade de comida posta na mesa da casa de um de seus alunos. A primeira hipótese que se pode pensar sobre isso é que os cubanos não tinham acesso a esses objetos e a tal quantidade de comida em Cuba, ou a surpresa em saber a situação da Angola, que estava muito melhor do que esperavam (lembremos: esses alunos, em sua maioria, fazem parte da classe média angolana).

A linguagem utilizada pelo narrador é muito simples e poética, observando as pequenas coisas, como as atos cotidianos, as plantas e os insetos, comentando-as de forma ingênua, como se o escritor realmente fosse uma criança. No entanto, essa observação das pequenas coisas advém da própria monotonia local: “Nós ficávamos aborrecidos com as notícias, porque era sempre a mesma coisa: primeiro eram as notícias da guerra, que não eram diferentes quase nunca (...)” (p. 27).

A ingenuidade da criança é percebida (pela forma e) pelo o que ela aprende no seu dia-a-dia (por exemplo: quem era Nelson Mandela, seu tempo de prisão, a existência da África do Sul, as imposições — barbáries — sobre o povo e sua posição de “inimigos”), acompanhada de seus novos questionamentos e não conformação com o Apartheid, com o racismo, com as notícias, enfim, com a realidade.

A dura realidade local é demonstrada a partir da visita de uma tia de Ndalu, Dada, que mora em Portugal (ela morava na África/Angola, mas se mudou — não se explica o motivo). Logo no aeroporto, vê-se o medo, a força, a repressão e o autoritarismo existente no país, quando as Forças Armadas para a Libertação da Angola (FAPLA) não permitem que sejam tiradas fotos no lugar, “(...) eles não deviam saber que em Luanda não se podia tirar fotografias assim à toa. O Fapla disse: ‘a máquina está detida por razões de segurança de Estado! ’” (p. 40).

Mais à frente, vemos que quando o presidente passa de carro, todos os cidadãos próximos devem sair de dentro de seus veículos, para mostrar que obedecem e que não possuem armas contra as autoridades. É nisto que se mostra a dualidade da criança que, por um lado, questiona-se sobre alguns comportamentos adotados por certas pessoas, mas por outro, considera normais essas imposições autoritárias do governo, por já ter crescido nesse contexto.

Um trecho importante e que consome boa parte do livro é a história do Caixão Vazio. Um boato que estava acontecendo nas redondezas da escola, em que narrava um grupo de bandidos, todos vestidos de preto, com um caixão vazio (em que havia uma caveira desenhada), no qual eram colocadas as crianças. Eles chegavam num caminhão, cercavam as escolas e abusavam das professoras, além de destruírem tudo por onde passavam. Depois se descobre que tudo era uma mentira, mas mesmo assim, toda essa ficção reflete os medos das crianças e do povo, o medo da guerra, da violência e da morte.

Em um diálogo entre o protagonista e a tia Dada, entendemos um pouco da sociedade angolana no período da guerra civil. Quando a tia chega com os presentes, o menino pergunta como ela conseguiu tudo aquilo, se o seu cartão permitia tais aquisições, já que, na Angola, havia cartões de abastecimento, que limitavam e controlavam as compras feitas. Dada, por sua vez, responde que em Portugal pode-se comprar a quantidade que quiser e do que quiser, desde que se tenha dinheiro.

A narração em primeira pessoa já aproxima o leitor do narrador; há personagens que o cativam mais ainda; mas em Bom dia camaradas Ondjaki cria um narrador que conversa com o leitor, como na passagem em que o menino diz que os adultos, às vezes, fazem gestos somente por fazer, mas que não há sentido para fazê-los (e aqui percebemos o olhar ingênuo e pontual da criança). Depois, comenta: “(...) não sei se já repararam que os mais velhos fazem muito isso.” (p. 51).

Além da influência de cubanos em Angola, há, também, a presença de soviéticos no país. Estes dominam até mesmo uma praia, como se fosse deles — isto até nos lembra uma passagem do conto Um passeio na noite (1979), de Alex La Guma, quando os trabalhadores comentam que os brancos pensam em possuir uma praia africana só para eles. Novamente, o protagonista acha comum, assim como estranha que em Portugal o presidente não ande sempre cercado de soldados e que não impõe que todos parem o que estejam fazendo para observá-lo passar. É nisto que se mostra que o personagem principal, embora possua um olhar crítico, não deixa de ser uma criança.

Não só isso, Ndalu conta com naturalidade à sua tia as atrocidades que acontecem no país ou que lhe são contadas, como queimar bandidos vivos, mutilar dedos, injetar água de bateria no corpo, etc. Até acha graça. Também gosta da ideia de terem tirado uma estátua em homenagem a alguém e terem posto um tanque de guerra. É um traço do determinismo, que acostuma as pessoas aos seus respectivos meios (o que, automaticamente, ocasiona a reprodução de ações). Não é à toa que Murtala é um aluno que tem muitas dificuldades, pois é um dos únicos pobres da sala. Reflexo de seu círculo pessoal.

A segunda parte do livro inicia-se diferente da primeira (o que já deixa “dicas” do que acontecerá): enquanto a primeira começa de dia, esta, de noite. É nela que se descobre que o Caixão Vazio não existia e que o carro que eles pensaram ser o caminhão dos bandidos, era o carro do inspetor da escola, que faria uma visita surpresa e que todos deveriam estar comportados e limpos. O medo do caixão vazio reflete o medo das crianças pelo inspetor (elas fugiram da escola); e esse medo reflete o medo da(s) autoridade(s). É interessante comentar que os professores cubanos nem sabiam quem era o inspetor da escola em que trabalhavam, o que lembra os trabalhadores que não conhecem seus patrões e patrões que não conhecem seus trabalhadores.

É importante percebermos como as descrições mudam o tom da narrativa nesse segundo capítulo. Além de ser iniciado à noite, o protagonista passa a acordar mal-disposto (o que é contrário à primeira parte do livro, na qual ele acordava sempre bem disposto). É uma passagem de respostas e descobrimentos, como quando assistem a um vídeo e um professor mostra que o filme é ideológico, que os americanos sempre vencem e nunca apanham. Depois os alunos complementam, dizendo que realmente, a munição dos americanos nunca acaba.

Porém, a maior lição que esses garotos ouvem é sobre o seu próprio país e futuro. Fala do professor Rangel:

(...) Ustedes son jóvenes, pero ya se debem haber dado cuenta de que muchas cosas han cambiado em su país em los últimos tiempos... Las tentativas de acuerdos de paz, La llamada presión internacional, todo eso no pasa solamente en el telediario, va a pasar de verdad en su país, en sus vidas, en sus amistades... Su país está cambiando de rumbo y eso, como siempre, tiene consecuencias. La revolución, como decia Che Guevara, tiene muchas fases, unas más fáciles y otras más difíciles (...) son alumnos de uma escola, y a ustedes que son nuestros amigos, que la lucha, la revolución, nunca termina; la educación es uma batalha. Sus opciones de formación, bien sean profesores, mecânicos, médicos, operarios, campesinos... también esa opción es una batalha (...) Además de sentir haber cumplido nuestra misión em Angola, además de habermos sentido privilegiados por poder ayudar a nuestros hermanos angoleños em la lucha por el poder popular, volvemos alegres a nuestra pátria sabiendo que Angola tiene jóvenes, en su mayoría, tan empeñados en la causa revolucionaria, porque la causa revolucionaria, sobre todo, es el progreso. Angola está dando los primeiros pasos en outra dirección, pero puede ser una buena direción, todo depende de los hombres, de sus corazones, de la firmeza com que luchen por sus ideales, de la simplicidad que pongan em sus acciones, Del respeto que sientan por los compañeros... Angola ya es uma gran nación y va a crecer más (...) que realmente los niños son las flores de la Humaniadad! Nunca olviden eso... (p.111 - 113).

É um capítulo de despedidas: a tia Dada volta para Portugal, as aulas acabam, alguns alunos se mudam, os professores voltam para Cuba, um dos personagens próximos ao protagonista morre e, também, a guerra civil termina. Tudo isso é captado e descrito liricamente por Ndalu, de forma simples e poética, cheia de imagens, sinestesias e reflexões.

Enfim, Bom dia camaradas é um excelente livro, que se propõe a mostrar a África e a Angola de uma forma diferente da que é mostrada na mídia (somente a pobreza). É um texto que mostra as necessidades do país, a guerra, a violência e o autoritarismo, mas mostra a luta, a busca por identidade, a mudança, a ingenuidade e a esperança do povo; um bom dia através das crianças. É uma obra recomendada a todos os interessados em Literatura (não especificamente a Africana de expressões portuguesas), que buscam conhecer e aprender sobre outras culturas, agora sim, especificamente, a africana (que, aliás, tem muito a ver com a brasileira).

Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki, é um sociólogo, poeta e escritor angolano, nascido em 1977. Vencedor de vários prêmios literários, entre as suas maiores obras estão Os da minha rua (2007) e Os transparentes (2012). Atualmente, mora no Rio de Janeiro.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é estudante do curso de Letras, em IESA, Santo André – SP.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Uma carta para leitores

Caro leitor,

"Lê-me, que o poema irás amar" - Charles Baudelaire.

Às vezes, comparamos pessoas a livros; às vezes, até creio que nos parecemos. Ontem, me disseram que tenho poucas companhias, porque sou um livro fechado. Ora, mas a culpa nunca é dos livros, pois nenhum deles se abre sozinho. É preciso que alguém tenha vontade, capacidade e coragem para abri-lo.

Acontece, às vezes, de alguns serem julgados pela capa. Porém, há pessoas abertas ao mundo, mas que ninguém nem passa os olhos pelas suas páginas. Ninguém possui tempo ou curiosidade pela história que está ali.

Não adjetivo nenhuma pessoa como um livro aberto ou fechado, apenas como livros. Há tantos exemplares disponíveis, com histórias fantásticas, formas e conteúdo. Nenhum é igual ao outro, cada um é o seu próprio autor. Livros que se escrevem — escrevem em si.

É uma pena que poucas pessoas saibam ler. O erro de quem me culpou por ser sozinho e me chamou de livro fechado, é que mesmo se todos fôssemos livros abertos, tudo depende da capacidade do leitor. Mesmo que aberto e à luz do dia, é preciso saber ler o que está por trás.

Há leitores que desconhecem e desconsideram o contexto, que não conseguem reconhecer e grifar as partes mais importantes e rechaçar as desnecessárias. Mas há os profundos e sensíveis, que a cada leitura percebem partes que mesmo o autor desconhece. São esses que enriquecem as obras mais ainda.

Há gente que lê, mas que não sabe interpretar, que não consegue se pôr no lugar do outro. Não temos letras nem pontos, mas temos olhares, gestos, respirações, pensamentos, sentimentos e vontades. O melhor de nós está implícito, porém há poucos letrados.

Obrigado por ler até o final  (ao menos desta única página).

Ass.: Um autor desconhecido, de um livro que ainda está sendo escrito e que não será — nem pretende ser — best-seller

sábado, 30 de julho de 2016

Resenha do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha

Os Sertões é a obra-prima de Euclides da Cunha. Publicado em 1902, o livro narra a história da Guerra de Canudos, no nordeste brasileiro. Escrito no período do Pré-Modernismo, a forma de contar os fatos é direta/objetiva, porém, por influência do Parnasianismo, a linguagem utilizada é complexa (o que reflete o teor da história).

Antes de iniciar a análise, é preciso comentar que Euclides da Cunha não era um escritor literário, mas um jornalista e engenheiro. Trabalhando para o jornal O Estado de São Paulo, Euclides foi enviado à área de combate como correspondente, para acompanhar e descrever as ações do exército e dos “rebeldes”, seguidores de Antônio Conselheiro.

Chegando lá, o jornalista não encontrou nada do que havia escrito em artigos anteriores (sertanejos revoltados contra a república, que queriam trazer de volta a monarquia), nem verdades sobre o que diziam sobre os nordestinos (povo fraco e não civilizado), muito pelo contrário. Esse foi o motivo da escrita do livro.

Logo de início, Euclides percebe que o que separa o nordeste de outras partes do Brasil, mais do que a distância, é “o tempo” (p. 16). Em termos de progresso (construções, indústrias, sociedade, ideias, etc.), os sertões estavam atrasados, ignorados, esquecidos, seguindo modelos de vida arcaicos.

De certa forma, podemos dizer que o nordeste era para as áreas mais desenvolvidas do Brasil como o próprio Brasil em comparação a outros países até hoje em dia. E mesmo hoje, quem pode ajudar o país, de dentro dele mesmo, não o faz.

Assim, o jornalista utiliza-se de seus conhecimentos e métodos científicos para tentar entender e explicar o motivo de tais situações, não como os românticos e simbolistas, de forma subjetiva, mas como os realistas e naturalistas, através de pesquisas e observações. Com isso, o escritor propôs-se a desvendar o que é, de verdade, o brasileiro, que, até então, era desconhecido ou conhecido somente uma ou outra personalidade.

É importante ressaltar essa questão do reconhecimento, pois o Pré-Modernismo foi isso, uma ruptura com o olhar que se tinha sobre o próprio Brasil, um “inconformismo cultural” (BOSI, 2013, p. 354). Porém, apenas a visão e a vontade de descobrir e ampliar o que já se sabia sobre o país mudaram, pois a forma continuou a mesma utilizada até então, no caso, uma escrita realista, mas em outro tempo (o que a faz neorrealista). Quem, depois, mudou tanto o conteúdo quanto à forma de escrever e descrever nosso território, seres e cultura, foram os modernistas.

O livro é dividido em três núcleos (sub-capítulos): A terra, O homem e A Luta. No primeiro, o autor investiga as características de cada região do Brasil, desde o sul e sudeste até o nordeste, descrevendo o sertão como uma terra ignota, isto é, desconhecida, a qual as estradas são abandonadas, “(...) onde avançavam os rudes sertanistas nas suas excursões para o interior (...). Não a alteraram nunca” (p. 27). Terra seca, dura, difícil de vencer e de ser vencida.

É um capítulo extremamente difícil de ser lido, por conta de seus termos científicos e rebuscados, mas é nisto que está a riqueza do livro, pela quantidade de descrições. Vejamos, por exemplo, esta passagem:

“(...) Verdadeiros oásis, têm, contudo, não raro, um aspecto lúgubre: localizados em depressões, entre colinas nuas, evoltas pelos mandacarus despidos e tristes, como espectros de árvores; ou num colo de chapada, recortando-se com destaque no chão poento e pardo, graças à placa verde-negra das algas unicelulares que as revestem.” (p. 29)

Além disso, notemos a quantidade de aliterações em [p] e utilizações de imagens, criando, assim, uma prosa poética.

É neste capítulo, também, que numa passagem o autor se revela muito à frente de seu tempo, percebendo o problema das secas contínuas do sertão e dando uma possível solução ao sugerir que transportem as águas do rio São Francisco para as outras áreas, além de aconselhar que façam inúmeras barragens e muros. O livro foi publicado em 1902, mas essas ações (transposição do rio) só começaram a ser feitas há poucos anos — e, ainda assim, devagar.

Como todo bom escritor, Euclides deixa aberturas para o leitor já desconfiar do que virá ao longo da obra, quando, por exemplo, diz que só de olhar para aquele deserto do sertão, vê-se um “mar extinto” (p. 33). É o que será exposto depois, com as ideias de Antônio Conselheiro. Assim ele descreve toda a área por onde passou, as cidades, povoados, tudo, até chegar ao próximo capítulo do livro.

No segundo núcleo, é descrito o Homem de cada região (jagunço, vaqueiro, gaúcho, etc.). Seguindo a linha do determinismo (pois é possível dizer que o Pré-Modernismo é uma continuação do Realismo e Naturalismo [BOSI, 2013]), cada local determina como os seus habitantes serão, sendo assim, o ser humano é reflexo e fruto de seu meio. Ora, se o sertão é uma área difícil de viver, quem consegue tal feito só pode ser alguém forte — não no sentido de corpo, porque os sertanejos são descritos como magérrimos e quase desnutridos, mas numa concepção de resistência à oposição.

Porém, mais do que isso, o jornalista detalha cada característica dos povos, diferente do romântico, que entendia por brasileiro somente os índios e europeus, descritos de forma idealizada.

O escritor não observou empiricamente somente aquele a quem foi ordenado observar, o sertanejo, mas um leque de tipos de homens brasileiros, desde as feições, passando pela personalidade, até a roupa. Interessantíssima a comparação que ele faz e explica o porquê das roupas do gaúcho, quase como as de festas, por conta de sua riqueza natural do ambiente, em contrapartida às do nordestino, que mais parecem uma armadura, por conta do couro duro. É realmente a roupa de alguém que vai à luta, rígida como o próprio dono.

Em Os Sertões são observadas as várias miscigenações do povo brasileiro e os seus resultados — “(...) mulato, o mameluco ou o curiboca, e o cafuz (...)” (p. 77). Como é dito: “(...) o brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima afirmado, só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo” (p. 77).

Como ele afirma, “(...) Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. (...) Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos. A afirmativa é segura” (p. 79). E é por este mesmo motivo, por não sermos unos, que, além da diferença de características, temos divergências de ideias e ações, que ocasionam os conflitos. Assim se dará o terceiro e mais importante capítulo: A luta.

Ainda falando sobre as características, é importante lembrar como é intrigante a fé e crença sertaneja, como foi pontuada pelo escritor, pois ao mesmo tempo em que é um povo cristão, crê, também, nas lendas e mitos, tanto africanos quanto indígenas. Para o escritor, um povo mestiço só pode ter uma religião mestiça.

Até então o autor havia descrito somente o meio e os agentes que, agora, batalhariam. É uma regra do texto jornalístico manter a impessoalidade — e é o que faz Euclides da Cunha na maior parte do tempo. Ele não torce pelos soldados do exército vencer, nem para os sertanejos saírem vitoriosos, apenas os descrevem. E nessas descrições percebe-se como os soldados da república são despreparados e o quanto a imagem dos nordestinos, de gente fraca, não passa de estereótipo.

Isso não deixa de serem críticas do escritor contra àquilo que ele mesmo fazia parte, para quem ele trabalhava. Não é uma opinião, mas uma constatação de que o que o governo republicano estava fazendo era errado, barbárie e crime.

Por outro lado, Euclides utiliza-se de técnicas literárias para narrar a história da Guerra de Canudos, não somente a do narrador em terceira pessoa (pois isso já há no jornalismo) ou a crítica à sociedade de sua época, mas a forma de detalhar os espaços e o tempo, cheios de imagens, comparações e usos de reticências, para deixar aquela sensação de reflexão, de descontinuidade da ideia. E é com este tipo de linguagem que o autor escreve o último capítulo do livro.

Depois de derrotarem três expedições do exército republicano e darem muitas baixas à quarta campanha — próximo ao desfecho da batalha, os militares, “Ao fim de três horas de combate, tinham-se mobilizado dous mil homens sem efeito algum (...)” (p. 563) —, os nordestinos persistiam lutando.

É, sobretudo, neste momento, que os juízos preconceituosos e condenatórios da parte inicial de Os Sertões transformam-se em admiração e respeito pelos sertanejos.

É preciso ressaltar que algumas afirmativas que Euclides da Cunha faz no começo do livro, como chamar os nordestinos de “raça inferior”, deve-se ao determinismo racial, aos ensinamentos e tradições da época, os quais ele e a maioria aceitaram sem contestar.

Porém, por considerá-los assim, inferiores, é que se percebe que os sertanejos não mereciam nem deveriam receber toda aquela artilharia, desta forma, transformando não só a linguagem euclidiana em épica, mas o próprio livro. É uma tragédia.

Ora, o gênero épico narra em versos os grandes feitos de uma nação; Euclides narra em prosa as batalhas de Canudos. Geralmente, a narrativa épica possui heróis ou personagens fantasiosos/ lendários; em Os Sertões existe a figura de Antônio Conselheiro, líder da cidade baiana. Aliás, pela descrição feita, Conselheiro se assemelha muito a Jesus, personagem bíblico. Não só quanto à aparência, mas aos ensinamentos religiosos também.

Antônio Conselheiro morreu após ver as duas igrejas da cidade derrubadas e todos os santos destruídos pelos tiros de canhões. Foi após ver este quadro que resolveu entrar em jejum, porém, daí não tornou a lutar. Aliás, mesmo o texto sendo objetivo, esta passagem é muito simbólica, pois foi neste momento em que os sertanejos começaram a fraquejar. Perderam o local da crença religiosa (igrejas), perderam o líder, perderam a fé na cidade.

No entanto, as igrejas são materiais, os corpos são materiais, a cidade é material, a fé não. Os moradores e lutadores de Canudos ainda criam que Antônio Conselheiro voltaria. Eles realmente acreditavam que “(...) o profeta volveria em breve, entre milhões de arcanjos descendo (...) numa revoada olímpica, caindo sobre os sitiantes, fulminando-os e começando o dia do Juízo...” (p. 524). Por este motivo que continuaram a lutar até o fim.

É por isso que mesmo sendo um livro de teor jornalístico, o autor conseguiu mesclar com a Literatura, dando possibilidades a inúmeras interpretações e estudos de diversas áreas (pois além destas duas esferas, na obra há muita informação histórica, sociológica, filosófica, científica, etc.).

Os capítulos são todos curtos, de tamanho de crônicas (que são textos ao mesmo tempo jornalísticos e literários), a maioria toma o formato de relato impessoal, tendo sempre ao final um resumo das baixas das batalhas. Há, também, outros capítulos que sempre fazem uma crítica pessoal às estratégias utilizadas pelos soldados (de certa forma, são textos de opinião/dissertativos).

Em suma, Os Sertões é um livro muito rico, um retrato direto do que foi a Guerra de Canudos, escrito de maneira muito rigorosa e científica, mas que, por conta das imagens, metáforas, antíteses nas descrições, figuras emblemáticas (como Antônio Conselheiro) e reviravoltas impensáveis e inesperadas, um leitor alheio à História do Brasil pode até pensar que é ficção, que é pura Literatura.

Como Euclides disse, na nota preliminar: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo” (p. 16). Um homem compromissado com a verdade de seu país. Reconheçamo-lo; conheçamo-nos.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA (Instituto de Ensino Superior “Santo André”), Santo André, SP.

Referências

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011 (Saraiva de Bolso).