domingo, 28 de maio de 2017

Relato pessoal: Desde aquele dia

Memorial da minha relação com a banda Engenheiros do Hawaii e o Humberto Gessinger

Lembro que foi em 2005, numa rádio qualquer (sei que não era a KISS FM, porque essa eu conhecia e ouvia), escutei uma música que dizia: “Nós dois temos os mesmos defeitos, / sabemos tudo a nosso respeito, / somos suspeitos de um crime perfeito, / mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”. Fiquei encantado, mas não sabia por quem, pois não foi dito o nome da música nem da banda. (Por acaso)

Fui para a escola (Di Cavalcanti) com o trecho memorizado e a dúvida internalizada. Perguntei aos meus amigos da minha sala (5° série D) se conheciam a canção, mas nenhum deles soube me responder (houve até quem cogitou ser do Roberto Carlos! — nunca esqueci essa hipótese que nem deveria ser considerada hipótese). (Nada a ver)

Coincidentemente, no mesmo ano, o meu pai pediu para um amigo gravar várias músicas do rock nacional num CD. Tenho-o até hoje (mas acho que nem funciona mais). Na gravação, havia Titãs, Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii. Gostei muito da primeira e da última banda (a do meio, não). Em seguida, meu pai pediu para a minha mãe comprar algum CD dos Engenheiros do Hawaii (havíamos acabado de comprar um do Raul Seixas, uma coletânea). Ela nos trouxe o Tchau Radar! Lembro que ele não gostou muito, pois, como eu, também estava começando a conhecer, mas ele já conhecia as mais famosas (embora não soubesse os nomes delas, nem em quais álbuns elas estavam inseridas). (Lado a lado)

Ouvi muito esse álbum. Achava a abertura daquela primeira faixa, Eu que não amo você, pesadíssima! Mal sabia eu que, anos mais tarde, o Metal se tornaria o meu gênero musical preferido. Eu não conhecia ninguém que também gostasse da banda. Ouvi-a sozinho. Na época, o que fazia sucesso na turma era algo que chamávamos de Black. (Quem diria?)

No ano de 2006, porém, tive a oportunidade de fazer todos os meus amigos (e os “inimigos" também) da sala ouvirem aos Engenheiros — hoje em dia, infelizmente, sou obrigado a ouvir música porcaria por todos os lados, já que há um pessoal que adora ouvir os seus batidões com o autofalante (agora se escreve assim, gente). Foi quando, na escola, a minha professora Edimara, de Educação Artística, pediu para que todos levassem uma música que gostássemos muito. Ouviríamos todas. Alguns levaram Pitty, poucos levaram Raps, a maioria levou Blacks da época, e eu levei a Cruzada, última música do Tchau Radar!, que na verdade é um cover (na época, eu nem sabia). Todo mundo estranhou aquele início, aquela orquestra sombria. A professora adorou, disse que era fã do Humberto Gessinger. Nunca esqueci a aula. (A maioria esqueceu tanto da aula, quanto da música que levou, pois não a ouve mais.) (Exército de um homem só I)

Passaram-se dois anos e eu fiz amizade com um menino um ano mais novo do que eu, o Leo(nardo Mendes). Em 2008, quando o meu pai comprou um computador, o Leo foi o responsável por me passar muitas músicas de bandas e gêneros que eu não conhecia. Adorei várias bandas (Ozzy Osbourne, Metallica, DIO, Motorhead — anos depois, cheguei a ver ao vivo o primeiro e o último — etc.), já de outras, não gostei (Alice in Chains, KISS, System of a Down — hoje em dia, gosto dessa última — etc.)... Lembro que era o primo dele, o Ailton, que passava as músicas para ele, que, em seguida, me passava. (Novos Horizontes)

Pois bem, desde criança, eu já ouvia muito Raul Seixas e Engenheiros do Hawaii (e Led Zeppelin, ACDC e Pink Floyd), mas eram poucas músicas... Foi, então, com esse amigo, que eu me aprofundei nas obras. Se antes eu “somente” gostava muito, depois de conhecer mais músicas, virei fã. (Hora do mergulho)

No entanto, algo interessante e triste: eu não entendia muito bem as letras, só as passagens mais óbvias — e isso em qualquer banda. Era mesmo apaixonado pelo ritmo e melodia. Só quando comecei a estudar de verdade, na faculdade, em 2014, que descobri a Poesia, a Literatura, algumas técnicas dessas duas artes, alguns autores e suas obras, aprendi a relacionar o objeto com o seu contexto etc., só depois de tudo isso é que percebi o quanto as músicas dos Engenheiros do Hawaii e do Raul Seixas eram profundas e complexas, o quanto havia de citação implícita e explícita. Mais uma evolução: se a criança gostava muito e o adolescente virou fã, o jovem adulto virou amante. (Pra ser sincero)

Desde então, sempre que posso, escrevo algumas impressões que tenho sobre uma ou outra canção, sempre com algo mínimo de embasamento, um artigo ou um livro. Fiz algumas “análises” que foram e são elogiadas por outros admiradores da banda até hoje (gente bem mais velha do que eu, que acompanha o Humberto há anos). Fico bastante contente. De vez em quando, também pesquiso o trabalho de outras pessoas sobre o que gosto. Sempre aprendo algo novo. (Pra entender)

No ano passado, 2016, aprendi muito sobre a banda, graças a uma querida amiga. Ela se chama Jéssica Tasso e mora no Rio Grande do Sul (e eu em São Paulo). Encontramo-nos no ano passado e ela me deu a nova “biografia” dos Engenheiros do Hawaii (coloquei entre aspas porque o livro traz a história do início da banda até o rompimento da formação clássica, Gessinger, Licks e Maltz, nada além). Com ele, aprofundei-me. Creio que o meu melhor texto, a minha melhor análise, a da música Nossas Vidas, foi feita após isso. (Ela sabe)

Ontem, 27/05/2017, assisti a um show do Humberto Gessinger pela primeira vez, junto do amigo que me passou a discografia dos Engenheiros. Momento mágico. Por isso que me lembrei de todas essas histórias. A turnê faz comemoração ao álbum A revolta dos Dândis (que é título de um capítulo de um livro do filósofo Albert Camus), segundo álbum da banda, lançado em 1987. (Outros tempos)

Foi muito bonito ver todo o pessoal cantando em alto e bom som quase todas as músicas. Eu sabia todas, porque sou viciado. O nome da tour é muito significativo: Desde aquele dia. Esse é o título de uma música do álbum homenageado, mas também é fundo do novo trabalho do Humberto: Desde aquela noite. Agora, para mim, ambos os nomes são importantes: o dia que conheci (em 2005) e a noite que constatei o espetáculo (2017), que para sempre será lembrado. (Túnel do tempo)

Não há o que falar mal da banda, um trio incrível: o baterista Rafael Bisogno, que além da bateria, toca outros dois instrumentos que não sei o nome (desculpem), todos com batida (um deles parece um tambor e o outro parece um teclado pequeno); Fernando Peters na guitarra (muitos o criticam, mas é um excelente guitarrista, que preza pelo feeling); e o gênio Humberto Gessinger, que canta, toca baixo, teclado, gaita e acordeon — além de ficar improvisando as letras da música, para a (des)graça de quem tenta acompanhá-lo certinho. Arrepiei em várias músicas, mas principalmente na Quem tem pressa não se interessa e na Guardas da fronteira. O setlist de ontem (houve mashups, então colocarei na ordem) foi:

A revolta dos dandis I
Infinita Highway
Até o fim
Infinita Highway
Quem tem pressa não se interessa
Vozes
Terra de gigantes
Vozes
Terra de gigantes
Desde aquele dia
Além dos outdoors
Guardas da fronteira
Refrão de um bolero
Piano bar
Filmes de guerra, canções de amor
A revolta dos dândis II
Eu que não amo você
Alexandria
O que você faz à noite
Surfando Karmas e DNA
Olhos abertos
Pose (anos 90)
Somos quem podemos ser
3X4
Dom Quixote
Exército de um homem só I
Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones
Vida real
Bora
Faz parte
Pra ser sincero. (Terra de gigantes)

Há tantas dos lado B que eu adoro e que ficaram de fora... (Sob o tapete)

Este texto é um agradecimento a todos aqueles que me ensinam, me ensinaram, me proporcionam e me proporcionaram prazer e conhecimento sobre esse artista e sua banda, que eu amo (ao lado das bandas de Heavy Metal). Na internet, muitos já me disseram que eu mostrei novas visões sobre as canções. Fiquei pensando nisso ontem: eu, ao lado de muita gente que elogiou meus textos, todos anonimamente pelo mesmo motivo. (Pra ficar legal)

Que essa tenha sido a primeira vez de muitas que virão! (A promessa)



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ciclos

Nós, seres humanos, gostamos da ideia de ciclos. Criamo-los. Marcamos datas de início e de fim. Com elas, podemos refletir sobre o que fomos, o que somos, o que queremos e o que podemos ser. Claro, a cada desejo, mais sofrimento enquanto não o realizamos (base schopenhauriana).

E por falar no rapaz, lembrei deste trecho, que um dia eu quis escrever algo semelhante, mas quando descobri que já havia sido escrito e de forma melhor do que a que eu faria, desisti — não gosto muito de paráfrases, uso logo citações:

Cada dia é uma vida em miniatura, onde todo despertar é um pequeno nascimento, cada manhã fresca é uma pequena juventude e cada adormecer na noite é uma pequena morte. Para completar a analogia, poderíamos considerar o desconforto e a dificuldade de despertar como as dores do parto. (SCHOPENHAUER, s/d, p. 66)

(Fantástico! Fantástico!)

É que hoje fiz aniversário, por isso me lembrei desse fragmento. Recebi alguns parabéns verdadeiros, outros nem tanto. Mas sempre pensei que deveríamos dar mais atenção aos pequenos ciclos, àqueles do dia-a-dia, não somente aos anuais. Afinal, cada dia é um nascimento novo. Obviamente, a cada renascer, sofremos no início (às vezes, durante outras horas e momentos também). Condição da vida.

Digo isso porque desejos utópicos me incomodam um pouco. Não há apenas bons momentos na existência. Se desejarmos mais um ano de vida a alguém, obrigatoriamente, desejamos más situações também. Aliás, é através da superação dessas adversidades que crescemos e melhoramos.

Acho engraçado, a cada ano que passa, alguém nos diz que ficamos mais velhos. Errado. Ficamos mais novos! Onde é que entra o Heráclito de Éfeso na história? Que eu saiba, ele não foi esquecido. O homem que se banha num rio não é o mesmo homem de antes, e o rio também não é o mesmo. O que é velho fica para trás. Só permanece o novo.

Há aspectos e ideias (preconceitos e utopias) minhas que deixei no passado. Aí, sim, é algo velho. Há objetos e sentimentos meus que carrego desde criança, estes são antigos. Velho é algo ultrapassado e inútil; o antigo ainda é e pode ser usado. (Por exemplo, estou usando textos de Heráclito, que viveu há mais de 500 anos antes de Cristo, e de Schopenhauer, que viveu no século XIX.)

Então, para que não mais consideremos os aniversariantes como velhos e para terminar este ciclo chamado “texto”, trago uma citação de um escritor mais moderno:

(...) é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando...
(...) Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente não nasce pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado e não no presente. (CORTELLA, 2016, p. 13-14)

Sou o mais novo eu possível.
//

P.S.: Ah, é verdade, já ia esquecendo! Eu mesmo me perguntei qual era o melhor presente a se ganhar e respondi em forma de poema, resposta subjetiva, crença e desejo meu...:

Qual o melhor presente?
É ter alguém presente,
Não num dia somente,
Mas daqui para frente,
Do agora para o sempre
(mesmo que internamente)...

Referências


CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos!: Provocações filosóficas. 19. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.


SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria da vida. Disponível em: <http://imagomundi.com.br/filo/schopenhauer_aforismos.pdf> Acesso em: 19. maio. 2017.

domingo, 14 de maio de 2017

Poema materno

No Dia das Mães, eu queria escrever um poema para a minha, porém não consegui. Fiquei triste e fui relatar a ela, que disse:

— Mesmo se conseguisse, eu não entendo dessas coisas, menino. Eu estudei só até a quarta série. Mas se é o que você quer fazer, continue tentando, mesmo que eu não o compreenda.

Foi assim, então, implicitamente, que ela me ensinou que poemas não se escrevem: poemas se fazem. E não são feitos de uma hora para outra, mas palavra por palavra, ação por ação, dia após dia.

Cada pessoa possui certa linguagem. Não adianta eu escrever palavras difíceis ou bonitas, se o meu receptor, se o meu leitor, se a minha mãe não entenderá.

Aprendi que ela — e muita gente — percebe e demonstra (inconscientemente) que a verdadeira poesia está nas ações cotidianas. Lição básica: um poema é, antes de tudo, sentimento.

No fim, o meu presente acabou sendo este pequeno texto em que quem ensina é a minha mãe. Um dia, também pretendo ser professor.