segunda-feira, 26 de junho de 2017

As primeiras palavras de uma criança

Neste semestre, enquanto estudava a disciplina Literatura Infanto-Juvenil, foi pedido um trabalho que consistia na criação de uma história infantil, em formato de livro (simples), com ilustração e tudo mais. Abaixo, eis o meu trabalho escaneado [desculpe(m) pelas sombras remanescentes]. Como algumas páginas não foram pintadas, nem possuem uma espécie de borda, para diferenciar umas das outras, penso que é melhor clicar na primeira imagem e, em seguida, clicar ou apertar o direcional da direita, para ir para a próxima:


























quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rua dos Dias, de Paulo Franco: um diálogo entre eus, nós e os outros

A rua dos dias (2017), novo livro do poeta Paulo Franco, é curto pela quantidade de páginas, mas intenso e extenso na qualidade e profundidade de seus poemas. O autor investiga e trabalha vários temas, mas o foco maior está na questão do tempo, do instante, do passado e do futuro, da subjetividade do eu (na maioria das vezes, fragmentado). Como são quase quarenta poemas, o presente texto discutirá apenas alguns deles — e não integralmente.

Vivemos na chamada Modernidade Líquida, ou Pós-Modernismo, uma época em que tudo acontece muito rapidamente e quase não temos tempo para a reflexão, para a lembrança, para a imaginação e para os sonhos, o que nos faz, de certa forma, morrer aos poucos, como Paulo Franco já havia retratado no poema Óbito, presente na sua antologia inacabada, A máscara no espelho (2012). Porém, o poeta, sensível, sempre na contramão da massa, rebusca o seu passado e reflete sobre quem foi, o que traz a dor, infelizmente, de saber quem ele também não foi. No primeiro poema da nova obra, As cigarras e os girassóis, é dito: “As imagens que vejo sobre o que vivi, / hoje, são pitorescas alegorias / sobre o que não fui ou vi.” (p. 14).

No mesmo texto, estrofes abaixo do trecho supracitado, percebe-se a profundidade e o lirismo do eu-lírico que, como é confessado, não foram notados pelas pessoas ao seu redor: “Na taipa da alma, um menino se escondia / alimentado pela luz de cada dia / que alicerçava a poesia / meio a prantos e encantos / que ninguém nunca percebeu.” (p. 14). É assim, com o tempo, que os seres vão mudando, “virando outra coisa, / pois que tudo o que havia já não há, (...) Agora o tempo é outro, / sou outro a cada lembrança, / a cada presente que se desfaz / para virar as lembranças dos outros.” (p. 15)... As memórias sempre continuam e continuarão, bem como o eu-lírico lembrou-se de sua infância ao ouvir o canto das cigarras, que o remeteu aos cantos de seus parentes que partiram...

Outro poema que fala de memórias é Catacrese. Para quem não sabe, catacrese é uma figura de linguagem que utiliza combinações de palavras já existentes para designar algo que não possui um nome exato para si, por exemplo: costa(s) da cadeira, céu da boca ou manga da camisa. O eu-lírico se utiliza de várias catacreses ao longo do texto: “pé do fogão”, “perna da mesa”, “braço do sofá”, “asa da xícara”, “cabeça do alho” e “bico do bule” (aliás, perceba a aliteração em [B], que cria um ritmo durante a leitura), para dizer que em cada lugar da casa há uma memória, há uma história.

Por fim, o eu-lírico indica que a própria palavra “saudade” é uma espécie de catacrese, pois ela é “como um sentimento / que de tão intenso / parece que ainda não tem nome” (p. 23). Dizem que o vocábulo “saudade”, no sentido que a língua portuguesa o emprega, não existe em nenhum outro idioma. Agora, é interessante esta importância, esse olhar diferenciado para os objetos, para as coisas, pois é o que Drummond já havia alertado em A flor e a náusea: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (2010, p. 36).

Por falar em Drummond, há um poeminho em que ele também fala da asa da xícara, mas sem usar catacrese, pois utiliza o termo “aparador”. Chama-se Cerâmica: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, / ela nos espia do aparador.” (idem, p. 288). Em Catacrese, Paulo Franco também fala sobre os pedaços da vida, perdidos pelos cantos da casa. Nele, os objetos não nos observam, mas em seu poema As coisas, presente em A máscara no espelho (2012), sim.

Ao lado das ações que podem/poderão ser feitas amanhã, A rua dos dias (2017) reflete muito sobre o que não foi realizado ontem, o que causa um sentimento de culpa e de desilusão no presente do eu-lírico. Em Culpas, ele confessa: “A esperança cambaleia no remorso / de cada sensação que não vingou” (p. 27), versos que coadunam com aqueles do primeiro poema, As cigarras e os girassóis, que foram citados no segundo parágrafo. São sentimentos que todos possuem em vários momentos, que o poeta capta e transforma em arte.

É sobre isso que o eu-lírico de Linguagens fala, sobre o medo “da linguagem do tempo / quase sempre à toa. / Fluídicos sentimentos, / lembranças, passado intemporal, / que como ave voa.” (p. 35) A propósito, perceba o jogo de linguagem utilizado neste curto trecho: que co(mo) (a)ve vo(a), duas pequenas aliterações seguidas, em [K] e [V]. É um poema em que o eu-lírico tenta se descobrir, se conhecer, se reconhecer e conhecer aos outros, nessa “escuridão que se instala” (p. 36) e que ninguém se entende, pois “os semelhantes / não exercem uma língua una” (p. 36)...

É interessante notar a coerência desta ideia do autor: o poeta “nunca sabe além do que pressente ou vê ou viu.” (p. 35), são apenas intuições nesta escuridão em que todos habitam. Outro poema que discute este tema é Semântica, também presente na antologia A Máscara no Espelho (2012), mas publicado primeiramente em Pétalas de Insônia (1999), onde também um poeta confessa que “Minha semântica / é medo, / é solidão. / Minha ilusão, espírito / e pouca coisa mais / além do que pressinto / desta escuridão.” (1999, p. 46)

Mais uma intertextualidade interessante que há em A rua dos dias (2017) está no poema O brinco. Uma das estrofes diz: “Sereno mato a minha dor / e estrangulo quem não sou / para saber de mim.” (p. 43), mas essa é a primeira estrofe do poema O bobo, presente na antologia A máscara no espelho (2012). Porém, os dois textos tratam de temas diferentes. Não se trata de falta de criatividade, mas de afirmação do mesmo pensamento, que pode ser aplicado em várias situações.

Ainda sobre intertextualidades, o novo livro de Paulo Franco traz vários metapoemas (poemas que falam sobre poema/poesia), um deles se chama “O tecido”, no qual o eu-lírico diz não trazer “promessas vis para vislumbrar os olhos de ninguém”, que é, de fato, o dever de quem escreve ou de quem atua profissionalmente bem: fazer o seu trabalho de forma verdadeira, não de forma falsa, para agradar aos outros. No entanto, todo ser humano é complexo e contraditório, e “O poeta mente inclusive em ilusões / quando vê belezas que nunca se viu / em coisas que são naturalmente feias” (p. 55).

É o caso de “‘Uma pedra no caminho’, / ‘uma flor que nasce no asfalto’” (p. 56), que fazem referência aos textos No meio do caminho e A flor e a náusea, ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Segundo o eu-lírico, “são exemplos típicos / desta maquiagem que o poeta / ensandecido proclama para cutucar / o nosso olhar de mar e icebergs.” (p. 56) Na verdade, é a antiga lição de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (s/d, p. 9).

Porém, a ficção, ao pintar/deformar/exagerar/transcender a realidade, facilita e esclarece alguns fatos reais e cotidianos. E é importante lembrar: o poeta até pode até ser falso, mas, como diria Mario Quintana, estranhamente, o poema é uma “estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face...” (2008, p. 127).

Sobre a fragmentação do ser humano, é bela e triste a primeira estrofe de Os jardins e os sonhos: “Somos um pouco do pouco que restou / de cada um que fomos em cada momento da vida / feita de pedaços e olhares e jardins e esperanças / que se despedaçam refazendo-nos / a cada instante que fica para trás.” (p. 61). Ninguém é uno (e, por isso, como foi dito em Linguagens, a linguagem dos semelhantes também não é una), cada um é vário em cada pequeno período. É nisto que reside a complexidade humana, a angústia e a perplexidade do poeta, que se vê perdido entre tantos outros, eus e possibilidades, que lhe causarão culpa posteriormente...

Porém, o artista/poeta pega estas “pedras no meio do caminho” e as modela, transformando as dificuldades em arte, como o eu-lírico conta em O tempo e a pedra, um dos melhores poemas do livro. Eis alguns versos: “A pedra (...) / é bem maior que o poeta / que só eterniza o poema / que faz de uma pedra uma onda / e da onda o sonhar (...)” (p. 60). Esta ideia rima com a primeira estrofe de O belo, poema de Paulo Franco, de 1999, do Pétalas de Insônia, que diz: “O novo nascerá vindo do velho / qual artista que a martelo / a arte nova cria / transformando a pedra em belo.” (p. 24). Percebe-se, então, a coerência e o aperfeiçoamento do poeta ao longo dos anos, que não só se aperfeiçoa, mas melhora aqueles que o leem também.

Em suma, A rua dos dias é um excelente livro de poesia, de um dos melhores poetas nacionais da atualidade, que mantém o seu nível e ritmo ao mesmo tempo em que tira fôlego e lágrimas dos leitores mais sensíveis. Há vários outros temas abordados na obra, alguns poemas possuem técnicas mais elaboradas, outros são mais livres, porém todos são profundos. Os eu-líricos de Paulo Franco, enquanto buscam a si, presenteiam quem os lê. Um trabalho sobre o passado, o presente e o futuro; poemas sobre o interior e o exterior. Livro atual e recomendadíssimo a qualquer leitor de Literatura que se preze. 

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA, Instituto de Ensino Superior “Santo André”, Santo André - SP.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Paulo. A Máscara no Espelho: uma antologia inacabada. São Paulo: Scortecci, 2012.

______________. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

______________. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000006.pdf>. Acesso em: 22. Jun. 2017.

QUINTANA, Mario. O poema. In: 80 anos de Poesia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2008.

domingo, 11 de junho de 2017

Resenha do show Metal Ballads, do Edu Falaschi e All Star Band, no Manifesto Bar

Ontem, 10/06/2017, no Manifesto Bar, houve um show de celebração ao Dia dos namorados, liderado por Edu Falaschi (Almah, ex Angra e Symbols), seguido por “sua” All Star Band, composta pelos músicos Ricardo Confessori (ex Shaman e Angra) na bateria, Luis Mariutti (About 2 Crash, Motorguts, ex Andre Matos, Shaman e Angra) no baixo, Junior Carelli (Noturnall, ANIE e ex Shaman) nos teclados e Demian Tiguez (ex Symbols) na guitarra. O concerto ainda contou com a presença do baixista Raphael Dafras, da banda Almah.

Embora o supergrupo seja formado por lendas do Metal Nacional, a proposta do show foi de apenas tocar baladas, tanto as do Angra quanto as do Almah. Uma ideia diferente e interessante, que até agora não havia acontecido, mas que já era querida por muitos fãs, principalmente pelos românticos.

Todos os músicos foram e são competentíssimos: Edu Falaschi, que recentemente lançou o álbum E.V.O. (com a sua banda Almah), mostrou que realmente voltou a cantar notas agudas como nos tempos de Angra. Júnior Carelli, sempre simpático, não só toca as músicas da forma como foram gravadas originalmente, mas também improvisa algumas introduções diferenciadas, o que enriquece a apresentação. Luís Mariutti, como é de seu costume, faz o seu trabalho responsável e seriamente, na dele. Ricardo Confessori não toca da mesma forma que o seu sucessor no Angra, Aquiles Priester (Hangar, Noturnall e ex Angra), mas faz mais do que o necessário, pois impõe o seu estilo na música. Raphael Dafras já é conhecido do público, parceiro do Edu no Almah, não precisa de comentários. E, por fim, Demian Tiguez, o antigo guitarrista do Symbols, banda dos irmãos Falaschi, ainda nos anos 90. Embora seja o mais desconhecido, o rapaz executa as canções eximiamente. Foi, com certeza, um dos destaques da noite.

O show começou com três músicas do Angra: Heroes of Sand, Wishing Well e Lease of Life, respectivamente dos álbuns Rebirth (2001), Temple of Shadows (2004) e Aqua (2010). Três músicas da fase em que Edu Falaschi passou pela banda. Essa última também faz parte da época que o baterista, Ricardo Confessori, ainda era um membro do Angra.

Em seguida, tocaram Breathe, canção do primeiro e homônimo álbum do Almah, lançado em 2006. Logo após, um momento muito bonito de reconhecimento do vocalista pelos parceiros Luís Mariutti e Ricardo Confessori, é tocada Lisbon, canção que não é da época do Edu, mas é do baterista e baixista, junto do primeiro vocalista do Angra, Andre Matos.

Depois, foi a vez de Warm Wind, música sempre presente nos concertos do Almah, uma balada feita pelo Edu em homenagem à sua filha. Posteriormente, duas surpresas: Breaking Ties e Dream On. A primeira faz parte do repertório do álbum Aurora Consurgens (2006), um dos mais injustiçados pelos fãs do Angra, e a segunda é um clássico do Rock Internacional, de 1973, da lendária banda Aerosmith. Porém, a versão tocada pela All Star Band foi a do grande Dio em parceria com o Malmsteen, pilares e mestres do Metal. Edu cantou Dream On de forma muito dramática, com alguns ecos, ficou muito bonita.

As próximas baladas foram Forgotten Land, Bleeding Heart, Visions Prelude e Nova Era. Exceto a primeira, que é do Almah, todas as outras são do Angra. Bleeding Heart compõe o Hunters and Prey (2002) e as duas últimas fazem parte do Rebirth, álbum de estréia de Edu na deusa do fogo. Detalhes: Visions Prelude nunca havia sido tocada ao vivo e Nova Era foi executada acusticamente, teclado e voz, que é a versão do Moonlight (2016), trabalho solo do vocalista, posto que a música é uma pauleira.

Por fim, três músicas do Angra: Rebirth (do álbum homônimo e de estréia do Edu), Late Redemption (do excelente Temple of Shadows) e a inesperada Carry On (do primeiro trabalho da banda, o Angels Cry, de 1993) fecharam majestosamente a noite.  A penúltima música foi uma das que mais emocionaram o público, que cantou em coro, tanto as partes em português, originalmente gravadas pelo grande Milton Nascimento, quanto os trechos em inglês, pelo Edu Falaschi, que são a maior parte.

A última canção requer dois parágrafos somente para ela, pois foi um dos momentos mais bonitos do show. Carry On, como se sabe, não é da época do Edu, mas do primeiro vocalista do Angra, segundo o próprio Edu Falaschi,  ontem: “o grande Andre Matos”. Além dele, na época, faziam parte da banda o baixista Luís Mariutti, o baterista Ricardo Confessori (embora este não tenha gravado o primeiro álbum, pois entrou somente depois do lançamento), ambos presentes no concerto de ontem, e os guitarristas Rafael Bittencourt (Angra e Bittencourt Project) e Kiko Loureiro (Megadeth e ex Angra).

Segundo Edu, embora a ideia do show seja tocar somente baladas, ele se vê na obrigação de tocar essa música que mudou a vida de muitos fãs, de muitos músicos e de todo o cenário do Heavy Metal nacional e internacional, no formato original: rápida, pesada, metal, pois é um dos hinos do Power Metal, gênero que o Angra ajudou a criar. Além disso, tocá-la é uma maneira de prestigiar o baixista Mariutti e o baterista Confessori, que são pessoas importantes desta história criada ainda nos anos 90, quando ele, Falaschi, estava com sua primeira banda, o Mitrium, e nem imaginava que um dia entraria para o Angra. Para isso, convidou uma menina da plateia, uma moça que grava vídeos e posta no Youtube, cantando músicas do Angra e do Almah, para fazer um dueto, ajudando-o nas notas mais altas. (Agora, é ela quem não imaginava que um dia estaria cantando junto com ele...)

Com isso, fecha-se a noite com chave de ouro. Se há algumas críticas positivas a se fazer, essas são: se o projeto continuar, aumente o tamanho do setlist, quinze músicas é pouco. Não foi tocada nenhuma música dos álbuns Fragile Equality (2008) e Motion (2011), do Almah; não foi executada nenhuma balada do Symbols, banda underground muito querida pelos fãs; houve apenas uma música do Aurora Consurgens e do Aqua, trabalhos subestimados do Angra. A outra dica é: Edu, decore ou releia as letras. Foram bem poucos deslizes, mas perceptíveis.

Finalmente, tomara que surjam mais oportunidades de shows do projeto, que ele continue e que volte à grande São Paulo novamente, em breve.

Setlist:

Heroes of Sand - Angra
Wishing Well - Angra
Lease of Life - Angra
Breathe - Almah
Lisbon - Angra
Warm Wind – Almah (participação de Raphael Dafras)
Breaking Ties – Angra (participação de Raphael Dafras)
Dream On - Aerosmith
Forgotten Land - Almah
Bleeding Heart - Angra
Visions Prelude - Angra
Nova Era acústica - Angra
Rebirth - Angra
Late Redemption - Angra
Carry On – Angra.



terça-feira, 6 de junho de 2017

Cores

Ao longo da vida, somos pintados e nos pintamos de várias cores diferentes, de formas diversas, mas essas tintas chegam de fora (algumas foram ganhas, outras foram compradas etc.), por isso descascam e caem depois de um tempo.

Paradoxalmente, mesmo todos possuindo características distintas, dizem que somos todos iguais. É verdade (e não é difícil de entender). É que somente a parte exterior é modificada, a interior continua intacta. Daí o erro de quem quer parecer brilhante ao se pintar com tintas fluorescentes ou jogando glitter por cima do corpo.

O que quero dizer é que todos nós possuímos um brilho interior, mas para que possam vê-lo, para verem o que somos (não o que parecemos ser), é preciso que nos conheçamos e, mais do que isso, precisamos ser transparentes.

domingo, 28 de maio de 2017

Relato pessoal: Desde aquele dia

Memorial da minha relação com a banda Engenheiros do Hawaii e o Humberto Gessinger

Lembro que foi em 2005, numa rádio qualquer (sei que não era a KISS FM, porque essa eu conhecia e ouvia), escutei uma música que dizia: “Nós dois temos os mesmos defeitos, / sabemos tudo a nosso respeito, / somos suspeitos de um crime perfeito, / mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”. Fiquei encantado, mas não sabia por quem, pois não foi dito o nome da música nem da banda. (Por acaso)

Fui para a escola (Di Cavalcanti) com o trecho memorizado e a dúvida internalizada. Perguntei aos meus amigos da minha sala (5° série D) se conheciam a canção, mas nenhum deles soube me responder (houve até quem cogitou ser do Roberto Carlos! — nunca esqueci essa hipótese que nem deveria ser considerada hipótese). (Nada a ver)

Coincidentemente, no mesmo ano, o meu pai pediu para um amigo gravar várias músicas do rock nacional num CD. Tenho-o até hoje (mas acho que nem funciona mais). Na gravação, havia Titãs, Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii. Gostei muito da primeira e da última banda (a do meio, não). Em seguida, meu pai pediu para a minha mãe comprar algum CD dos Engenheiros do Hawaii (havíamos acabado de comprar um do Raul Seixas, uma coletânea). Ela nos trouxe o Tchau Radar! Lembro que ele não gostou muito, pois, como eu, também estava começando a conhecer, mas ele já conhecia as mais famosas (embora não soubesse os nomes delas, nem em quais álbuns elas estavam inseridas). (Lado a lado)

Ouvi muito esse álbum. Achava a abertura daquela primeira faixa, Eu que não amo você, pesadíssima! Mal sabia eu que, anos mais tarde, o Metal se tornaria o meu gênero musical preferido. Eu não conhecia ninguém que também gostasse da banda. Ouvi-a sozinho. Na época, o que fazia sucesso na turma era algo que chamávamos de Black. (Quem diria?)

No ano de 2006, porém, tive a oportunidade de fazer todos os meus amigos (e os “inimigos" também) da sala ouvirem aos Engenheiros — hoje em dia, infelizmente, sou obrigado a ouvir música porcaria por todos os lados, já que há um pessoal que adora ouvir os seus batidões com o autofalante (agora se escreve assim, gente). Foi quando, na escola, a minha professora Edimara, de Educação Artística, pediu para que todos levassem uma música que gostássemos muito. Ouviríamos todas. Alguns levaram Pitty, poucos levaram Raps, a maioria levou Blacks da época, e eu levei a Cruzada, última música do Tchau Radar!, que na verdade é um cover (na época, eu nem sabia). Todo mundo estranhou aquele início, aquela orquestra sombria. A professora adorou, disse que era fã do Humberto Gessinger. Nunca esqueci a aula. (A maioria esqueceu tanto da aula, quanto da música que levou, pois não a ouve mais.) (Exército de um homem só I)

Passaram-se dois anos e eu fiz amizade com um menino um ano mais novo do que eu, o Leo(nardo Mendes). Em 2008, quando o meu pai comprou um computador, o Leo foi o responsável por me passar muitas músicas de bandas e gêneros que eu não conhecia. Adorei várias bandas (Ozzy Osbourne, Metallica, DIO, Motorhead — anos depois, cheguei a ver ao vivo o primeiro e o último — etc.), já de outras, não gostei (Alice in Chains, KISS, System of a Down — hoje em dia, gosto dessa última — etc.)... Lembro que era o primo dele, o Ailton, que passava as músicas para ele, que, em seguida, me passava. (Novos Horizontes)

Pois bem, desde criança, eu já ouvia muito Raul Seixas e Engenheiros do Hawaii (e Led Zeppelin, ACDC e Pink Floyd), mas eram poucas músicas... Foi, então, com esse amigo, que eu me aprofundei nas obras. Se antes eu “somente” gostava muito, depois de conhecer mais músicas, virei fã. (Hora do mergulho)

No entanto, algo interessante e triste: eu não entendia muito bem as letras, só as passagens mais óbvias — e isso em qualquer banda. Era mesmo apaixonado pelo ritmo e melodia. Só quando comecei a estudar de verdade, na faculdade, em 2014, que descobri a Poesia, a Literatura, algumas técnicas dessas duas artes, alguns autores e suas obras, aprendi a relacionar o objeto com o seu contexto etc., só depois de tudo isso é que percebi o quanto as músicas dos Engenheiros do Hawaii e do Raul Seixas eram profundas e complexas, o quanto havia de citação implícita e explícita. Mais uma evolução: se a criança gostava muito e o adolescente virou fã, o jovem adulto virou amante. (Pra ser sincero)

Desde então, sempre que posso, escrevo algumas impressões que tenho sobre uma ou outra canção, sempre com algo mínimo de embasamento, um artigo ou um livro. Fiz algumas “análises” que foram e são elogiadas por outros admiradores da banda até hoje (gente bem mais velha do que eu, que acompanha o Humberto há anos). Fico bastante contente. De vez em quando, também pesquiso o trabalho de outras pessoas sobre o que gosto. Sempre aprendo algo novo. (Pra entender)

No ano passado, 2016, aprendi muito sobre a banda, graças a uma querida amiga. Ela se chama Jéssica Tasso e mora no Rio Grande do Sul (e eu em São Paulo). Encontramo-nos no ano passado e ela me deu a nova “biografia” dos Engenheiros do Hawaii (coloquei entre aspas porque o livro traz a história do início da banda até o rompimento da formação clássica, Gessinger, Licks e Maltz, nada além). Com ele, aprofundei-me. Creio que o meu melhor texto, a minha melhor análise, a da música Nossas Vidas, foi feita após isso. (Ela sabe)

Ontem, 27/05/2017, assisti a um show do Humberto Gessinger pela primeira vez, junto do amigo que me passou a discografia dos Engenheiros. Momento mágico. Por isso que me lembrei de todas essas histórias. A turnê faz comemoração ao álbum A revolta dos Dândis (que é título de um capítulo de um livro do filósofo Albert Camus), segundo álbum da banda, lançado em 1987. (Outros tempos)

Foi muito bonito ver todo o pessoal cantando em alto e bom som quase todas as músicas. Eu sabia todas, porque sou viciado. O nome da tour é muito significativo: Desde aquele dia. Esse é o título de uma música do álbum homenageado, mas também é fundo do novo trabalho do Humberto: Desde aquela noite. Agora, para mim, ambos os nomes são importantes: o dia que conheci (em 2005) e a noite que constatei o espetáculo (2017), que para sempre será lembrado. (Túnel do tempo)

Não há o que falar mal da banda, um trio incrível: o baterista Rafael Bisogno, que além da bateria, toca outros dois instrumentos que não sei o nome (desculpem), todos com batida (um deles parece um tambor e o outro parece um teclado pequeno); Fernando Peters na guitarra (muitos o criticam, mas é um excelente guitarrista, que preza pelo feeling); e o gênio Humberto Gessinger, que canta, toca baixo, teclado, gaita e acordeon — além de ficar improvisando as letras da música, para a (des)graça de quem tenta acompanhá-lo certinho. Arrepiei em várias músicas, mas principalmente na Quem tem pressa não se interessa e na Guardas da fronteira. O setlist de ontem (houve mashups, então colocarei na ordem) foi:

A revolta dos dandis I
Infinita Highway
Até o fim
Infinita Highway
Quem tem pressa não se interessa
Vozes
Terra de gigantes
Vozes
Terra de gigantes
Desde aquele dia
Além dos outdoors
Guardas da fronteira
Refrão de um bolero
Piano bar
Filmes de guerra, canções de amor
A revolta dos dândis II
Eu que não amo você
Alexandria
O que você faz à noite
Surfando Karmas e DNA
Olhos abertos
Pose (anos 90)
Somos quem podemos ser
3X4
Dom Quixote
Exército de um homem só I
Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones
Vida real
Bora
Faz parte
Pra ser sincero. (Terra de gigantes)

Há tantas dos lado B que eu adoro e que ficaram de fora... (Sob o tapete)

Este texto é um agradecimento a todos aqueles que me ensinam, me ensinaram, me proporcionam e me proporcionaram prazer e conhecimento sobre esse artista e sua banda, que eu amo (ao lado das bandas de Heavy Metal). Na internet, muitos já me disseram que eu mostrei novas visões sobre as canções. Fiquei pensando nisso ontem: eu, ao lado de muita gente que elogiou meus textos, todos anonimamente pelo mesmo motivo. (Pra ficar legal)

Que essa tenha sido a primeira vez de muitas que virão! (A promessa)



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ciclos

Nós, seres humanos, gostamos da ideia de ciclos. Criamo-los. Marcamos datas de início e de fim. Com elas, podemos refletir sobre o que fomos, o que somos, o que queremos e o que podemos ser. Claro, a cada desejo, mais sofrimento enquanto não o realizamos (base schopenhauriana).

E por falar no rapaz, lembrei deste trecho, que um dia eu quis escrever algo semelhante, mas quando descobri que já havia sido escrito e de forma melhor do que a que eu faria, desisti — não gosto muito de paráfrases, uso logo citações:

Cada dia é uma vida em miniatura, onde todo despertar é um pequeno nascimento, cada manhã fresca é uma pequena juventude e cada adormecer na noite é uma pequena morte. Para completar a analogia, poderíamos considerar o desconforto e a dificuldade de despertar como as dores do parto. (SCHOPENHAUER, s/d, p. 66)

(Fantástico! Fantástico!)

É que hoje fiz aniversário, por isso me lembrei desse fragmento. Recebi alguns parabéns verdadeiros, outros nem tanto. Mas sempre pensei que deveríamos dar mais atenção aos pequenos ciclos, àqueles do dia-a-dia, não somente aos anuais. Afinal, cada dia é um nascimento novo. Obviamente, a cada renascer, sofremos no início (às vezes, durante outras horas e momentos também). Condição da vida.

Digo isso porque desejos utópicos me incomodam um pouco. Não há apenas bons momentos na existência. Se desejarmos mais um ano de vida a alguém, obrigatoriamente, desejamos más situações também. Aliás, é através da superação dessas adversidades que crescemos e melhoramos.

Acho engraçado, a cada ano que passa, alguém nos diz que ficamos mais velhos. Errado. Ficamos mais novos! Onde é que entra o Heráclito de Éfeso na história? Que eu saiba, ele não foi esquecido. O homem que se banha num rio não é o mesmo homem de antes, e o rio também não é o mesmo. O que é velho fica para trás. Só permanece o novo.

Há aspectos e ideias (preconceitos e utopias) minhas que deixei no passado. Aí, sim, é algo velho. Há objetos e sentimentos meus que carrego desde criança, estes são antigos. Velho é algo ultrapassado e inútil; o antigo ainda é e pode ser usado. (Por exemplo, estou usando textos de Heráclito, que viveu há mais de 500 anos antes de Cristo, e de Schopenhauer, que viveu no século XIX.)

Então, para que não mais consideremos os aniversariantes como velhos e para terminar este ciclo chamado “texto”, trago uma citação de um escritor mais moderno:

(...) é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando...
(...) Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente não nasce pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado e não no presente. (CORTELLA, 2016, p. 13-14)

Sou o mais novo eu possível.
//

P.S.: Ah, é verdade, já ia esquecendo! Eu mesmo me perguntei qual era o melhor presente a se ganhar e respondi em forma de poema, resposta subjetiva, crença e desejo meu...:

Qual o melhor presente?
É ter alguém presente,
Não num dia somente,
Mas daqui para frente,
Do agora para o sempre
(mesmo que internamente)...

Referências


CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos!: Provocações filosóficas. 19. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.


SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria da vida. Disponível em: <http://imagomundi.com.br/filo/schopenhauer_aforismos.pdf> Acesso em: 19. maio. 2017.

domingo, 14 de maio de 2017

Poema materno

No Dia das Mães, eu queria escrever um poema para a minha, porém não consegui. Fiquei triste e fui relatar a ela, que disse:

— Mesmo se conseguisse, eu não entendo dessas coisas, menino. Eu estudei só até a quarta série. Mas se é o que você quer fazer, continue tentando, mesmo que eu não o compreenda.

Foi assim, então, implicitamente, que ela me ensinou que poemas não se escrevem: poemas se fazem. E não são feitos de uma hora para outra, mas palavra por palavra, ação por ação, dia após dia.

Cada pessoa possui certa linguagem. Não adianta eu escrever palavras difíceis ou bonitas, se o meu receptor, se o meu leitor, se a minha mãe não entenderá.

Aprendi que ela — e muita gente — percebe e demonstra (inconscientemente) que a verdadeira poesia está nas ações cotidianas. Lição básica: um poema é, antes de tudo, sentimento.

No fim, o meu presente acabou sendo este pequeno texto em que quem ensina é a minha mãe. Um dia, também pretendo ser professor.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cowboy Bebop , um universo rico em qualidade

Já faz mais de anos que ouvi falar no anime Cowboy Bebop. Li esse nome pela primeira vez numa revista, em 2005, na extinta Ultra Jovem. Nessa época, a qualidade da revista era bem menor, vinha-se uma página de imagem e apenas um parágrafo sobre a obra. Mesmo assim, o parágrafo sempre me interessou. Porém, só agora, em 2017, é que criei coragem para ver esse excelente anime. Não me arrependi. Quero dizer, se há arrependimento, foi de ter demorado tanto para vê-lo.

Escrito por Keiko Nobumoto (conhecida por ter escrito o excelente Wolf’s Rain) e dirigido por Shinichiro Watanabe (também famoso por ter dirigido o ótimo Samurai Champloo), Cowboy Bebop é um anime de ação, ficção científica, drama e aventura. Sim, tudo isso. O estúdio responsável pela produção é o Sunrise, um grande nome, que também produziu o aclamado InuYasha (Rumiko Takahashi) e alguns animes menores (em fama, não em qualidade).


Pois bem, a história se passa no ano de 2071, uma época onde a tecnologia avançou bastante e é possível viajarmos para outros planetas facilmente. A Terra está desolada por causa de um acidente num portal entre o nosso planeta e a Lua. Mesmo assim, ainda há algumas pessoas que vivem aqui, entre os meteoros que caem diariamente. Com isso, há muitas colônias e enormes cidades nos astros vizinhos, para os quais migramos.

Contudo, por o espaço ser vasto, a libertinagem aumentou demasiadamente, fazendo os crimes também aumentarem e os policiais não darem conta. Assim, são pagos prêmios como recompensa para os caçadores que conseguirem prender tais infratores. Bem ao estilo Faroeste. Os personagens principais de Cowboy Bebop são uma turma desses especialistas em prender bandidos.

Os protagonistas são cinco: Spike Spiegel, um jovem habilidoso com naves e armas, que possui um passado obscuro e ainda aberto para se resolver; Jet Black, um ex-policial, o segundo mais velho do grupo — também não temos muitas informações sobre o seu passado; Faye Valentine, embora tenha a aparência de uma jovem linda, é a mais velha do grupo, pois perdeu a memória num acidente há 50 anos, mas o seu corpo foi congelado e anos depois, revivido; Ed, uma criança nerd, capaz de hackear quase todo sistema de computador; e, por fim, Ein, um cachorro muito inteligente. Todos são tripulantes da nave Bebop. Porém, não se conhecem logo no primeiro episódio (exceto Spike e Jet), somente aos poucos, com o desenrolar da trama.


Como deu para perceber, os nomes não são orientais, mas, sim, ocidentais. Não só isso, como o visual dos personagens e dos cenários também é americanizado. O anime possui apenas 26 episódios e um filme (produzido pelo estúdio Bones e distribuído pela Sony), no entanto, o conteúdo e as referências utilizadas são enormes.

A primeira delas é o nome dos episódios, quase todos relacionados à música e a bandas. Na ordem: 1 – Asteroid Blues (Blues é um gênero musical), 2 – Stray Dog Strut (um trocadilho com o título da música Stray Cat Strut, da banda Stray Cats), 3 – Honky Tonk Woman (música dos Rolling Stones), 6 – Sympathy for the devil (também dos Rolling Stones), 7 – Heavy Metal Queen (Heavy Metal é um gênero musical), 10 – Ganymede Elegy (Elegia é um gênero musical), 11 – Toys in the Attic (nome do álbum e da música do Aerosmith), 12 e 13 – Jupiter Jazz (Jazz é um gênero musical), 14 - Bohemian Rhapsody (música do Queen), 16 - Black Dog Serenade (Black Dog é uma música do Led Zeppelin), 17 – Mushroom Samba (Samba é um gênero musical), 19 – Wilde Horses (música dos Rolling Stones), 21 – Boogie Woogie Feng Shui (Boogie Woogie é um gênero musical), 22 – Cowboy Funk (Funk é um gênero musical — e não é o brasileiro, não, hein?!), 23 – Brain Scratch (talvez seja referência à música Brain Damage, do Pink Floyd), 24 - Hard Luck Woman (música do KISS) e 25 e 26 – The Real Folk Blues (Folk é um gênero musical e Blues também). Além disso, o nome do filme é Knockin’ on Heaven’s Door, que também é título da famosa música do Bob Dylan.

Os nomes dos outros episódios também devem fazer referências a outros gêneros, artistas e a músicas que não conheço. Afinal, não sou especialista em análises e nem conhecedor de tudo o que é arte...

Obviamente, toda obra-prima liga entre si o conteúdo e a forma, por isso, não basta ter nomes de músicas relacionadas ao Rock, ao Blues e ao Jazz, mas é preciso conter esses elementos dentro da obra. É o que acontece com Cowboy Bebop, um anime com uma das melhores soundtracks que eu já assisti e ouvi. É claro que essa sonoridade é para nos remeter aos filmes de cowbows do velho oeste, embora o contexto da história se passe no futuro e no sistema solar (a forma é diferente, mas a ação é a mesma: perseguição de foras-da-lei).

O anime também faz referências — implícitas e explícitas — a alguns filmes antigos, a outras músicas (além daquelas que nomeiam os episódios), a livros, a contos e a escritores. Há um momento, por exemplo, em que todos os personagens comem cogumelos e têm alucinações. Spike sobe uma escada infinita quando, de repente, aparece um sapo que diz que aquilo é uma escada para o céu. “Escada para o céu” é “Stairway to heaven” em inglês, título de uma música do Led Zeppelin. Na mesma sessão (que é como os capítulos são chamados em Cowboy Bebop), há um muro escrito “Mobi Dik”, que faz referência ao livro Moby Dick, do escritor Herman Melville. Obviamente, aliado ao conteúdo do livro de Mellville, o cenário se passa num local onde há peixes (como podemos notar escrito no muro ao lado esquerdo e acima do “Mobi Dik”: Pescaderia).

("Pescaderia Mobi Dik")

Em outro episódio, Spike está lendo um livro chamado Walking on the moon (que também é uma música da banda The Police). Já em outra passagem, Jet Black cita o escritor alemão Goethe. E essas são apenas algumas das intertextualidades que notei. Com certeza, há muito mais.


Coincidência ou não, há um personagem no segundo episódio de Cowboy Bebop que nos lembra muito o Leorio, do anime Hunter X Hunter (Yoshihiro Togashi), embora este último tenha sido exibido um ano mais tarde, em 1999. O que muda é que Leorio é um dos protagonistas de HxH, enquanto o personagem de Cowboy Bebop é apenas mais um. Porém, é interessante a semelhança entre ambos: os dois carregam maletas, usam óculos, são atrapalhados e aparecem pela primeira vez (no caso do personagem de Cowboy Bebop, pela única vez) em episódios em que há animais.



(O de laranja é personagem de Cowboy Bebop, o de azul, o Leorio)


Também é curioso notarmos o uso de locais reais do nosso sistema solar, embora desconhecidos por muita gente. Ganímedes e Europa, por exemplo, que são realmente satélites naturais de Júpiter, no anime são cidades.

Deixando de lado essas influências, o que eu mais gostei na obra, além das batalhas, do visual e da comicidade, é a coerência simbólica dentro dos próprios episódios. No episódio 5, Ballad of fallen angels, temos um pouco da explicação do primeiro episódio e da vida passada de Spike Spiegel. Conhecemos o seu antigo amigo e agora inimigo Vicious. Os próprios nomes são simbólicos. Vejamos.

A primeira vez que Spike aparece, relembra momentos entre tiros e flores. As flores nos remetem à morte. O que é que Spike sempre diz? Que ele já morreu uma vez. Ele sempre se lembra da sua amada Julia, que depois conhecemos e percebemos que ela mesma é comparada a uma flor, de tão linda e aparentemente delicada. Spike, como seu nome diz, é o cravo.

O passado e o presente de Julia, Spike e Vicious estão ligados. Vicious, como o próprio nome sugere, é o mal da história, o que se rebelou contra o próprio sistema (a que chamam de Sindicato) e traiu todas as pessoas próximas. De cabelo cinza (o que pode nos remeter à frieza de sua personalidade) e sempre acompanhado por corvos (que também pode significar a morte), Vicious se utiliza de uma espada como arma. Diferente de Spike, que só usa armas de fogo.

É interessante notarmos que nesses episódios 5 e 6 há muitas cartas de Ás de Espada. Primeiramente, o jogo de cartas é considerado por muitos como um vício (assim, alia-se ao personagem Vicious). Em segundo lugar, diz-se que a carta possui muitos significados, que foram mudando ao longo do tempo, porém, ainda assim, o Ás de Espada está relacionado a conflitos, à morte e às perdas. Então, lembremos: Spike já foi considerado morto, Vicious usa uma espada (e está sempre com um corvo por perto), um deseja matar o outro e a carta pode significar o corte da relação entre ambos.

Não só isso: o episódio se chama Ballad of fallen angels, isto é, a balada dos anjos caídos. Os dois personagens não são mais o que costumavam ser, ambos lutam dentro de uma igreja, que, por sua vez, nos traz a história bíblica da criação e da traição (vício) de Lúcifer, o anjo caído. No entanto, ironicamente, quem cai do vitral é o Spike... No final, causada por Faye Valentine, temos uma queda de plumas brancas sobre Spike, o que nos lembra penas de anjos... E que também nos lembra a queda das pétalas de rosas jogadas por Júlia, no passado. Além da chuva, que houve no pretérito, que há agora e pode significar mudança, purificação ou um ciclo.

Nesse mesmo episódio, por Spike ter ido resolver seus assuntos pessoais sozinho, Jet fica com raiva e quando Faye pede ajuda para salvar Spiegel, Jet, que estava aparando os galhos de um bonsai (pequena árvore oriental), acaba cortando um galho e nega a ajuda. Depois, muda de ideia e vai atrás do amigo. Esse corte do galho, ocasionado sem querer, pode significar o quase rompimento da amizade entre os dois: negar ajuda é cortar um galho da árvore que na nave todos são. Coerência extrema.

Outro capítulo simbólico é o 18, “Fale como uma criança”, o qual é iniciado com Jet narrando um conto oriental à criança Ed. O conto traz a história de um pescador que não envelheceu (ao mesmo tempo, Spike está pescando ao lado de Jet e Ed...). Em seguida, recebem uma fita cassete (não se sabe de quem) endereçada à Faye Valentine. Porém, não existem mais fitas, muito menos os aparelhos para reproduzi-las. Agora tudo é gravado em CDs (os tripulantes da Bebop nem sonhavam com as nossas atuais nuvens)! Assim, partem para o único lugar tão atrasado que pode possuir um aparelho desses: a Terra!

Ao conseguirem-no, veem que é uma mensagem gravada há anos... Incrivelmente, pela Faye e suas amigas (hoje, todas idosas)! Uma mensagem destinada a elas mesmas, porém, anos depois. Contudo, como foi dito no início do texto, Faye perdeu a sua memória e não se lembra de nada... É muito triste ver que algumas pessoas perderam as suas memórias e, assim, a sua identidade. Uma Faye adulta sem conseguir reconhecer ou se lembrar da Faye adolescente, das amigas, de ninguém... Há disso na vida real também. Capítulo bem coeso.

Sobre o episódio 23, Scratch Cerebro, deixo apenas essas palavras: “Eles estão apenas praticando um ato de fé que eles decidiram crer. Por que você acha que as pessoas acreditam em Deus? É porque elas querem. Não é fácil viver neste mundo podre, não há nada certo enquanto se vive neste mundo (...) Deus não criou os humanos. Os humanos criaram Deus. (...) Você sabe qual é a melhor e a pior criação do ser humano? Televisão. A televisão controla as pessoas usando informação e rouba os seus sensos de realidade. Sim, agora a televisão é uma religião por si só. A TV criou pessoas que são facilmente enganadas por fantasias idiotas”.

Outra sessão muito bem entrelaçada é a 24, Hard Luck Woman. Nele, Faye recupera parte da memória e vai atrás de onde ela pensa que pertence. Por sua vez, Ed encontra o seu pai na Terra. O trabalho dele é fazer mapas. Interessante ligação: enquanto um faz mapas, a filha acha o pai e Faye procura o seu lugar no mundo. Ora, o mapa é um instrumento de localização. Ao mesmo tempo, o pai de Ed dá ovos a Jet e a Spike. Claro, os ovos são o princípio da vida, que nos remete à família recém encontrada e à mulher que procura o seu passado para entender o seu presente. Aliás, esse episódio anuncia o final do curto anime, que é o Spike resolvendo as suas pendências com Júlia e Vicious.

Não comentarei sobre o que acontece nesses dois episódios finais, somente sobre a criação de um cenário que achei muito interessante. Num dos momentos, Spike e Jet conversam e o segundo comenta sobre um conto em que um gato morre e revive um milhão de vezes, um gato que não tinha medo de morrer (podemos associar à própria imagem do protagonista), mas que um dia se libertou desse ciclo.

Agora, o curioso é que “a câmera” mostra os dois embaixo de um ventilador que gira (observemos o ciclo aqui também) em sentido anti-horário: assim como Spike fala de seu passado (não do futuro). No final do conto, ele dá uma resposta inusitada a Jet, assim como a história caminha para um curso, mas, igualmente ao ventilador, Spike vai ao contrário do que nós e Jet estávamos pensando. Muito criativo.

(Câmera mostrando Jet e Spike embaixo de um ventilador que gira em sentido anti-horário)

Sobre o filme, Knockin’ on Heaven’s Doors, de 2001, há um homem (Vincent Volaju) que foi cobaia de testes de medicina e deseja se vingar de todos, passando a doença a qual ele é imune para toda a população. Doença essa que está ligada à nanotecnologia. Claro, a tripulação da Bebop se encarregará do caso. Os traços do filme são superiores aos da animação (até porque o longa foi feito três anos depois) e a trilha sonora continua impecável. Falta um pouco (só um pouco) de Jazz e Blues, mas que são compensados pelos corais (que combinam com as palavras ditas pelo antagonista: céu, inferno, purgatório, Halloween etc).

Também é interessante notarmos que uma das ruas que Spike passa ao lado chama-se La Fontaine. La Fontaine, sabemos, foi um grande e importante fabulista do século XVII. Além disso, há a citação de feijões por alguns vendedores que parecem árabes (porém, esses personagens, com certeza, são para serem relacionados a terroristas... — Vincent é considerado um terrorista — Olhemos a ideologia aqui). Embora a história de João e o pé de feijão seja inglesa e tenha ficado famosa a partir do século XVIII e XIX, os orientais foram grandes fabulistas também. E o pé de feijão levava ao céu, lugar o qual o antagonista deseja ir (e o próprio nome do filme nos remete a isso: Batendo na porta do céu — Knockin’ on Heaven’s Door). Filme muito bem feito. Também há a metáfora das borboletas, mas que deixarei para quem for atrás...

(La Fontaine e um comercial da Coca-Cola)

Em suma, é isso. Um anime obrigatório para todos os apreciadores de animações japonesas, um clássico repleto de referências a diversas artes e culturas (mas principalmente à americana); muito bem elaborado, tanto em imagem quanto em conteúdo, cheio de sublimes reflexões sobre a liberdade, à solidão, ao sentimento de pertencimento, ao existencialismo etc. Os personagens são carismáticos (exceto a Ed, que chega a ser irritante, às vezes... — porém, não devemos nos esquecer que ela é apenas uma criança, logo, normal) e não estereotipados, um diferente do outro. Além disso, é preciso ressaltar a presença de muitos personagens negros nas diversas posições, não só como foragidos, mas como médicos, advogados, apresentadores de TV, policiais etc., o que não é comum no universo dos animes. Tudo acompanhado sempre de muita ação, lutas e momentos cômicos. E, claro, uma das melhores trilhas sonoras de todos os animes, muito Blues e Jazz (e Heavy Metal em um dos episódios). 

(Abertura de Cowboy Bebop)

Obviamente, não comentei sobre todos os episódios e nem sobre todo o conteúdo dos capítulos que escolhi falar (sou apenas um apreciador de animes, não um crítico e especialista — muito menos um caçador de easter-eggs!). É uma obra que deve ser vista muito mais vezes para a entendermos melhor, então, assim que puderem, vejam-na. 

 See you in space, cowboy!