quarta-feira, 28 de junho de 2017

Análise comparativa entre o filme Valente (Brave, 2012) e a Literatura Infantil

O filme americano Valente (Brave, no original), de 2012, da produtora Pixar, traça uma interessante relação com a Literatura Infantil, tanto com a contemporânea quanto com a antiga, a tradicional, criando, assim, um jogo de aproximações e afastamentos entre certos parâmetros. Para perceber esses padrões, será usado o livro Literatura Infantil: teoria, análise, didática (2000), da escritora Nelly Novaes Coelho.

O filme conta a história de Merida, uma princesa escocesa. A menina, segundo a tradição, deve se casar com algum príncipe dos reinos vizinhos e aliados. No entanto, não é isso o que ela quer — até porque ainda é uma criança... Na verdade, tudo o que a princesa gosta vai contra aos costumes e aos ensinamentos de sua mãe (ensinamentos destinados para toda mulher da época, principalmente às damas). São estes fatores que ocasionam os conflitos entre a filha e a mãe, que podem colocar todo o reino em desgraça.

A película já inicia com uma frase emblemática:

Dizem que o nosso destino está ligado à nossa terra, que ela é parte de nós, assim como nós somos dela. Outros dizem que o destino é costurado como um tecido, onde a sina de um se interliga à de muitos outros. É a única coisa que buscamos ou que lutamos para mudar. Alguns nunca encontram o destino, mas outros são levados a ele. (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 4”28’ – 5”05’)

Percebe-se, então, que há um determinismo no filme, uma tradição a ser seguida ou a ser quebrada; um questionamento entre obedecer ou questionar, que é um dos conflitos entre a Literatura Infantil tradicional e a contemporânea.

Olhando para os personagens, nota-se que Merida é muito parecida com o seu pai (um bravo guerreiro), tanto na aparência quanto nos gostos, que ele influencia desde criança, quando, por exemplo, lhe dá um arco como presente de aniversário — algo inaceitável para a mãe, que diz que damas não devem usar esse tipo de objeto. Ainda sobre o visual da personagem, o cabelo da princesa é ruivo e encaracolado, que ela o usa de forma solta.



É importante ressaltar essas características, porque elas estão ligadas à personalidade da protagonista: solta, livre, guerreira (como o pai). Diferente dela, sua mãe, Elinor, usa o cabelo preso, porque é uma pessoa presa às regras e às tradições da época. Tanto o é, que, no final, quando os conflitos são resolvidos, a mãe anda de cavalo junto da filha (algo que a rainha considerava errado para uma dama) e usa o cabelo solto, o que mostra que ela também se libertou.



(Uma das cenas finais)

Como se vê, Elinor representa a ordem, a obediência que deve haver e que sempre houve na tradicional “literatura para crianças, o domínio quase absoluto da exemplaridade; da rigidez de limites entre certo/errado, bom/mau; etc.” (COELHO, 2000, p. 20). Por outro lado, como já havia sido afirmado, o filme rompe com alguns paradigmas, criando algo inusitado. No caso, a mãe é quem manda na família, ao invés do pai, do esposo — que sempre foi o ente “responsável” para essa situação (ao menos no contexto do filme). Ainda assim, a mulher continua a ser idealizada em Valente. Segundo, Nelly Novaes Coelho (2000):

(...) essa superioridade do homem, patente no plano da vida prática, corresponde à idealização da mulher, no plano dos valores ideais conforme se vê na literatura, num prolongamento evidente da valorização da mulher, iniciada na Idade Média (...) Na literatura para crianças, todas essas características aparecem de maneira evidente, quase caricata, reforçando os limites entre o que é próprio da mulher e do homem. (p. 21)

 No filme, isto é reforçado com uma moral dogmática e uma reverência pelo passado, não somente pela rainha, mas pelos reis aliados também, que, na “data certa”, levaram seus filhos como pretendentes para cumprirem o seu destino e dar continuidade à família. Para “conquistarem” a moça, como os antepassados sempre fizeram, todos competem em jogos. Não há sentimentos envolvidos, apenas rituais.

Ainda sobre a reverência ao passado, é interessante notar como a mãe conta uma história à filha, uma lenda que, segundo ela, realmente aconteceu. Essa narrativa traz um rei que dividiu a sua terra para seus quatro filhos, mas o mais velho era mais ganancioso e desrespeitou o pai, tomando tudo para ele. Contudo, o reino se desfez em ruínas, caos e guerras. São as “verdades” passadas de geração em geração. Mais do que isso, a rainha utiliza de todo um jogo de persuasão sobre a menina, para fazê-la aceitar a ordem “natural” dos fatos e culpá-la, implicitamente, se caso acontecer algo ruim ao reino e à paz atual. Observe este diálogo:

Merida — É uma bela história!
Elinor — Não é só uma história, Merida. Lendas são lições, elas carregam a verdade.
Merida — Ah, mãe!
Elinor — Eu aconselharia você a aceitar isso. (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 13”38’ – 13”50’)


(Os quatro antigos príncipes irmãos: três bons e um ruim, três sob a luz e um sob as sombras, os três de cabeça baixa, em respeito ao pai, e um de rosto erguido, em sinal de orgulho. Outra “coincidência” é que Merida é a mais velha dos quatro filhos do atual reino.)

Novamente, há outra contradição vinda da própria mãe autoritária, que, na história, para fazer a filha se casar, contou a lenda de um reino se desfez porque um filho agiu sozinho ao invés de agir em conjunto com os outros três irmãos. O espírito solidário é um conceito da Literatura Infantil contemporânea, não da tradicional.

No plano visual, quando a rainha prepara a filha para conhecer os pretendentes, a roupa que a princesa usa, tão apertada — a ponto de ela quase não conseguir se mover e respirar —, reflete como ela se sente interiormente. Além disso, diferentemente da mãe, a menina só fica com o rosto e as mãos para fora. Irreconhecível (para a mãe: linda, perfeita), isto é, sem identidade alguma.
 



No entanto, não há jeito, a menina não quer se casar e humilha a todos os pretendentes no jogo que ela mesma propôs: arco e flecha.

 (É interessante pensar que a flecha, quando atirada, possui um destino certo, o que lembra a passagem narrada no início do filme.)

Com isso, a princesa recebe uma bronca da mãe, que diz que os meninos foram envergonhados (algo inaceitável na Literatura infantil tradicional) e que ela é a rainha, que a filha deve ouvi-la:

Elinor — Agora foi demais, você passou dos limites, mocinha!
Merida — Mas foi você que quis...
Elinor — Você os envergonhou! Você envergonhou a mim!
Merida — Eu obedeci às regras.
Elinor — Você não sabe o que fez!
(...)
Merida — Me escuta!
Elinor — Eu sou a rainha! Você ouve a mim!
Merida — Ah, isso é muito injusto!
Elinor — Como é?
Merida — Você não se importa comigo! Essa história de casamento é o que você quer! Você já pensou em perguntar o que eu quero? Não! Você sai por aí me dizendo o que fazer, o que não fazer, tentando me fazer ser como você! Mas eu não vou ser como você!
Elinor — Ah, está agindo como uma criança...
Merida — E você é um... monstro! Isso é o que você é!
(ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 27”03’ – 28”04’)


Dois elementos importantes neste trecho: como a mãe utiliza não da sua posição familiar, como mãe, mas da sua posição social, como rainha, para fazer a filha ficar quieta. E, segundo, o tratamento da menina como um adulto em miniatura, conceito da Literatura Infantil tradicional. Ao mesmo tempo, há o questionamento da autoridade por parte de Merida, o “Repúdio ao autoritarismo. Consciência da relatividade dos valores e ideais criados pelos homens (...)” (COELHO, 2000, p. 25), característica da Literatura Infantil contemporânea.

Após essa discussão, a princesa, momentaneamente, numa ira súbita, rompe com sua mãe. Aqui, a linguagem não-verbal também é importante, porque assim como ela corta sua obediência à rainha, também corta um tecido que representa a ligação da família. Não num ponto qualquer, mas exatamente entre as duas:
  


Em seguida, a menina foge e se encontra com uma bruxa na floresta. Não é a primeira vez que elementos mágicos aparecem no filme, pois, no início, já havia aparecido luzes mágicas — que o pai não acredita existirem, o que mostra que a praticidade (o rei era apenas um guerreiro) faz perder certo encanto que há em alguns aspectos da vida.

Do contato com a bruxa, Merida consegue um encanto que mudará a sua mãe, porém, o que ela não sabia, é que Elinor se transformaria num urso (assim como o antigo príncipe mal — aquele da lenda — recorreu à bruxa para ter a força de dez homens, transformando-se num urso — o mesmo urso que atacou a família de Merida, no início do filme). O interessante é que no início da película, quando a princesa ainda é uma criança, vê-se a rainha procurando-a, as duas brincando de esconde-esconde, e ao achar a filha, a mãe, que estava dizendo “eu vou te pegar” (e não “eu vou te achar”), finge que é um urso e que estava devorando a criança. É como se fosse o destino transformando a brincadeira em realidade (tal como o fantástico tornou-se real)...

Assim, Merida e a mãe têm pouco tempo para desfazerem o feitiço (dois dias, exatamente). Nesse meio termo, Elinor aprende que estava errada, que, às vezes, é preciso seguir os instintos (tal como um animal...) ao invés de querer raciocinar tudo. Não é muito diferente do que Nelly Novaes Coelho (2000) ensina sobre a intuição, elemento da Literatura Infantil contemporânea: “A intuição, pondo em xeque a lógica convencional ou o senso comum, abre campo para um novo conhecimento. Daí o atual renascimento da fantasia, do imaginário, da magia, do ocultismo...” (p. 26).

É transformada em urso que a rainha perde tais aspectos que ela possuía enquanto humana, como a etiqueta na hora de comer, por exemplo, ou a hora que, simbolicamente, ela deixa a coroa esquecida sobre uma pedra e vai caçar (algo que ela não permitia que a filha fizesse). É outro valor da nova literatura infantil, a valorização do ser ao invés do ter.

Quanto à coerência do filme, não se pode deixar passar batido o significado do “enigma” para desfazer o feitiço com o ato antes praticado pela princesa, além da frase emblemática citada no início do filme. As falas da bruxa para desfazer a transformação da mãe: “Sina alterada, olhe sua alma. Remende a união por orgulho separado.” (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 49”54’ – 50”02’). A ordem é para costurar novamente a tapeçaria em que a filha cortou, simbolicamente, a ligação entre ela e a mãe, no dia da grande discussão. Agora, parte da frase do início do filme: “Outros dizem que o destino é costurado como um tecido, onde a sina de um se interliga à de muitos outros (...)” (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 4”38’ – 4”47’). (Além disso, não se pode esquecer que a tábua que mostrava os quatro filhos do antigo rei também estava quebrada, separando o irmão ganancioso dos outros.)
  


Por fim, mas não antes de resolver o feitiço, Merida ensina a todos os pais dos pretendentes que a questão não é sobre disputa, mas sobre colaboração; que todos são e foram importantes para manter a paz que há no reino até hoje, não há um único herói, mas todos o são. O passado não deve ser idealizado e seguido, mas redescoberto, que a vida é uma mudança contínua. E, principalmente, que cada um é responsável pelos seus atos, não mera peça jogada pela mão do destino. A princesa é a representação das crenças da nova Literatura-Infantil.

A intertextualidade do filme com os contos de fada

Além de todos esses fatores que sempre apareceram na Literatura Infantil tradicional e dos que aparecem na contemporânea, há algumas intertextualidades do filme com os contos de fada e com as histórias clássicas. Essa intertextualidade acontece, principalmente, no nível das figuras: princesa, rei, rainha, enfim, pessoas aristocráticas; obviamente, o contexto é o da Idade Média: castelo, reino etc.; os elementos mágicos e simbólicos: bruxa (não tão má assim), luzes mágicas, feitiços, vassoura mágica, corvo etc.; a bruxa faz bonecos de ursos de madeira, mas que, quando se fala em “boneco de madeira”, é possível lembrar do personagem Pinóquio; e embora a mãe, transformada em urso, e o antigo rei mal, também transformado em urso, não falem e ajam como animais, ainda assim, é possível lembrar das fábulas — e junto dessas, das lições de moral que o filme transmite.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

VALENTE. Direção: ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda. E.U.A: Pixar Animation Studios, 2012. 93”37’. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Embasamento teórico para a elaboração do livro "As primeiras palavras de uma criança" (2017)

“(...) A literatura, e em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.” (COELHO, 2000, p.15).


É com esta citação que inicio esta pequena defesa e justificativa da escrita e da leitura de textos e de livros infantis, que são (os textos e livros infantis) uma forma (riquíssima) de demonstração, compreensão e formação do mundo e do indivíduo ainda criança/adolescente.

Hoje, lê-se cada vez mais, por isso, deve haver boas referências no campo da literatura, não apenas vindas de autores clássicos e consagrados, mas de novos escritores também. Afinal, os tempos mudaram, logo, alguns conceitos e valores idem. Assim, as temáticas, as figuras e as abordagens sobre o mundo e a literatura infantil devem mudar. É isso o que As primeiras palavras de uma criança (2017) tenta propor.

As primeiras palavras de uma criança traz algumas memórias e vontades de um menino chamado Magno Júnior. De certa forma, pode-se dizer que é um texto metalinguístico, pois o narrador/personagem está escrevendo um livro — inclusive, ele mesmo (o Magno) diz que fará as imagens, mas que, no caso, quando lêssemos a história, elas já estariam feitas. A metalinguagem também aparece quando, em algumas figuras, há trechos que já foram escritos nas páginas anteriores (autorreferências).

Pois bem, o livro é construído sob a voz de uma criança — o que já é importante — contadora de histórias, que possui a liberdade de escrevê-las e o incentivo de seu pai à leitura desde cedo. Porém, o incentivo é a favor da leitura de enciclopédias, algo que não faz (nem deve fazer) parte da realidade de uma criança. Muitas vezes, a decepção com a leitura de um texto inadequado à mentalidade da pessoa pode fazê-la se afastar dos livros.

Foi o que quase houve com Magno Júnior, que afirma que aquele conteúdo (conhecimentos sobre Hitler e sobre as proteínas) não é/era importante, não devia ser iniciado em casa, durante essa idade, porém mais tarde, na escola (que é o que acontece). Essa afirmação demonstra a quebra da obediência absoluta, que é/era um dos valores tradicionais que “(...) transformou a ‘autoridade’ em ‘autoritarismo’” (COELHO, 2000, p. 20), como se houvesse alguém detentor do poder e do saber.

Pelo contrário, Magno Júnior traz algo da Literatura Infantil mais atual, que é o questionamento da autoridade e a consciência da relatividade dos valores e dos ideais (COELHO, 2000). Um dos momentos em que podemos notar tais conceitos é quando o personagem diz não acreditar que alguém seja autodidata, pois quem escreve o livro, de certa forma, está ensinando quem o lê. Embora boba, é uma opinião e uma reflexão.

Além deste, há as questões feitas à professora de Ciências e aos professores da catequese. Claro, o direcionamento das indagações foi errado, pois ele pergunta sobre religião para a professora de ciências e sobre ciência para os catequistas. Porém, esse ato demonstra a inquietação e a ingenuidade do personagem (que não compreende a Física, muito menos a Metafísica — afinal, ele só possui 11 anos).

Em outro trecho, Magno Júnior diz que acha que os professores não sabem tanto das coisas e que seus pais estão errados sobre os professores saberem sobre tudo. Percebamos esse “acha”, pois não é uma certeza, mas uma dúvida do personagem, um questionamento sobre o seu próprio pensamento.

É importante ressaltar a preocupação da criança com as representações (figuras, desenhos) daquilo que estava sendo dito. Ela mesma diz que fará as figuras depois, pois parece que assimilamos melhor o conteúdo quando há imagens representando-o. Este pensamento é exatamente — embora com outras palavras — o mesmo de Gregorin (2010): “O texto não verbal (visual) se desenvolve com cenografias e figuras de modo a um compor o outro, e os dois (visual e verbal) constroem um único texto, apropriado ao fazer interpretativo do enunciatário (p. 16).

No curto livro, percebe-se, também, a consciência de igualdade entre o gênero feminino e o masculino, “não mais estigmatizados pelo o que é certo ou errado para o homem e para a mulher” (COELHO, 2000, p. 25). Isso acontece quando Magno Júnior diz respeitar muito as meninas, pois possui algumas amigas que são mais amigas do que os meninos. No mesmo parágrafo, o personagem fala de rumores de que escrever é coisa de menina, um preconceito antigo, mas que, segundo ele, estão errados e todos deveriam escrever.

Aliás, levanto uma simples e rápida questão aqui: Se ao longo do tempo poucas mulheres tiveram o privilégio da escrita, sendo a maioria dos livros escritos por homens — até hoje! —, então, por que existiu a imagem de que “escrever é coisa de mulher”? Atualmente ainda há resquícios desse pensamento. Pensemos.

Além desses tópicos abordados, o livro incentiva as crianças a lerem e a escreverem. Magno Júnior, por exemplo, escreveu o texto por simples vontade. Outras crianças também podem fazê-lo, basta incentivá-las. A escrita, segundo Nelly Novaes Coelho (2000), é um “ato-fruto da leitura assimilada e/ou da criatividade estimulada pelos dados de uma determinada cultura.” (p. 18).

Por fim, As palavras de uma criança possui intertextualidades (em forma de citação) com alguns desenhos japoneses, como os personagens Gohan, Griffith, Roy (Mustang) e Hyoga, respectivamente dos animes Dragon Ball Z, Berserk, Full Metal Alchemist e Cavaleiros do Zodíaco, que fazem parte da realidade e do gosto do personagem principal. Também há a menção dos quadrinhos do Senninha, no início do livro.

Em suma, baseado nestes poucos conceitos adotados dos livros da Nelly Novaes Coelho e do José Nicolau Gregorin Filho, As palavras de uma criança foi escrito. Penso que o livro serve não apenas para a função pedagógica, mas pelo prazer estético também. Na verdade, primeiro escrevi o texto, depois notei os conceitos. Aliás, foi um prazer tê-lo feito.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

GREGORIN, José Nicolau Filho. Literatura infantil: múltiplas linguagens na formação de leitores. São Paulo: Melhoramentos, 2010.

SIQUEIRA, Carlos. As primeiras palavras de uma criança. São Paulo: Novas Vozes, 2017.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

As primeiras palavras de uma criança

Neste semestre, enquanto estudava a disciplina Literatura Infanto-Juvenil, foi pedido um trabalho que consistia na criação de uma história infantil, em formato de livro (simples), com ilustração e tudo mais. Abaixo, eis o meu trabalho escaneado [desculpe(m) pelas sombras remanescentes]. Como algumas páginas não foram pintadas, nem possuem uma espécie de borda, para diferenciar umas das outras, penso que é melhor clicar na primeira imagem e, em seguida, clicar ou apertar o direcional da direita, para ir para a próxima:


























quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rua dos Dias, de Paulo Franco: um diálogo entre eus, nós e os outros

A rua dos dias (2017), novo livro do poeta Paulo Franco, é curto pela quantidade de páginas, mas intenso e extenso na qualidade e profundidade de seus poemas. O autor investiga e trabalha vários temas, mas o foco maior está na questão do tempo, do instante, do passado e do futuro, da subjetividade do eu (na maioria das vezes, fragmentado). Como são quase quarenta poemas, o presente texto discutirá apenas alguns deles — e não integralmente.

Vivemos na chamada Modernidade Líquida, ou Pós-Modernismo, uma época em que tudo acontece muito rapidamente e quase não temos tempo para a reflexão, para a lembrança, para a imaginação e para os sonhos, o que nos faz, de certa forma, morrer aos poucos, como Paulo Franco já havia retratado no poema Óbito, presente na sua antologia inacabada, A máscara no espelho (2012). Porém, o poeta, sensível, sempre na contramão da massa, rebusca o seu passado e reflete sobre quem foi, o que traz a dor, infelizmente, de saber quem ele também não foi. No primeiro poema da nova obra, As cigarras e os girassóis, é dito: “As imagens que vejo sobre o que vivi, / hoje, são pitorescas alegorias / sobre o que não fui ou vi.” (p. 14).

No mesmo texto, estrofes abaixo do trecho supracitado, percebe-se a profundidade e o lirismo do eu-lírico que, como é confessado, não foram notados pelas pessoas ao seu redor: “Na taipa da alma, um menino se escondia / alimentado pela luz de cada dia / que alicerçava a poesia / meio a prantos e encantos / que ninguém nunca percebeu.” (p. 14). É assim, com o tempo, que os seres vão mudando, “virando outra coisa, / pois que tudo o que havia já não há, (...) Agora o tempo é outro, / sou outro a cada lembrança, / a cada presente que se desfaz / para virar as lembranças dos outros.” (p. 15)... As memórias sempre continuam e continuarão, bem como o eu-lírico lembrou-se de sua infância ao ouvir o canto das cigarras, que o remeteu aos cantos de seus parentes que partiram...

Outro poema que fala de memórias é Catacrese. Para quem não sabe, catacrese é uma figura de linguagem que utiliza combinações de palavras já existentes para designar algo que não possui um nome exato para si, por exemplo: costa(s) da cadeira, céu da boca ou manga da camisa. O eu-lírico se utiliza de várias catacreses ao longo do texto: “pé do fogão”, “perna da mesa”, “braço do sofá”, “asa da xícara”, “cabeça do alho” e “bico do bule” (aliás, perceba a aliteração em [B], que cria um ritmo durante a leitura), para dizer que em cada lugar da casa há uma memória, há uma história.

Por fim, o eu-lírico indica que a própria palavra “saudade” é uma espécie de catacrese, pois ela é “como um sentimento / que de tão intenso / parece que ainda não tem nome” (p. 23). Dizem que o vocábulo “saudade”, no sentido que a língua portuguesa o emprega, não existe em nenhum outro idioma. Agora, é interessante esta importância, esse olhar diferenciado para os objetos, para as coisas, pois é o que Drummond já havia alertado em A flor e a náusea: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (2010, p. 36).

Por falar em Drummond, há um poeminho em que ele também fala da asa da xícara, mas sem usar catacrese, pois utiliza o termo “aparador”. Chama-se Cerâmica: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, / ela nos espia do aparador.” (idem, p. 288). Em Catacrese, Paulo Franco também fala sobre os pedaços da vida, perdidos pelos cantos da casa. Nele, os objetos não nos observam, mas em seu poema As coisas, presente em A máscara no espelho (2012), sim.

Ao lado das ações que podem/poderão ser feitas amanhã, A rua dos dias (2017) reflete muito sobre o que não foi realizado ontem, o que causa um sentimento de culpa e de desilusão no presente do eu-lírico. Em Culpas, ele confessa: “A esperança cambaleia no remorso / de cada sensação que não vingou” (p. 27), versos que coadunam com aqueles do primeiro poema, As cigarras e os girassóis, que foram citados no segundo parágrafo. São sentimentos que todos possuem em vários momentos, que o poeta capta e transforma em arte.

É sobre isso que o eu-lírico de Linguagens fala, sobre o medo “da linguagem do tempo / quase sempre à toa. / Fluídicos sentimentos, / lembranças, passado intemporal, / que como ave voa.” (p. 35) A propósito, perceba o jogo de linguagem utilizado neste curto trecho: que co(mo) (a)ve vo(a), duas pequenas aliterações seguidas, em [K] e [V]. É um poema em que o eu-lírico tenta se descobrir, se conhecer, se reconhecer e conhecer aos outros, nessa “escuridão que se instala” (p. 36) e que ninguém se entende, pois “os semelhantes / não exercem uma língua una” (p. 36)...

É interessante notar a coerência desta ideia do autor: o poeta “nunca sabe além do que pressente ou vê ou viu.” (p. 35), são apenas intuições nesta escuridão em que todos habitam. Outro poema que discute este tema é Semântica, também presente na antologia A Máscara no Espelho (2012), mas publicado primeiramente em Pétalas de Insônia (1999), onde também um poeta confessa que “Minha semântica / é medo, / é solidão. / Minha ilusão, espírito / e pouca coisa mais / além do que pressinto / desta escuridão.” (1999, p. 46)

Mais uma intertextualidade interessante que há em A rua dos dias (2017) está no poema O brinco. Uma das estrofes diz: “Sereno mato a minha dor / e estrangulo quem não sou / para saber de mim.” (p. 43), mas essa é a primeira estrofe do poema O bobo, presente na antologia A máscara no espelho (2012). Porém, os dois textos tratam de temas diferentes. Não se trata de falta de criatividade, mas de afirmação do mesmo pensamento, que pode ser aplicado em várias situações.

Ainda sobre intertextualidades, o novo livro de Paulo Franco traz vários metapoemas (poemas que falam sobre poema/poesia), um deles se chama “O tecido”, no qual o eu-lírico diz não trazer “promessas vis para vislumbrar os olhos de ninguém”, que é, de fato, o dever de quem escreve ou de quem atua profissionalmente bem: fazer o seu trabalho de forma verdadeira, não de forma falsa, para agradar aos outros. No entanto, todo ser humano é complexo e contraditório, e “O poeta mente inclusive em ilusões / quando vê belezas que nunca se viu / em coisas que são naturalmente feias” (p. 55).

É o caso de “‘Uma pedra no caminho’, / ‘uma flor que nasce no asfalto’” (p. 56), que fazem referência aos textos No meio do caminho e A flor e a náusea, ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Segundo o eu-lírico, “são exemplos típicos / desta maquiagem que o poeta / ensandecido proclama para cutucar / o nosso olhar de mar e icebergs.” (p. 56) Na verdade, é a antiga lição de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (s/d, p. 9).

Porém, a ficção, ao pintar/deformar/exagerar/transcender a realidade, facilita e esclarece alguns fatos reais e cotidianos. E é importante lembrar: o poeta até pode até ser falso, mas, como diria Mario Quintana, curiosamente, o poema é uma “estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face...” (2008, p. 127).

Sobre a fragmentação do ser humano, é bela e triste a primeira estrofe de Os jardins e os sonhos: “Somos um pouco do pouco que restou / de cada um que fomos em cada momento da vida / feita de pedaços e olhares e jardins e esperanças / que se despedaçam refazendo-nos / a cada instante que fica para trás.” (p. 61). Ninguém é uno (e, por isso, como foi dito em Linguagens, a linguagem dos semelhantes também não é una), cada um é vário em cada pequeno período. É nisto que reside a complexidade humana, a angústia e a perplexidade do poeta, que se vê perdido entre tantos outros, eus e possibilidades, que lhe causarão culpa posteriormente...

Porém, o artista/poeta pega estas “pedras no meio do caminho” e as modela, transformando as dificuldades em arte, como o eu-lírico conta em O tempo e a pedra, um dos melhores poemas do livro. Eis alguns versos: “A pedra (...) / é bem maior que o poeta / que só eterniza o poema / que faz de uma pedra uma onda / e da onda o sonhar (...)” (p. 60). Esta ideia rima com a primeira estrofe de O belo, poema de Paulo Franco, de 1999, do Pétalas de Insônia, que diz: “O novo nascerá vindo do velho / qual artista que a martelo / a arte nova cria / transformando a pedra em belo.” (p. 24). Percebe-se, então, a coerência e o aperfeiçoamento do poeta ao longo dos anos, que não só se aperfeiçoa, mas melhora aqueles que o leem também.

Em suma, A rua dos dias é um excelente livro de poesia, de um dos melhores poetas nacionais da atualidade, que mantém o seu nível e ritmo ao mesmo tempo em que tira fôlego e lágrimas dos leitores mais sensíveis. Há vários outros temas abordados na obra, alguns poemas possuem técnicas mais elaboradas, outros são mais livres, porém todos são profundos. Os eu-líricos de Paulo Franco, enquanto buscam a si, presenteiam quem os lê. Um trabalho sobre o passado, o presente e o futuro; poemas sobre o interior e o exterior. Livro atual e recomendadíssimo a qualquer leitor de Literatura que se preze. 

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA, Instituto de Ensino Superior “Santo André”, Santo André - SP.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Paulo. A Máscara no Espelho: uma antologia inacabada. São Paulo: Scortecci, 2012.

______________. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

______________. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000006.pdf>. Acesso em: 22. Jun. 2017.

QUINTANA, Mario. O poema. In: 80 anos de Poesia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2008.

domingo, 11 de junho de 2017

Resenha do show Metal Ballads, do Edu Falaschi e All Star Band, no Manifesto Bar

Ontem, 10/06/2017, no Manifesto Bar, houve um show de celebração ao Dia dos namorados, liderado por Edu Falaschi (Almah, ex Angra e Symbols), seguido por “sua” All Star Band, composta pelos músicos Ricardo Confessori (ex Shaman e Angra) na bateria, Luis Mariutti (About 2 Crash, Motorguts, ex Andre Matos, Shaman e Angra) no baixo, Junior Carelli (Noturnall, ANIE e ex Shaman) nos teclados e Demian Tiguez (ex Symbols) na guitarra. O concerto ainda contou com a presença do baixista Raphael Dafras, da banda Almah.

Embora o supergrupo seja formado por lendas do Metal Nacional, a proposta do show foi de apenas tocar baladas, tanto as do Angra quanto as do Almah. Uma ideia diferente e interessante, que até agora não havia acontecido, mas que já era querida por muitos fãs, principalmente pelos românticos.

Todos os músicos foram e são competentíssimos: Edu Falaschi, que recentemente lançou o álbum E.V.O. (com a sua banda Almah), mostrou que realmente voltou a cantar notas agudas como nos tempos de Angra. Júnior Carelli, sempre simpático, não só toca as músicas da forma como foram gravadas originalmente, mas também improvisa algumas introduções diferenciadas, o que enriquece a apresentação. Luís Mariutti, como é de seu costume, faz o seu trabalho responsável e seriamente, na dele. Ricardo Confessori não toca da mesma forma que o seu sucessor no Angra, Aquiles Priester (Hangar, Noturnall e ex Angra), mas faz mais do que o necessário, pois impõe o seu estilo na música. Raphael Dafras já é conhecido do público, parceiro do Edu no Almah, não precisa de comentários. E, por fim, Demian Tiguez, o antigo guitarrista do Symbols, banda dos irmãos Falaschi, ainda nos anos 90. Embora seja o mais desconhecido, o rapaz executa as canções eximiamente. Foi, com certeza, um dos destaques da noite.

O show começou com três músicas do Angra: Heroes of Sand, Wishing Well e Lease of Life, respectivamente dos álbuns Rebirth (2001), Temple of Shadows (2004) e Aqua (2010). Três músicas da fase em que Edu Falaschi passou pela banda. Essa última também faz parte da época que o baterista, Ricardo Confessori, ainda era um membro do Angra.

Em seguida, tocaram Breathe, canção do primeiro e homônimo álbum do Almah, lançado em 2006. Logo após, um momento muito bonito de reconhecimento do vocalista pelos parceiros Luís Mariutti e Ricardo Confessori, é tocada Lisbon, canção que não é da época do Edu, mas é do baterista e baixista, junto do primeiro vocalista do Angra, Andre Matos.

Depois, foi a vez de Warm Wind, música sempre presente nos concertos do Almah, uma balada feita pelo Edu em homenagem à sua filha. Posteriormente, duas surpresas: Breaking Ties e Dream On. A primeira faz parte do repertório do álbum Aurora Consurgens (2006), um dos mais injustiçados pelos fãs do Angra, e a segunda é um clássico do Rock Internacional, de 1973, da lendária banda Aerosmith. Porém, a versão tocada pela All Star Band foi a do grande Dio em parceria com o Malmsteen, pilares e mestres do Metal. Edu cantou Dream On de forma muito dramática, com alguns ecos, ficou muito bonita.

As próximas baladas foram Forgotten Land, Bleeding Heart, Visions Prelude e Nova Era. Exceto a primeira, que é do Almah, todas as outras são do Angra. Bleeding Heart compõe o Hunters and Prey (2002) e as duas últimas fazem parte do Rebirth, álbum de estréia de Edu na deusa do fogo. Detalhes: Visions Prelude nunca havia sido tocada ao vivo e Nova Era foi executada acusticamente, teclado e voz, que é a versão do Moonlight (2016), trabalho solo do vocalista, posto que a música é uma pauleira.

Por fim, três músicas do Angra: Rebirth (do álbum homônimo e de estréia do Edu), Late Redemption (do excelente Temple of Shadows) e a inesperada Carry On (do primeiro trabalho da banda, o Angels Cry, de 1993) fecharam majestosamente a noite.  A penúltima música foi uma das que mais emocionaram o público, que cantou em coro, tanto as partes em português, originalmente gravadas pelo grande Milton Nascimento, quanto os trechos em inglês, pelo Edu Falaschi, que são a maior parte.

A última canção requer dois parágrafos somente para ela, pois foi um dos momentos mais bonitos do show. Carry On, como se sabe, não é da época do Edu, mas do primeiro vocalista do Angra, segundo o próprio Edu Falaschi,  ontem: “o grande Andre Matos”. Além dele, na época, faziam parte da banda o baixista Luís Mariutti, o baterista Ricardo Confessori (embora este não tenha gravado o primeiro álbum, pois entrou somente depois do lançamento), ambos presentes no concerto de ontem, e os guitarristas Rafael Bittencourt (Angra e Bittencourt Project) e Kiko Loureiro (Megadeth e ex Angra).

Segundo Edu, embora a ideia do show seja tocar somente baladas, ele se vê na obrigação de tocar essa música que mudou a vida de muitos fãs, de muitos músicos e de todo o cenário do Heavy Metal nacional e internacional, no formato original: rápida, pesada, metal, pois é um dos hinos do Power Metal, gênero que o Angra ajudou a criar. Além disso, tocá-la é uma maneira de prestigiar o baixista Mariutti e o baterista Confessori, que são pessoas importantes desta história criada ainda nos anos 90, quando ele, Falaschi, estava com sua primeira banda, o Mitrium, e nem imaginava que um dia entraria para o Angra. Para isso, convidou uma menina da plateia, uma moça que grava vídeos e posta no Youtube, cantando músicas do Angra e do Almah, para fazer um dueto, ajudando-o nas notas mais altas. (Agora, é ela quem não imaginava que um dia estaria cantando junto com ele...)

Com isso, fecha-se a noite com chave de ouro. Se há algumas críticas positivas a se fazer, essas são: se o projeto continuar, aumente o tamanho do setlist, quinze músicas é pouco. Não foi tocada nenhuma música dos álbuns Fragile Equality (2008) e Motion (2011), do Almah; não foi executada nenhuma balada do Symbols, banda underground muito querida pelos fãs; houve apenas uma música do Aurora Consurgens e do Aqua, trabalhos subestimados do Angra. A outra dica é: Edu, decore ou releia as letras. Foram bem poucos deslizes, mas perceptíveis.

Finalmente, tomara que surjam mais oportunidades de shows do projeto, que ele continue e que volte à grande São Paulo novamente, em breve.

Setlist:

Heroes of Sand - Angra
Wishing Well - Angra
Lease of Life - Angra
Breathe - Almah
Lisbon - Angra
Warm Wind – Almah (participação de Raphael Dafras)
Breaking Ties – Angra (participação de Raphael Dafras)
Dream On - Aerosmith
Forgotten Land - Almah
Bleeding Heart - Angra
Visions Prelude - Angra
Nova Era acústica - Angra
Rebirth - Angra
Late Redemption - Angra
Carry On – Angra.