quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Relações e interpretações

A promessa de um fiel pode até parecer bem intencionada, porém, no fundo, é uma espécie de chantagem: se me deres A, dar-te-ei B, mas Tu deverás ser o primeiro a cumprir o trato.
Na verdade, isso revela uma má leitura dos textos sagrados e do mundo, porque o bom leitor e verdadeiro fiel sabe que Deus não precisa disso. Tanto é assim, que Ele nem responde.
Além da distância entre os dois (daí a dificuldade de um ouvir o outro), ambos falam línguas diferentes. Um fala e vive na imaterialidade, nos sentimentos, na subjetividade; já o pedinte, no materialismo, na objetividade.
Os tempos são outros, então, não espere uma troca: ou dê, ou peça. Outro conselho: conte a e conte com quem está próximo. É mais fácil. Faça-se próximo também. E não use o pronome Tu ou a mesóclise, por favor, porque isso é uma coisa mais antiga do que Deus. Nem Ele entende. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Uma questão de alteridade

Imagine uma sociedade onde todos os humanos, homens e mulheres, fazem as suas necessidades na rua, nos postes ou nas rodas dos carros. Consegue?
Pois, então, saiba que todos estão nus e que quase não tomam banho, mas nem por isso cheiram tão mal (exceto quando brincam de se deitar sobre algum corpo morto); que as mulheres, quando querem reproduzir ou sentem necessidade de copular, saem (nuas) às ruas e são abusadas por qualquer homem (isso não é muito difícil de imaginar, já que, em nosso mundo, os homens assediam frequentemente as mulheres contra a vontade delas). Aliás, os machos não diferenciam as suas mães de outras fêmeas. E fazem tudo ali, na rua, na frente dos invejosos.
Pense na cena: os carros e as motos passam pelos cidadãos e estes correm atrás dos veículos, gritando e xingando, mesmo que não possam fazer nada contra as máquinas.
Agora, o mais engraçado e espantoso: imagine que você está passeando por um lugar qualquer e, de repente, vários homens e mulheres saem das suas casas e vão até os portões, simplesmente para lançarem ofensas e ameaças contra a sua pessoa. Ou, então, pior ainda: você está andando e repentinamente sente uma presença nas suas costas... É outro humano cheirando os seus órgãos genitais (por trás)... Ou você sente vontade de fazer isso nos outros...
Pois é... É nisto o que eu penso, às vezes, quando caminho com o Rambinho, Diógenes. 

Dia dos pais

Sou neto, filho e bisneto, mas mesmo sem ter tido nenhuma namorada ainda, também sou pai. Como? É que sou pai de mim mesmo: eu crio-me. Todos os dias, alimento e brinco com a minha criança interna (e eterna, pois ela não cresce nunca). Às vezes, faz cara feia; às vezes, sorri; às vezes, sou eu quem fico triste e é ela quem me anima, lembrando-me das experiências boas que vivenciamos juntos.  Ah, este menino...
Hoje, ele (que se chama Carlinhos) me disse para ter esperança (dos dois tipos), que logo eu acharei uma mamãe para ele e, quem sabe, um dia, possamos lhe dar um irmãozinho...
Coloquei-o para dormir, porque este sonho é muito bom e bonito e vale a pena ser sonhado por nós dois. Às vezes, esse menino é como um pai para mim...


13/08/2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Comentando sobre o anime Boku Dake ga Inai Machi (Erased)



Introdução

Boku Dake ga Inai Machi (“A cidade onde só eu não existo”) é um mangá de Kei Sanbe, publicado de 2012 a 2016. Em 2016, a obra teve uma adaptação para anime, de apenas 12 episódios, que também é conhecida como Erased. O estúdio responsável pela série foi o A-1 Pictures, que já produziu animes famosos como Fairy Tail (2009) e Sword Art Online (2012). A abertura ficou por conta da excelente banda Asian Kung-Fu Generation, conhecida por ter suas músicas exibidas em Full Metal Alchemist (2003), Naruto (2002) e Bleach (2004).

Erased traz a história de Satoru Fujinuma, um rapaz de 29 anos, que sonha em ser mangaká, porém, sempre tem os seus trabalhos recusados, por conta de ele não conseguir se aprofundar na vida de seus personagens. Na verdade, isto é reflexo da sua própria personalidade: afastado, sem amigos. São as primeiras palavras de Satoru: “Estou com medo. Eu tenho medo de entrar no meu próprio coração”. Assim, enquanto tenta se tornar mangaká, trabalha como entregador de pizza.

É interessante esta antítese, porque embora as palavras do protagonista sejam profundas, os contratantes de novos desenhistas o tratam como superficial. Duas possibilidades: ou ele é um personagem complexo e contraditório, ou ele é falso. Depois, no decorrer da série, vemo-lo ser tratado como a segunda hipótese.

Satoru Fujinuma possui um poder que ele chama de “Revival” (renovação, renascimento, restauração, em português), que é o de, repentinamente, voltar ao passado, cerca de 5 minutos, sempre que alguma tragédia acontece. Enquanto ele não a evitar, a situação se repetirá. Isso o transforma num herói anônimo.

É exatamente por este motivo que o personagem se culpa pelas ações que ele não fez quando teve a chance, pois quando era criança (antes de ter esse poder — que ele não controla), três de suas amigas foram sequestradas, não se sabe exatamente por quem, embora tenham achado um “culpado” pelos casos.

Um dia, de repente, quando Satoru está com a sua mãe, ele tem um revival, mas quem evita a tragédia é ela, a mãe. Seria um sequestro de uma menina. Porém, o sequestrador percebe quem o avistou, segue-a e mata-a com facadas, pois ela sabia demais. Satoru chega em casa e vê a mãe morta, no entanto, a polícia o acusa do feito, o que o faz fugir do local e ter outro revival, entretanto, agora ele volta 18 anos atrás, quando era criança, bem na época onde suas três amigas sumiriam, em 1988. Assim, como um herói, Satoru tentará evitar os sequestros, fazer amigos e mudar o seu futuro, para evitar todas essas mortes.

(Se você só quer saber a sinopse, pare de ler aqui, pois, a partir de agora, alguns momentos do anime serão citados e algumas comparações serão feitas.)



Comentários

Neste passado, temos a personagem Kayo Hinazuki, uma menina triste e solitária. Ela seria a primeira sequestrada. Seu afastamento e personalidade são justificados pelas agressões físicas de sua mãe, que, por sua vez, é agredida pelo namorado. É interessante como é formada essa cadeia de violência, de como um pouco de atenção e carinho dados às pessoas podem mudá-las. Satoru, no passado, não era tão próximo à Kayo, mas agora ele fez diferente, mudando a forma de ela ser também.

Sobre este assunto, é lindo quando o protagonista dá a mão para a sua amiga, por estarem ambos sem luvas, no frio, na neve. E, depois, quando um presenteia o outro com luvas, isto é, quando um proporciona acolhimento, conforto e calor ao outro. Bonita metáfora (que será repetida).

Outra metáfora que aparece no mesmo episódio é a aparição de uma borboleta. Ela surge em alguns episódios, tanto no passado quanto no futuro, e pode indicar três situações: um ciclo (a borboleta passa por várias transformações até chegar à sua forma final), assim como algumas frases da Kayo que se repetem no futuro, mas ditas pela personagem Airi Katagiri; a liberdade (por conta das asas), como os sentimentos de Satoru sendo expressos, diferente de seu eu do futuro, que não conseguia expor o que queria; e, por fim, o “efeito borboleta”, relacionado às pequenas mudanças que o protagonista está causando no passado, mas que mudarão todo o futuro.

(Uma das vezes em que a borboleta aparece)

É importante ressaltar que o título (traduzido), “A cidade onde só eu não existo”, é inicialmente feito por Kayo, num texto. A criança isolada quer se isolar mais ainda, sua utopia é um local onde só ela exista, para fazer o que quiser, para ser, enfim, livre; ao mesmo tempo, o local de onde ela veio não a possuiria, obviamente. E, novamente: a obra é um reflexo do seu autor (tal como o mangá superficial de Satoru), no caso de Kayo, um pedido de socorro. O título, depois, se liga a outras ocasiões...

Um fato bem trabalhado e curioso é a mudança de cenário entre o passado e o futuro. Enquanto no último há celulares, muitas pessoas na rua e no metrô, em 1988, as conversas das crianças são sobre os clássicos jogos de videogame Final Fantasy e Dragon Quest.

Outras referências que ocorrem ao longo do anime são as citações de livros. Kenya Kobayashi é um dos melhores amigos de Satoru, é o inteligente da turma, que está sempre lendo algo. Ele chega a citar “O homem trocado”, de Edgar Allan Poe, mas depois confessa que o livro não existe (já o autor, todos sabem, é um clássico da Literatura mundial). Porém, este título faz alusão ao próprio Satoru, que, segundo Kenya, parecia ser outra pessoa, um homem trocado. Claro, a mente do Satoru de 29 anos está agora na criança de 11. Durante a série, Kobayashi ainda menciona Romeu e Julieta, enquanto Aya Nakanishi, que seria uma das vítimas do serial-killer, aparece lendo Rei Lear, duas obras de Shakespeare.

(É interessante pensar que no Rei Lear, o rei fica louco, assim como o sequestrador e assassino de Erased. Outra ligação é o fato de o rei ter três filhas, enquanto o sequestrador inicia seus atos com três vítimas, além de ele ser considerado, pela profissão, um segundo pai para as crianças...)

E a história caminha com Satoru e os amigos tentando evitar os desaparecimentos das amigas, embora só o protagonista saiba do que acontecerá. Ao mesmo tempo, o Satoru do futuro tenta evitar ser preso. Nessas idas e vindas de consciência, causadas pelo revival, ele descobre que quem matou a sua mãe é o responsável pelos crimes ocorridos no passado. É nisto que entra um problema do anime.

É que até o episódio 7, Satoru não controlava o seu poder. O revival acontecia de repente. Porém, quando ele descobriu, no futuro, quem matou a sua mãe, lembrou-se de sua infância, aí soube o que precisaria fazer para evitar a morte de sua amiga Kayo. Nisto, por desejar voltar ao passado, voltou. Simplesmente assim.

Outro problema do anime é que esse poder não é explicado, não se sabe como ele o ganhou, nem o porquê de só ele o ter. No final, é dito que nunca mais o revival aconteceu. É um aparecimento e desaparecimento repentino, diferente do que acontece no anime Steins; Gate (2010), onde causas e consequências são explicadas.

Pode-se citar o Steins; Gate por quatro motivos: em primeiro lugar, porque também é um anime de viagem no tempo. Em segundo lugar, porque tanto nele quanto em Boku Dake ga Inai Machi há uma personagem de aparência feminina, mas que, na verdade, é um homem. No caso do Steins; Gate, é o caso de Ruka Urushibara; no de Erased, é o de Hiromi Sugita. E em terceiro lugar, ambos os animes possuem personagens que dizem que por o futuro ser desconhecido, todos somos potências, que nada é impossível. Aliás, a frase “Impossible is nothing” está escrita num dos cenários de Boku Dake ga Inai Machi. Em quarto lugar, a borboleta, já mencionada em Erased também aparece em Steins; Gate (somente na abertura), por conta do efeito borboleta. As duas são azuis.

(Borboleta que aparece na abertura de Steins; Gate)

(Hiromi Sugita, de Erased)

(Ruka Urushibara, de Steins; Gate)

Outra semelhança possível (de longe, vagamente) é a de Erased com Detective Conan (1996), pois, neste último, também há um homem adulto que volta à sua forma criança, mas não por causa de um conflito no tempo ou por algum poder, mas “graças” a uma droga que o fizeram tomar, com o intuito de matá-lo, o que não acontece. Assim, Shinichi Kudo (o personagem principal) segue a história tentando descobrir quem tentou matá-lo. Em Erased também há esse clima de investigação de crianças.

(Satoru, de Erased)

(Shinichi Kudo, de Detective Conan)

Um fato curioso da obra é a metalinguagem, que ocorre por ter um personagem de anime envolvido na criação de um anime/mangá, além de em uma das cenas haver um muro escrito “Re: Re”, que é o título da música de abertura da animação.

("Impossible is nothing", ou "Nada é impossível", em tradução livre, frase escrita num muro de Erased)

("Re: Re", título da música de abertura do anime, criada pela banda Asian Kung-Fu Generation, escrito no mesmo muro de Erased)

Em suma, Boku dake ga Inai Machi é um ótimo anime, com uma produção muito bem feita, uma trama elaborada, uma excelente e cativante soundtrack, temas que induzem à reflexão, como o abuso físico e mental de crianças, a necessidade de dar atenção às pessoas ao nosso redor, a ligação entre o nosso passado, presente e futuro, a dualidade (e perigos) de personalidades de algumas pessoas próximas, além de o anime mostrar a vagarosidade de algumas instituições — como o conselho tutelar — em tomarem uma ação quanto aos possíveis problemas dos alunos, ou a falibilidade de outras corporações, como a polícia, por exemplo. A obra possui os seus pequenos deslizes, como já foram mencionados antes (outro deles é o grau dos diálogos, muito profundo e existencialista para crianças de 11 anos, o que os tornam inverossímeis), mas que são superados pelos outros fatores da animação.

É difícil comentar sobre o anime sem dar spoilers, por ele possuir apenas 12 episódios, mas é exatamente por ser curto, que é recomendável a qualquer um, não apenas a fãs de desenhos japoneses, mas para qualquer pessoa que admire uma boa história.


























Relato pessoal

Num dos episódios, o falso roubo, tramado pela aluna rica da sala, para culpar a pessoa mais pobre, a Kayo, me lembrou uma vivência que tive.

Quando estava no primeiro ano do ensino médio, em 2009, uma vez, um colega pediu emprestado o celular de um amigo, que o emprestou. Porém, sem cuidado, depois de um tempo, o colega o largou de canto, em cima de uma mesa. Eu, ao ver o celular, devolvi ao dono.

Momentos depois, quando o colega percebeu que não sabia mais onde estava o aparelho, foi perguntar ao dono se ele sabia onde estava. Meu amigo negou, para fazer um medo e ver se o colega teria mais responsabilidade numa próxima vez. No entanto, ao se desesperar, pensando que havia perdido o celular, esse colega imaginou que alguém poderia ter roubado o aparelho. Assim, sem nem perguntar se alguém havia visto o objeto, ele foi diretamente à bolsa de um dos meninos mais pobres da sala, negro, acusando-o de ter roubado o celular...

Há vários outros momentos que poderiam ser comentados, principalmente sobre o final, mas seriam spoilers. Novamente, como na análise do Kino no Tabi, sinto-me como se não houvesse dito nada...

OBS.: Os anos que marquei são dos animes, não dos mangás.






quarta-feira, 28 de junho de 2017

Análise comparativa entre o filme Valente (Brave, 2012) e a Literatura Infantil

O filme americano Valente (Brave, no original), de 2012, da produtora Pixar, traça uma interessante relação com a Literatura Infantil, tanto com a contemporânea quanto com a antiga, a tradicional, criando, assim, um jogo de aproximações e afastamentos entre certos parâmetros. Para perceber esses padrões, será usado o livro Literatura Infantil: teoria, análise, didática (2000), da escritora Nelly Novaes Coelho.

O filme conta a história de Merida, uma princesa escocesa. A menina, segundo a tradição, deve se casar com algum príncipe dos reinos vizinhos e aliados. No entanto, não é isso o que ela quer — até porque ainda é uma criança... Na verdade, tudo o que a princesa gosta vai contra aos costumes e aos ensinamentos de sua mãe (ensinamentos destinados para toda mulher da época, principalmente às damas). São estes fatores que ocasionam os conflitos entre a filha e a mãe, que podem colocar todo o reino em desgraça.

A película já inicia com uma frase emblemática:

Dizem que o nosso destino está ligado à nossa terra, que ela é parte de nós, assim como nós somos dela. Outros dizem que o destino é costurado como um tecido, onde a sina de um se interliga à de muitos outros. É a única coisa que buscamos ou que lutamos para mudar. Alguns nunca encontram o destino, mas outros são levados a ele. (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 4”28’ – 5”05’)

Percebe-se, então, que há um determinismo no filme, uma tradição a ser seguida ou a ser quebrada; um questionamento entre obedecer ou questionar, que é um dos conflitos entre a Literatura Infantil tradicional e a contemporânea.

Olhando para os personagens, nota-se que Merida é muito parecida com o seu pai (um bravo guerreiro), tanto na aparência quanto nos gostos, que ele influencia desde criança, quando, por exemplo, lhe dá um arco como presente de aniversário — algo inaceitável para a mãe, que diz que damas não devem usar esse tipo de objeto. Ainda sobre o visual da personagem, o cabelo da princesa é ruivo e encaracolado, que ela o usa de forma solta.



É importante ressaltar essas características, porque elas estão ligadas à personalidade da protagonista: solta, livre, guerreira (como o pai). Diferente dela, sua mãe, Elinor, usa o cabelo preso, porque é uma pessoa presa às regras e às tradições da época. Tanto o é, que, no final, quando os conflitos são resolvidos, a mãe anda de cavalo junto da filha (algo que a rainha considerava errado para uma dama) e usa o cabelo solto, o que mostra que ela também se libertou.



(Uma das cenas finais)

Como se vê, Elinor representa a ordem, a obediência que deve haver e que sempre houve na tradicional “literatura para crianças, o domínio quase absoluto da exemplaridade; da rigidez de limites entre certo/errado, bom/mau; etc.” (COELHO, 2000, p. 20). Por outro lado, como já havia sido afirmado, o filme rompe com alguns paradigmas, criando algo inusitado. No caso, a mãe é quem manda na família, ao invés do pai, do esposo — que sempre foi o ente “responsável” para essa situação (ao menos no contexto do filme). Ainda assim, a mulher continua a ser idealizada em Valente. Segundo, Nelly Novaes Coelho (2000):

(...) essa superioridade do homem, patente no plano da vida prática, corresponde à idealização da mulher, no plano dos valores ideais conforme se vê na literatura, num prolongamento evidente da valorização da mulher, iniciada na Idade Média (...) Na literatura para crianças, todas essas características aparecem de maneira evidente, quase caricata, reforçando os limites entre o que é próprio da mulher e do homem. (p. 21)

 No filme, isto é reforçado com uma moral dogmática e uma reverência pelo passado, não somente pela rainha, mas pelos reis aliados também, que, na “data certa”, levaram seus filhos como pretendentes para cumprirem o seu destino e dar continuidade à família. Para “conquistarem” a moça, como os antepassados sempre fizeram, todos competem em jogos. Não há sentimentos envolvidos, apenas rituais.

Ainda sobre a reverência ao passado, é interessante notar como a mãe conta uma história à filha, uma lenda que, segundo ela, realmente aconteceu. Essa narrativa traz um rei que dividiu a sua terra para seus quatro filhos, mas o mais velho era mais ganancioso e desrespeitou o pai, tomando tudo para ele. Contudo, o reino se desfez em ruínas, caos e guerras. São as “verdades” passadas de geração em geração. Mais do que isso, a rainha utiliza de todo um jogo de persuasão sobre a menina, para fazê-la aceitar a ordem “natural” dos fatos e culpá-la, implicitamente, se caso acontecer algo ruim ao reino e à paz atual. Observe este diálogo:

Merida — É uma bela história!
Elinor — Não é só uma história, Merida. Lendas são lições, elas carregam a verdade.
Merida — Ah, mãe!
Elinor — Eu aconselharia você a aceitar isso. (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 13”38’ – 13”50’)


(Os quatro antigos príncipes irmãos: três bons e um ruim, três sob a luz e um sob as sombras, os três de cabeça baixa, em respeito ao pai, e um de rosto erguido, em sinal de orgulho. Outra “coincidência” é que Merida é a mais velha dos quatro filhos do atual reino.)

Novamente, há outra contradição vinda da própria mãe autoritária, que, na história, para fazer a filha se casar, contou a lenda de um reino se desfez porque um filho agiu sozinho ao invés de agir em conjunto com os outros três irmãos. O espírito solidário é um conceito da Literatura Infantil contemporânea, não da tradicional.

No plano visual, quando a rainha prepara a filha para conhecer os pretendentes, a roupa que a princesa usa, tão apertada — a ponto de ela quase não conseguir se mover e respirar —, reflete como ela se sente interiormente. Além disso, diferentemente da mãe, a menina só fica com o rosto e as mãos para fora. Irreconhecível (para a mãe: linda, perfeita), isto é, sem identidade alguma.
 



No entanto, não há jeito, a menina não quer se casar e humilha a todos os pretendentes no jogo que ela mesma propôs: arco e flecha.

 (É interessante pensar que a flecha, quando atirada, possui um destino certo, o que lembra a passagem narrada no início do filme.)

Com isso, a princesa recebe uma bronca da mãe, que diz que os meninos foram envergonhados (algo inaceitável na Literatura infantil tradicional) e que ela é a rainha, que a filha deve ouvi-la:

Elinor — Agora foi demais, você passou dos limites, mocinha!
Merida — Mas foi você que quis...
Elinor — Você os envergonhou! Você envergonhou a mim!
Merida — Eu obedeci às regras.
Elinor — Você não sabe o que fez!
(...)
Merida — Me escuta!
Elinor — Eu sou a rainha! Você ouve a mim!
Merida — Ah, isso é muito injusto!
Elinor — Como é?
Merida — Você não se importa comigo! Essa história de casamento é o que você quer! Você já pensou em perguntar o que eu quero? Não! Você sai por aí me dizendo o que fazer, o que não fazer, tentando me fazer ser como você! Mas eu não vou ser como você!
Elinor — Ah, está agindo como uma criança...
Merida — E você é um... monstro! Isso é o que você é!
(ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 27”03’ – 28”04’)


Dois elementos importantes neste trecho: como a mãe utiliza não da sua posição familiar, como mãe, mas da sua posição social, como rainha, para fazer a filha ficar quieta. E, segundo, o tratamento da menina como um adulto em miniatura, conceito da Literatura Infantil tradicional. Ao mesmo tempo, há o questionamento da autoridade por parte de Merida, o “Repúdio ao autoritarismo. Consciência da relatividade dos valores e ideais criados pelos homens (...)” (COELHO, 2000, p. 25), característica da Literatura Infantil contemporânea.

Após essa discussão, a princesa, momentaneamente, numa ira súbita, rompe com sua mãe. Aqui, a linguagem não-verbal também é importante, porque assim como ela corta sua obediência à rainha, também corta um tecido que representa a ligação da família. Não num ponto qualquer, mas exatamente entre as duas:
  


Em seguida, a menina foge e se encontra com uma bruxa na floresta. Não é a primeira vez que elementos mágicos aparecem no filme, pois, no início, já havia aparecido luzes mágicas — que o pai não acredita existirem, o que mostra que a praticidade (o rei era apenas um guerreiro) faz perder certo encanto que há em alguns aspectos da vida.

Do contato com a bruxa, Merida consegue um encanto que mudará a sua mãe, porém, o que ela não sabia, é que Elinor se transformaria num urso (assim como o antigo príncipe mal — aquele da lenda — recorreu à bruxa para ter a força de dez homens, transformando-se num urso — o mesmo urso que atacou a família de Merida, no início do filme). O interessante é que no início da película, quando a princesa ainda é uma criança, vê-se a rainha procurando-a, as duas brincando de esconde-esconde, e ao achar a filha, a mãe, que estava dizendo “eu vou te pegar” (e não “eu vou te achar”), finge que é um urso e que estava devorando a criança. É como se fosse o destino transformando a brincadeira em realidade (tal como o fantástico tornou-se real)...

Assim, Merida e a mãe têm pouco tempo para desfazerem o feitiço (dois dias, exatamente). Nesse meio termo, Elinor aprende que estava errada, que, às vezes, é preciso seguir os instintos (tal como um animal...) ao invés de querer raciocinar tudo. Não é muito diferente do que Nelly Novaes Coelho (2000) ensina sobre a intuição, elemento da Literatura Infantil contemporânea: “A intuição, pondo em xeque a lógica convencional ou o senso comum, abre campo para um novo conhecimento. Daí o atual renascimento da fantasia, do imaginário, da magia, do ocultismo...” (p. 26).

É transformada em urso que a rainha perde tais aspectos que ela possuía enquanto humana, como a etiqueta na hora de comer, por exemplo, ou a hora que, simbolicamente, ela deixa a coroa esquecida sobre uma pedra e vai caçar (algo que ela não permitia que a filha fizesse). É outro valor da nova literatura infantil, a valorização do ser ao invés do ter.

Quanto à coerência do filme, não se pode deixar passar batido o significado do “enigma” para desfazer o feitiço com o ato antes praticado pela princesa, além da frase emblemática citada no início do filme. As falas da bruxa para desfazer a transformação da mãe: “Sina alterada, olhe sua alma. Remende a união por orgulho separado.” (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 49”54’ – 50”02’). A ordem é para costurar novamente a tapeçaria em que a filha cortou, simbolicamente, a ligação entre ela e a mãe, no dia da grande discussão. Agora, parte da frase do início do filme: “Outros dizem que o destino é costurado como um tecido, onde a sina de um se interliga à de muitos outros (...)” (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 4”38’ – 4”47’). (Além disso, não se pode esquecer que a tábua que mostrava os quatro filhos do antigo rei também estava quebrada, separando o irmão ganancioso dos outros.)
  


Por fim, mas não antes de resolver o feitiço, Merida ensina a todos os pais dos pretendentes que a questão não é sobre disputa, mas sobre colaboração; que todos são e foram importantes para manter a paz que há no reino até hoje, não há um único herói, mas todos o são. O passado não deve ser idealizado e seguido, mas redescoberto, que a vida é uma mudança contínua. E, principalmente, que cada um é responsável pelos seus atos, não mera peça jogada pela mão do destino. A princesa é a representação das crenças da nova Literatura-Infantil.

A intertextualidade do filme com os contos de fada

Além de todos esses fatores que sempre apareceram na Literatura Infantil tradicional e dos que aparecem na contemporânea, há algumas intertextualidades do filme com os contos de fada e com as histórias clássicas. Essa intertextualidade acontece, principalmente, no nível das figuras: princesa, rei, rainha, enfim, pessoas aristocráticas; obviamente, o contexto é o da Idade Média: castelo, reino etc.; os elementos mágicos e simbólicos: bruxa (não tão má assim), luzes mágicas, feitiços, vassoura mágica, corvo etc.; a bruxa faz bonecos de ursos de madeira, mas que, quando se fala em “boneco de madeira”, é possível lembrar do personagem Pinóquio; e embora a mãe, transformada em urso, e o antigo rei mal, também transformado em urso, não falem e ajam como animais, ainda assim, é possível lembrar das fábulas — e junto dessas, das lições de moral que o filme transmite.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

VALENTE. Direção: ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda. E.U.A: Pixar Animation Studios, 2012. 93”37’. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Embasamento teórico para a elaboração do livro "As primeiras palavras de uma criança" (2017)

“(...) A literatura, e em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.” (COELHO, 2000, p.15).


É com esta citação que inicio esta pequena defesa e justificativa da escrita e da leitura de textos e de livros infantis, que são (os textos e livros infantis) uma forma (riquíssima) de demonstração, compreensão e formação do mundo e do indivíduo ainda criança/adolescente.

Hoje, lê-se cada vez mais, por isso, deve haver boas referências no campo da literatura, não apenas vindas de autores clássicos e consagrados, mas de novos escritores também. Afinal, os tempos mudaram, logo, alguns conceitos e valores idem. Assim, as temáticas, as figuras e as abordagens sobre o mundo e a literatura infantil devem mudar. É isso o que As primeiras palavras de uma criança (2017) tenta propor.

As primeiras palavras de uma criança traz algumas memórias e vontades de um menino chamado Magno Júnior. De certa forma, pode-se dizer que é um texto metalinguístico, pois o narrador/personagem está escrevendo um livro — inclusive, ele mesmo (o Magno) diz que fará as imagens, mas que, no caso, quando lêssemos a história, elas já estariam feitas. A metalinguagem também aparece quando, em algumas figuras, há trechos que já foram escritos nas páginas anteriores (autorreferências).

Pois bem, o livro é construído sob a voz de uma criança — o que já é importante — contadora de histórias, que possui a liberdade de escrevê-las e o incentivo de seu pai à leitura desde cedo. Porém, o incentivo é a favor da leitura de enciclopédias, algo que não faz (nem deve fazer) parte da realidade de uma criança. Muitas vezes, a decepção com a leitura de um texto inadequado à mentalidade da pessoa pode fazê-la se afastar dos livros.

Foi o que quase houve com Magno Júnior, que afirma que aquele conteúdo (conhecimentos sobre Hitler e sobre as proteínas) não é/era importante, não devia ser iniciado em casa, durante essa idade, porém mais tarde, na escola (que é o que acontece). Essa afirmação demonstra a quebra da obediência absoluta, que é/era um dos valores tradicionais que “(...) transformou a ‘autoridade’ em ‘autoritarismo’” (COELHO, 2000, p. 20), como se houvesse alguém detentor do poder e do saber.

Pelo contrário, Magno Júnior traz algo da Literatura Infantil mais atual, que é o questionamento da autoridade e a consciência da relatividade dos valores e dos ideais (COELHO, 2000). Um dos momentos em que podemos notar tais conceitos é quando o personagem diz não acreditar que alguém seja autodidata, pois quem escreve o livro, de certa forma, está ensinando quem o lê. Embora boba, é uma opinião e uma reflexão.

Além deste, há as questões feitas à professora de Ciências e aos professores da catequese. Claro, o direcionamento das indagações foi errado, pois ele pergunta sobre religião para a professora de ciências e sobre ciência para os catequistas. Porém, esse ato demonstra a inquietação e a ingenuidade do personagem (que não compreende a Física, muito menos a Metafísica — afinal, ele só possui 11 anos).

Em outro trecho, Magno Júnior diz que acha que os professores não sabem tanto das coisas e que seus pais estão errados sobre os professores saberem sobre tudo. Percebamos esse “acha”, pois não é uma certeza, mas uma dúvida do personagem, um questionamento sobre o seu próprio pensamento.

É importante ressaltar a preocupação da criança com as representações (figuras, desenhos) daquilo que estava sendo dito. Ela mesma diz que fará as figuras depois, pois parece que assimilamos melhor o conteúdo quando há imagens representando-o. Este pensamento é exatamente — embora com outras palavras — o mesmo de Gregorin (2010): “O texto não verbal (visual) se desenvolve com cenografias e figuras de modo a um compor o outro, e os dois (visual e verbal) constroem um único texto, apropriado ao fazer interpretativo do enunciatário (p. 16).

No curto livro, percebe-se, também, a consciência de igualdade entre o gênero feminino e o masculino, “não mais estigmatizados pelo o que é certo ou errado para o homem e para a mulher” (COELHO, 2000, p. 25). Isso acontece quando Magno Júnior diz respeitar muito as meninas, pois possui algumas amigas que são mais amigas do que os meninos. No mesmo parágrafo, o personagem fala de rumores de que escrever é coisa de menina, um preconceito antigo, mas que, segundo ele, estão errados e todos deveriam escrever.

Aliás, levanto uma simples e rápida questão aqui: Se ao longo do tempo poucas mulheres tiveram o privilégio da escrita, sendo a maioria dos livros escritos por homens — até hoje! —, então, por que existiu a imagem de que “escrever é coisa de mulher”? Atualmente ainda há resquícios desse pensamento. Pensemos.

Além desses tópicos abordados, o livro incentiva as crianças a lerem e a escreverem. Magno Júnior, por exemplo, escreveu o texto por simples vontade. Outras crianças também podem fazê-lo, basta incentivá-las. A escrita, segundo Nelly Novaes Coelho (2000), é um “ato-fruto da leitura assimilada e/ou da criatividade estimulada pelos dados de uma determinada cultura.” (p. 18).

Por fim, As palavras de uma criança possui intertextualidades (em forma de citação) com alguns desenhos japoneses, como os personagens Gohan, Griffith, Roy (Mustang) e Hyoga, respectivamente dos animes Dragon Ball Z, Berserk, Full Metal Alchemist e Cavaleiros do Zodíaco, que fazem parte da realidade e do gosto do personagem principal. Também há a menção dos quadrinhos do Senninha, no início do livro.

Em suma, baseado nestes poucos conceitos adotados dos livros da Nelly Novaes Coelho e do José Nicolau Gregorin Filho, As palavras de uma criança foi escrito. Penso que o livro serve não apenas para a função pedagógica, mas pelo prazer estético também. Na verdade, primeiro escrevi o texto, depois notei os conceitos. Aliás, foi um prazer tê-lo feito.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

GREGORIN, José Nicolau Filho. Literatura infantil: múltiplas linguagens na formação de leitores. São Paulo: Melhoramentos, 2010.

SIQUEIRA, Carlos. As primeiras palavras de uma criança. São Paulo: Novas Vozes, 2017.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

As primeiras palavras de uma criança

Neste semestre, enquanto estudava a disciplina Literatura Infanto-Juvenil, foi pedido um trabalho que consistia na criação de uma história infantil, em formato de livro (simples), com ilustração e tudo mais. Abaixo, eis o meu trabalho escaneado [desculpe(m) pelas sombras remanescentes]. Como algumas páginas não foram pintadas, nem possuem uma espécie de borda, para diferenciar umas das outras, penso que é melhor clicar na primeira imagem e, em seguida, clicar ou apertar o direcional da direita, para ir para a próxima: