sábado, 26 de agosto de 2017

Figuras de linguagem

Num cômodo fechado, metido a estudante, conversava um chato casal de namorados ou de amigos:
— Nossa, como você está maravilhosa!
— Ah, pare! Eu não gosto de hipérboles...
— Mas não é hipérbole, na verdade, estou em dúvida se é um tipo de eufemismo, porque “maravilhosa” é pouco, ou se é uma espécie de catacrese, por não haver palavras para te descrever!
— Bobo, crie uma palavra, então... Um neologismo...
E assim prosseguiram, num jogo de luzes e sombras, trocando e tocando em assuntos que deveriam ficar fora do cômodo.
Todos somos figuras de linguagem, mas aqueles dois são da mais chata possível. 

Mímesis

Fiz uma piada e todos riram. Fiquei feliz ao vê-los felizes, sorri também e falei:
— Acho muito bonito quando vocês se divertem com as minhas graças.
Na mesma hora, todos mudaram, ficaram sérios, desconcertados, e eu virei reflexo. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Relações e interpretações

A promessa de um fiel pode até parecer bem intencionada, porém, no fundo, é uma espécie de chantagem: se me deres A, dar-te-ei B, mas Tu deverás ser o primeiro a cumprir o trato.
Na verdade, isso revela uma má leitura dos textos sagrados e do mundo, porque o bom leitor e verdadeiro fiel sabe que Deus não precisa disso. Tanto é assim, que Ele nem responde.
Além da distância entre os dois (daí a dificuldade de um ouvir o outro), ambos falam línguas diferentes. Um fala e vive na imaterialidade, nos sentimentos, na subjetividade; já o pedinte, no materialismo, na objetividade.
Os tempos são outros, então, não espere uma troca: ou dê, ou peça. Outro conselho: conte a e conte com quem está próximo. É mais fácil. Faça-se próximo também. E não use o pronome Tu ou a mesóclise, por favor, porque isso é uma coisa mais antiga do que Deus. Nem Ele entende. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Uma questão de alteridade

Imagine uma sociedade onde todos os humanos, homens e mulheres, fazem as suas necessidades na rua, nos postes ou nas rodas dos carros. Consegue?
Pois, então, saiba que todos estão nus e que quase não tomam banho, mas nem por isso cheiram tão mal (exceto quando brincam de se deitar sobre algum corpo morto); que as mulheres, quando querem reproduzir ou sentem necessidade de copular, saem (nuas) às ruas e são abusadas por qualquer homem (isso não é muito difícil de imaginar, já que, em nosso mundo, os homens assediam frequentemente as mulheres contra a vontade delas). Aliás, os machos não diferenciam as suas mães de outras fêmeas. E fazem tudo ali, na rua, na frente dos invejosos.
Pense na cena: os carros e as motos passam pelos cidadãos e estes correm atrás dos veículos, gritando e xingando, mesmo que não possam fazer nada contra as máquinas.
Agora, o mais engraçado e espantoso: imagine que você está passeando por um lugar qualquer e, de repente, vários homens e mulheres saem das suas casas e vão até os portões, simplesmente para lançarem ofensas e ameaças contra a sua pessoa. Ou, então, pior ainda: você está andando e repentinamente sente uma presença nas suas costas... É outro humano cheirando os seus órgãos genitais (por trás)... Ou você sente vontade de fazer isso nos outros...
Pois é... É nisto o que eu penso, às vezes, quando caminho com o Rambinho, Diógenes. 

Dia dos pais

Sou neto, filho e bisneto, mas mesmo sem ter tido nenhuma namorada ainda, também sou pai. Como? É que sou pai de mim mesmo: eu crio-me. Todos os dias, alimento e brinco com a minha criança interna (e eterna, pois ela não cresce nunca). Às vezes, faz cara feia; às vezes, sorri; às vezes, sou eu quem fico triste e é ela quem me anima, lembrando-me das experiências boas que vivenciamos juntos.  Ah, este menino...
Hoje, ele (que se chama Carlinhos) me disse para ter esperança (dos dois tipos), que logo eu acharei uma mamãe para ele e, quem sabe, um dia, possamos lhe dar um irmãozinho...
Coloquei-o para dormir, porque este sonho é muito bom e bonito e vale a pena ser sonhado por nós dois. Às vezes, esse menino é como um pai para mim...


13/08/2017