segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

As antenas das crianças

Novamente, caminhando com o Rambinho (para quem ainda não sabe, ele é o cachorrinho aqui de casa — na verdade, nem gosto de chamá-lo assim, “cachorro/cachorrinho”, pois o romantizamos; vemo-lo com características humanas, como prosopopeia), ele me fez refletir.

Por gostar de sair, ele sempre sai na frente, cheirando e olhando para tudo. Quando percebo que a área em que ele pretende ir é perigosa, que possui espinhos ou pode haver alguns tipos de insetos, eu o seguro com a coleira.

Uma vez comentei aqui que os animais nem sempre possuem consciência do que estão fazendo ou desejam fazer, apenas fazem. Somos nós quem temos a consciência da situação, então, cabe a nós incentivarmos ou mudarmos o rumo do animal. Às vezes, há pessoas adultas que agem sem pensar também; agem sem consciência do que estão fazendo (tanto por mover-se pelas emoções, quanto por alienação). E há as crianças, que são movidas pelo espírito da curiosidade.

No último texto do livro A dialética do esclarecimento, chamado “Sobre a gênese da burrice”, os filósofos Adorno e Hokheimer comparam a inteligência com as antenas de caracol e a burrice com a cicatriz. Explico.

O caracol move-se conforme o tato da sua antena; através dos seus sentidos, por onde lhe parece seguro, ele segue. Assim é a inteligência. Ela não permite que andemos por onde não conhecemos ou por onde nos parece inseguro. No entanto, se as antenas sofrerem (e elas são partes muito frágeis) alguma lesão ou forem cortadas, mesmo que se cure, ficará uma cicatriz.

Semanticamente, a palavra “cicatriz” nos traz a característica da fixação, da marca, do sinal que nunca é esquecido ou apagado. Pois bem, foi disso que lembrei ao caminhar com o Rambinho, ao puxá-lo para não entrar no mato ou se envolver em brigas. A reflexão que faço não é sobre ele, mas sobre as crianças.

Há anos que deixamos de ver as crianças como “adultos em miniatura” e passamos a vê-las como seres em construção. Durante a infância, somos guiados pela nossa curiosidade (e a curiosidade é sempre acompanhada pelas perguntas) e pelos sentidos, antes do que pela razão. Podemos dizer, então, que a curiosidade e os sentidos são as antenas das crianças. Logo, se machucar ou cortamo-las, ficam as cicatrizes, fica a marca da burrice — não vamos entender a burrice como ofensa, mas como uma dificuldade maior ou incapacidade de levar adiante a percepção, o pensamento, a argumentação, o aprendizado e o desenvolvimento.

Ao puxar o cachorro, lembrei dos pais e professores que “puxam” as crianças e alunos: “Não pode fazer isso”, “Assim não!”, etc. Mas não é que não permitem por “achar perigoso”, e sim por considerarem “trabalhoso” ficar observando, ajudando, incentivando, e, assim, avaliando a todo o momento o aluno e a si mesmo (que é o que deveria acontecer sempre: a autoavaliação e a autocrítica, o repensar a si, ao outro e a tudo).

A infância é uma fase muito delicada, é quando começa o descobrimento do mundo para a criança. Se a curiosidade for cortada, seja lá por qual for o motivo, veremos pessoas crescidas e desinteressadas em aprender; deficientes em defender suas próprias ideias e ideais, porque não sabem para onde apontam suas vontades, pois perderam suas antenas. Após o corte, não é a vontade ou a curiosidade que orienta o ser, e sim o medo. Mas o medo não orienta: desorienta, paralisa.

Este texto é só uma reflexão, mas é interessante a metáfora usada por Adorno e Horkheimer. Os bons professores não são os que “puxam” o aluno para seu lado, dogmaticamente; os bons pais não são os que cortam as vontades de seus filhos, autoritariamente. Os bons responsáveis são os que orientam as pessoas, e tenho certeza de que eles se sentem felizes ao ver o quão longe seu aluno/filho chegou, seguindo suas sugestões, não ordens. Pois ensinamento não é ordem; ensinamento é para o bem e avanço. Ordem é para a paralisação ou ação contra a vontade.

Agora o Rambinho sabe onde pode ou não entrar. Mesmo assim, continua indo na minha frente, sempre curioso. É bom vermos as pessoas indo a lugares novos e aprendendo por vontade própria, não sendo arrastadas por alguém ou por obrigação. Ou, pior ainda, quando sozinhas: paralisadas.

Que as perguntas sejam feitas, que os sentidos funcionem, que não tenhamos — nem causemos! — cicatrizes, que as antenas não sejam cortadas, que não sejamos paralisados pelo medo e pelo trauma causado no passado, que possamos vivenciar o nosso meio. 

Aliás, se eu não tivesse ficado atrás, observando (e observar é o sentido da visão) “meu” cachorro, eu não teria conseguido esta reflexão. Podemos dizer que, neste caso, foi ele quem me guiou?

PS: Apenas lembrei-me do texto do Adorno e Hokheimer, mas o conteúdo vai muito além. Recomendo a leitura dele a todos (é pequenininho, só tem uma página). Deixo abaixo um link para acesso:

ADORNO, T.W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Disponível em:

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Diálogo sobre um coitado

— Como vai o coração?
— Descansando, após a última tatuagem.
— Como assim?
— Toda pessoa que o conhece, tatua seu próprio nome nele. Dói, mas dói ainda mais quando alguém vai embora e o nome fica ali, para sempre. Depois de muito tempo, o coração tenta se lembrar do rosto da pessoa, mas não consegue; só ficou o nome. O mais triste, moça, é que ele não consegue mais lembrar como era antes de ter todos aqueles nomes por cima.
— E ainda há espaço livre?
— Não. Por isso ele não entende nada, perdido em si mesmo. Os nomes agora estão uns por cima dos outros; e quem mais quiser escrever, terá que ser por cima do último.
— Entendo. Mas ele não consegue lembrar por sua própria incapacidade. O problema está na memória e na mente, não no coração. Coitado. Todo ser e todos os seres aproveitam-se dele, que continua servindo-o(s) continuamente. Mas ninguém o serve. O único que pode ajudá-lo é o próprio dono, mas este só o ajuda porque é obrigado; ajuda-o sem saber (e também o oposto: machuca-o sem saber). Na maior parte do tempo, o dono até esquece que ele existe. É um coitado.
— É. Coitado do coração.
— Não, estou falando de você. Você é o coitado; e o culpado também.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uma pequena reflexão #4: Internet, estando sem estar

A Internet é o lugar para eu ficar onde não estou. Gosto das fotos de corpo todo, porque assim o foco fica longe e eu escondo os meus defeitos de mim e dos outros. Enquanto isso, a visão se dispersa pela minha expressão, roupa, cenário, e, às vezes, falsas companhias. Falsas porque, na verdade, nenhum de nós está ali; o corpo está, mas não a consciência. Na internet é o oposto, a mente é que está lá, não o corpo. Aí, para o telespectador, só resta a imaginação, vendo as fotos falsas ou palavras de alguém que não está ali. Às vezes, esse alguém nem existe.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Comentando sobre a palavra de Jaques, da peça "Como gostais", de Shakespeare

A primeira vez que li este texto foi em formato de poema, de tão encantado, fui atrás e descobri que ele era uma das falas de um personagem de uma das peças de Shakespeare. A peça é a comédia romântica Como Gostais (As you like it), e o personagem que a profere é um cavaleiro chamado Jaques. A versão que vos trago é a da L&PM POCKET, 2013, traduzida por Beatriz Viégas-Faria. Eis o monólogo:

“O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores. Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa muitos papéis, suas sete idades em sete atos. Primeiro, na infância, é um bebê choramingando e vomitando no colo da ama. Depois é o menino em idade escolar, reclamão, sacola a tiracolo, carinha matinal reluzente, arrastando-se feito lesma, contrariado de ir para a escola. E então é o apaixonado, suspirando forte como uma fornalha, com uma cantiguinha triste, triste, feita em homenagem às sobrancelhas da amada. Depois é um soldado, cheio de extraordinários juramentos, grandes melenas, barba farta, como um leão, zeloso pela sua honra, pronto para executar ordens, rápido no combate, sempre buscando a fama, linda e vazia, mesmo que na boca do canhão. E então é o juiz, barrigudo, estômago forrado de um bom franguinho capão, olhar severo, cabelo e barba bem aparados, cheio de máximas de grande sapiência e exemplos banais, e assim ele encena o seu papel. A sexta idade troca de figurino; agora é Pantalão, magro e de chinelas, óculos no nariz, bolsa de dinheiro ao seu lado, os calções da mocidade bem guardados, o mundo vasto demais para as suas pernas débeis, sua voz potente e viril voltando a ser aguda e infantil, um som cheio de assobios e sopros e chiados. Na última cena, que dita o fim desta admirável história cheia de acontecimentos, temos a volta à infância e o esquecimento, agora já sem paladar, sem dentes, sem enxergar, sem nada.” (Jaques, ato II, cena VII – p. 62)

Este trecho vai além da vida dos atores, pois fala de nós. É a descrição do ciclo humano, a começar pelo simbolismo do número sete, que indica um ciclo: sete cores do arco-íris, sete dias da semana, sete pecados mortais, etc.

É interessante a colocação de que todos nós somos atores, pois, sendo assim, todas as nossas ações já estavam preditas por um roteiro criado por alguém (para alguns, Deus; para outros, a sociedade) — é o determinismo que já surge aqui, no Classicismo, muito antes de ser usado e abusado pelos realistas e naturalistas. Com isto, também somos chamados de falsos ou alienados, pois tudo o que fazemos, não fazemos por vontade, mas por necessidade de cumprir nosso dever, nosso papel; não agimos: fingimos, atuamos (sem saber).

Todos entram e saem de cena, a cena é a vida; cada pessoa representando muitos papéis em seus sete (o simbolismo citado) atos, suas sete idades, que são as fases da vida. Este texto foi escrito em 1599, mas é atemporal, pois é aplicável à época atual. Nesta chamada Pós-Modernidade, onde tudo é líquido (para usar o termo de Zygmunt Bauman), tudo acontece de maneira muito rápida, as relações são frágeis, podemos estar e estamos em muitos lugares, fazendo as mais diversas ações, isto é, como Shakespeare coloca (e que depois Fernando Pessoa faria ao se multiplicar em vários heterônimos): representamos muitos papéis em pouco tempo.

Então Jaques começa a descrever as sete idades, as sete fases, os sete atos da vida humana: primeiro a infância, a criança chorando e vomitando no colo dos outros (para quem não tem ou teve ama, foi na mãe mesmo). Há um pessimismo neste texto, primeiro ao dizer que somos atores, ou seja, não somos livres para agirmos como quisermos; segundo, a infância é dando problema aos outros, ao mesmo tempo em que chorar e vomitar é problema para si mesmo também.

Depois é a idade escolar, caminhando devagar para ir à escola, e, ainda sim, reclamando. Notemos a infelicidade das crianças, até hoje é assim: elas não vão com gosto à escola, vão porque são obrigadas (são os papéis sociais a serem cumpridos). Mesmo sem ter a consciência de que a liberdade está sendo perdida, a criança demonstra que se sente presa; ela não sabe o motivo de ter de ir estudar, só sabe a ordem: é preciso estudar. Além disso, devemos ver como uma crítica à Educação, pois quando é que faremos instituições competentes e que façam os alunos se sentirem bem e com vontade de ir além, de aprender sempre mais e de serem mais (na linguagem de Paulo Freire)?

Iniciando a rebeldia ao ir para a escola, a próxima fase é a adolescência. Sabemos que é a que há mais conflitos e mais desejo de liberdade, no entanto, é a fase em que se começam as paixões mais fortes — tanto “paixões” no sentido de “sentimento amoroso” quanto de “sofrimento”.

É preciso lembrar que durante as paixões é que a imaginação vai mais longe, e Shakespeare, através de Jaques, satiriza muito bem isso. Ao dizer que nessa época os apaixonados fazem cantiguinhas tristes (podemos pensar nas serenatas ou poemas românticos) sobre as sobrancelhas da amada, já mostra a ironia dos quão bobos os adolescentes são. Porém, a imaginação é um ponto de fuga da realidade — lembremos, a maior parte deste texto é pessimista. Se há vontade ou necessidade de fuga, é porque onde se está, não está bem.

Após essa fase vem o início da vida adulta, onde se busca a carreira. No caso é citada a vida do soldado (porque, na época, é quando os homens se alistavam; na verdade, até hoje é assim, mas a maioria é dispensada). É interessante que aqui é quando o ser humano começa a zelar pela moral, isto é, além do seu papel, ele se aprisiona a mais visões e opiniões de outrem.

Cheios de juramentos, grandes melenas (mecha de cabelos compridos) e barba — percebamos a preocupação com a aparência; tudo isso são amarras, são ideais de beleza que são postos para serem seguidos. Na época, o visual do soldado era este; hoje é o cabelo curto, sem barba, sem nada: mas ainda há um modelo que deve ser seguido.

Jaques sabe que tudo isso é em vão, por isso diz que os soldados (que podemos ver como qualquer adulto em qualquer profissão que dê para “subir de cargo”) estão sempre aptos a seguir ordens, sempre buscando a fama linda e vazia, mesmo que morra por isso (“mesmo na boca do canhão”). É um niilismo e pessimismo de Shakespeare, que não vê sentido (considera vazia) a busca por essas questões (honra, fama, aparência), pois ao final elas não valem nada, são meras interpretações.

A quinta idade/ato/fase da vida é aquela em que o ser humano já está estabilizado, já conquistou o que gostaria de ter conquistado e é considerado por muitos como um exemplo a ser seguido (ele mesmo se considera assim, às vezes). Por isso Jaques o chama de “juiz”, pois nessa idade é quando ele começa a julgar os outros, quem está começando a carreira, o que é certo ou errado, bom ou ruim, etc. Mas agora, depois de velho, a preocupação com a aparência muda; não tem mais o cabelo grande nem barba cheia, mas curtos. Considera-se mais experiente, mais inteligente, mais sábio (sabemos que na maioria das vezes nem o é). Na verdade, agora ele é mais moralista.

Depois disso começa o declínio do ser humano, Pantalão (bobo), magro e de chinelas, óculos e bolsa de dinheiro ao lado, é a fase da velhice. Como é dito, o mundo é grande demais para as suas pernas fracas, a voz volta a ser aguda como a das crianças, cheia de assobios, sopros e chiados, isto é, quase não se fala, sai mais ar do que voz.

É interessante a comparação do velhinho, que quase não fala mais, com a infância (“sua voz potente e viril voltando a ser aguda e infantil”), porque a palavra “infância”, etimologicamente, já significa “aquele que não fala; aquele que é incapaz de falar”. Maria Rosa da Costa (2000), em sua dissertação de pós-graduação, nos traz o significado original da palavra:

Da partícula negativa latina in, ‘não’, usada como prefixo, e do latim fans, fantis, particípio presente de fari, ‘falar, ter a faculdade da fala’, forma-se o adjetivo latino infans, infantis, ‘que não fala, que tem pouca idade, que é ainda criança’. O adjetivo infantilis, ‘que diz respeito à crianças, infantil’, e o substantivo infantia, ‘incapacidade de falar, dificuldade em se exprimir, meninice, infância’, são derivados latinos de infans, infantis. (DICIONÁRIO ESCOLAR LATINO-PORTUGUÊS, 1956, apud COSTA, 2000, p. 23).

O idoso, além de ficar bobo como as crianças, também necessita de cuidados, pois seu corpo é tão frágil quanto os de seres em formação, pois já está em desconstrução. Daí a comparação.

Por fim, a última cena do ator, do ser humano, é aquela em que ele volta à infância e ao esquecimento, isto é, volta ao início, quando ele era nada/ninguém. Este trecho nos lembra uma passagem do livro O ano da morte de Ricardo Reis (1988), do escritor Saramago, quando o personagem Fernando Pessoa diz a Ricardo Reis que depois que morremos não desaparecemos por completo: “(...) acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver, mas todos os dias pensam em nós, depois de morrermos deixam de poder ver-nos e todos os dias vão nos esquecendo um pouco (...)” (p. 80).

Mesmo sem paladar, sem dentes, sem enxergar, sem nada, ainda estamos atuando, ainda estamos vivendo o último ato, ainda fazemos parte da peça e do cenário. Como? Nas falas do outro, quando citam algo que falamos ou falávamos, quando mencionam histórias em que estivemos, quando mostram fotografias, quando se utilizam de algo que criamos. Esta última parte é a única otimista.

As pessoas passam a vida toda atuando, uma após a outra, sem saber o que estão fazendo; Shakespeare/Jaques notou o ciclo de atuações, ele foi mais do que espectador, foi crítico e teórico. Ele criou essa peça que sobrevive até hoje, nos ajudando a sermos mais do que atores, mas espectadores, críticos e analistas também. Não importa quem fez o roteiro, o importante é a chance de atuar; somente tendo a chance de subir ao palco, de estar na vida, é que podemos improvisar e recusar o que nos é dado. Shakespeare ainda está aqui entre nós, pois a sétima idade/sétimo ato/sétima fase nunca termina. Como ele, além de ator, também sejamos criadores de nossos próprios papéis.

Referências

COSTA, Maria Rosa da. Eu também quero falar: Um estudo sobre infância, violência e educação. Rio Grande do Sul, 2000. Dissertação (Pós-graduação em Educação) – Universidade Federal Do Rio Grande do Sul, 2000. Disponível em:

SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

SHAKESPEARE, William. Como gostais. São Paulo: L&PM POCKET, 2013.